Criatividade

Quadrinista brasileiro viraliza no mundo denunciando injustiças sem usar texto em suas tiras

Vitor Paiva - 01/04/2022 às 15:18 | Atualizada em 05/04/2022 às 10:36

Os emocionantes e profundos quadrinhos do desenhista brasileiro Ademar Vieira vêm ganhando grande popularidade por toda a internet, com um detalhe fundamental que amplia o talento para o traço e para o desenvolvimento de histórias do artista amazonense: suas tiras não utilizam uma palavra sequer. Revelando dilemas e apontando o dedo para aspectos profundos da realidade atual, Ademar desdobra suas narrativas de forma tocante e reflexiva, mas sem precisar recorrer ao texto e à imposição das falas, permitindo que o leitor navegue pelos sentimentos de cada quadrinho, preenchendo com sua própria voz a silenciosa sugestão ofertada por cada sequência.

Cenas do quadrinho intitulado "Pesadelo", de Ademar

Cenas do quadrinho intitulado “Pesadelo”, de Ademar

-HQs no Brasil: uma ferramenta de transformação social

“Em janeiro de 2020, eu passei por uma fase muito ruim da minha vida, e creio que são nesses momentos que a arte se faz necessária. Sem perceber, eu quis sublimar um sentimento negativo, transformando-o em algo bom: arte”, ele conta, sobre o processo de feitura da tirinha “Vazio”, a primeira de sua lavra, e ilustrando a força emocional e real que percorre as narrativas que desenha. “Desde então, não parei mais. As tiras me ajudaram a superar a fase difícil, e espero que elas possam ajudar você também de alguma forma”, ele convida, em texto de divulgação do livro “Sem Palavras”, que lançou recentemente.

As questões ecológicas e ambientais também entram nas tiras silenciosas do brasileiro

As questões ecológicas e ambientais também entram nas tiras silenciosas do brasileiro

Muitas vezes Ademar divide sua tira para ilustrar paradoxos sombrios da realidade contemporânea

Muitas vezes Ademar divide sua tira para ilustrar paradoxos da realidade contemporânea

-Dicionários de palavras inventadas tenta explicar sentimentos inexplicáveis

Temas como a guerra, os refugiados, a economia, a fome e outros tantos males do mundo atravessam, literalmente ou em pano de fundo, suas criações – como no caso da história intitulada “Pesadelo”, que foi inteiramente republicada no site Bored Panda – e que também retrata o sentimento sem usar qualquer fala ou texto. “Hoje, o mundo está testemunhando o que parece ser a volta de um pesadelo do passado, mas que para muita gente de países pobres é uma realidade bastante atual. Para as vítimas da guerra, não há lado certo ou errado, não há nada que justifique a barbárie, e é por isso que a tira se chama ‘Pesadelo’”, comentou o artista. Muitas de suas histórias podem ser “assistidas” em seu perfil no Instagram.

O Padre Julio Lancelotti ajuda uma pessoa em situação de rua em uma das histórias

Padre Julio Lancelotti ajuda uma pessoa em situação de rua em uma das histórias

-11 quadrinhos com muito a dizer sobre autoritarismo

Além de quadrinista e ilustrador, Ademar também é roteirista e jornalista, formado pela Universidade Federal do Amazonas, e revela que suas primeiras histórias não eram feitas sem palavras. “Inicialmente eu colocava falas nos personagens, mas quando fiz uma tira sem palavras, pessoas de outros países começaram a compartilhar, então decidi fazer sempre sem texto”, explicou. Questões ambientais, econômicas e até o grande Padre Julio Lancellotti já entraram em seus quadrinhos, que denunciam, com força e doçura, as injustiças do mundo – e que já foram por cinco vezes temas de artigos no Bored Panda, como em tantos outros sites internacionais.

O terrível cenário atual de fome que assola boa parte do Brasil é ilustrado em uma das tiras

O terrível cenário atual da volta da fome que assola parte do Brasil é ilustrado em uma das tiras

Refugiado ao mar, tentando fugir de um país em guerra, em um quadrinho de Ademar

Refugiado ao mar, tentando fugir de um país em guerra, em um quadrinho de Ademar

Publicidade

Artes: Ademar Vieira/Instagram/Reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

Canais Especiais Hypeness