Inovação

Robô humanoide artista é poeta capaz de formular versos; entenda

Vitor Paiva - 17/04/2022 às 20:38 | Atualizada em 19/04/2022 às 08:29

Se a arte é a forma mais essencial e singular de expressão da humanidade, a robô super-realista Ai-Da foi criada na Inglaterra para colocar em perspectiva ou mesmo desafiar os limites dessa máxima.

mais do que ser parecida com um ser humano ou capaz de assimilar ou reproduzir capacidades humanas, Ai-Da é a primeira humanoide artista – mais precisamente, trata-se de um robô poeta.

A super robô foi criada pelo galerista inglês Aidan Meller, de Oxford, justamente para associar o uso de inteligência artificial à criatividade artística – “inspirado” no poema épico “A Divina Comédia”, escrito por Dante Alighieri em 1320 como uma das maiores obras do gênero em todos os tempos, os primeiros versos “escritos” por Ai-Da foram recitados em uma exposição em homenagem aos 700 anos da morte do grande poeta italiano.

Ai-Da ao lado de seu criador, o galerista inglês Aidan Meller

Ai-Da ao lado de seu criador, o galerista inglês Aidan Meller

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A exposição aconteceu no renomado museu Ashmolean, na Universidade de Oxford, e teve a robô como grande atração: para criar seu poema, Ai-Da “leu” os 14.233 versos que formam as três partes – Inferno, Purgatório e Paraíso – e 100 cantos de “A Divina Comédia” e, utilizando seu algoritmo, escreveu uma resposta ao épico maior da literatura italiana.

Assim, a IA da robô se inspirou nos padrões de estilo e escrita de Dante para, a partir de seu banco de dados, criar uma obra original – escrever seu próprio poema.

A leitura foi, segundo Meller, “profundamente emotiva”, em uma capacidade tão perfeita de emular a escrita de uma poeta que, segundo o galerista, ninguém seria capaz, somente lendo o poema, de saber que não se tratava de uma escrita humana. “Foi fácil esquecer que você não estava lidando com um ser humano”, comentou o criado de Ai-Da, sobre o recital.

Ai-Da escrevendo seu poema

Ai-Da escreve poemas a partir de seu banco de dados

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“Nós olhamos sobre nossos versos como cativos de olhos vendados/ Enviamos para procurar a luz, mas ela nunca veio/ Uma agulha e linha seriam necessárias/ Para completar a imagem./Para ver as pobres criaturas, que estão na miséria,/ A de um falcão, olhos fechados com costura”, diz um trecho do poema.

Essa não é a primeira vez que a Inteligência Artificial é utilizada para a escrita de versos autorais, mas possivelmente é a mais bem-sucedida – e é a primeira vez que um robô recita seus próprios versos. “O projeto foi desenvolvido para chamar a atenção ao debate sobre os princípios éticos de desenvolver a inteligência artificial para imitar humanos e o comportamento humano”, afirmou Meller, em matéria da CNN.

“Está ficando evidente para nós que a tecnologia vem tendo um grande impacto em todos os aspectos da vida e estamos buscando entender o quanto essa tecnologia pode fazer e o que ela pode nos ensinar sobre nós mesmos”.

Ai-Da

Um incidente no Egito “inspirou” a robô a realizar os quadros de sua primeira exposição

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O nome da robô foi pensado em homenagem a Ada Lovelace, considerada a primeira programadora, ainda no século XIX, e sua construção levou dois anos para ser concluída, em 2019, a partir do trabalho de uma equipe que envolvia psicólogos, especialistas em robótica, em inteligência artificial, em robótica e arte.

A constituição física de Ai-Da é feita por uma pele de silicone, cabelos, dentes e gengivas impressas em 3D, além de possuir câmeras integradas aos olhos. Sua criatividade, porém, não se restringe aos versos: além de poeta, Ai-Da é também pintora, e já tem sua primeira exposição programada.

Intitulada “Olhos bem fechados”, a mostra será realizada no como resposta a um incidente ocorrido em outubro, no Egito, quando autoridades do país quiseram remover as câmeras dos olhos da humanoide por motivos de segurança.

Ai-Da

Ai-Da pintando um de seus quadros

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© fotos: Getty Images


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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