Debate

Racismo, escravização e as raízes da meritocracia no Brasil

Roanna Azevedo - 27/04/2022 às 10:10 | Atualizada em 29/04/2022 às 09:42

Uma das principais ferramentas de fundamentação do liberalismo enquanto modelo socioeconômico, a meritocracia é tida como um princípio de justiça para a maior parte das sociedades modernas e capitalistas. O que poucos percebem, ou simplesmente ignoram, é sua impossibilidade de funcionamento principalmente em sociedades sustentadas pelo racismo estrutural, como é o caso do Brasil.

Mas, afinal, o que há por trás da meritocracia e de suas raízes no Brasil?

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O que é meritocracia?

A meritocracia é um conceito utópico.

A meritocracia é um sistema de distribuição de prêmios que se baseia na ideia de trabalho, aptidão e merecimento pessoal. De acordo com ela, todos têm as mesmas chances de conseguir o que querem, independentemente de origem familiar ou relacionamentos, caso se esforcem para isso. O termo foi cunhado por Michael Young, sociólogo britânico que escreveu “The Rise of The Meritocracy” (“O Triunfo da Meritocracia”) em 1958.

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O grande problema da meritocracia, apontado por seus principais críticos, é que essa disputa por conquistas só seria justa se todos os participantes partissem do mesmo ponto. Isso significa que, para que as pessoas realmente tivessem aptas a competir umas com as outras pelas mesmas coisas, elas precisariam ter condições sociais, econômicas, psicológicas e oportunidades de vida semelhantes.

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O que racismo tem a ver com meritocracia?

O período escravocrata no Brasil data oficialmente de 1530 a 1888, quando a Lei Áurea determinou a abolição da escravatura, mas não ofereceu nenhum recurso para que a população negra recém liberta passasse a integrar a sociedade. Não havia políticas públicas de saúde, educação ou moradia, o que obrigou a maioria a continuar trabalhando para os senhores de engenho.

Enquanto isso, as vagas de trabalho que existiam eram ocupadas por imigrantes europeus. Incentivados a virem para o Brasil, eles faziam parte de um projeto de Estado para branquear o povo brasileiro e garantir que negros e indígenas continuasse à margem da sociedade.

Seção de venda de pessoas negras escravizadas em um jornal de 1880.

A partir dessa presença de diferentes etnias entre a população brasileira, construiu-se a ideia de democracia racial. Segundo esse princípio, não haveria qualquer tipo de discriminação entre grupos étnicos no país, muito pelo contrário: ele é visto como um lugar de convivência harmônica entre brancos, indígenas e negros e de convergência racial graças ao processo de mestiçagem. Essas ideias foram intensamente reforçadas pelo livro “Casa-Grande e Senzala”, de Gilberto Freyre.

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A questão por trás desse conceito que moldou a identidade nacional é que, além de ser essencialmente utópico, ele nunca chegou perto de representar a realidade do Brasil. Senhores brancos e seus funcionários negros continuaram vivendo nos moldes distintos em que sempre viveram.

Cartaz que comemora a abolição da escravatura no Brasil e corrobora o mito da democracia racial.

O mito da democracia racial acabou despertando no imaginário da sociedade brasileira a também falsa ideia de meritocracia. De acordo com ela, brancos e negros estavam em pé de igualdade na disputa por conquistas, apesar de os negros não terem sido comtemplados com apoio, recurso ou amparo social algum após a abolição da escravatura.

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O “fracasso” de pessoas negras então passou a ser vista como resultado de seus atributos pessoais, como preguiça, incapacidade e indolência, ao invés de uma consequência direta do período escravocrata. Assim foi formada a base de sustentação da sociedade brasileira, a partir do pensamento racista de que os negros são inferiores e de que a meritocracia é sinônimo de justiça.

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Foto 1: Reprodução/Cinta Arribas

Foto 2: Reprodução/LinkedIn

Foto 3: Reprodução/Arquivo Nacional do Brasil


Roanna Azevedo
Diretamente da zona norte do Rio, é jornalista por profissão e curiosa por conta própria. Ama escrever sobre cinema e o universo do entretenimento há mais de dois anos. Tem paixão por tudo que envolve cultura, música, arte e comportamento, além de ficar sempre ligada no que rola no mundinho da comunicação nas redes sociais.

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