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Samba da Treze: Bixiga corre risco de perder tradicional roda a pedido de padre

Gabriela Rassy - 01/04/2022 às 09:49 | Atualizada em 11/04/2022 às 21:33

“Quem nunca viu o samba amanhecer/ Vai no Bixiga pra ver, vai no Bixiga pra ver”. Os versos de Geraldo Filme eternizados pela voz de Beth Carvalho podem estar com seus dias contados. O Samba da Treze, que ocupa a rua Treze de Maio, depois de mais de 10 anos de atividade, encontra não só a falta de suporte, mas uma perseguição por parte de um padre e de comerciantes da região.

“Estamos aguardando uma posição do subprefeito, para mais uma reunião para tentar um acordo para fazer o samba da treze na treze uma vez por mês, com tudo organizado, com autorização e apoio dos órgãos competentes”, disse Carla Borges, produtora do Samba da Treze.

Em entrevista à Folha, ela afirmou que a roda está há 14 anos no bairro, mas que a perseguição começou em 2018, quando o padre Antonio Bogaz assumiu a paróquia Nossa Senhora Achiropita, que fica na mesma rua. “Chegamos a fazer evento com 5.000 pessoas na rua Treze de Maio e nunca teve um problema”, afirma ela.

Por enquanto, o samba passou a acontecer ainda no bar Coisa Mais Linda, na Rua São Vicente esquina com a Santo Antonio. Mas a ideia é que possa voltar a ocupar o coração do bairro com mais estrutura para receber o público assíduo.

 

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Em nota enviada a esta reportagem por email, a Prefeitura de São Paulo, por meio da Subprefeitura Sé, informou que a realização dos eventos foi suspensa no período da pandemia e que, com a retomada gradual das atividades, o Samba da Treze voltou a ser realizado. Porém, surgiram ao mesmo tempo uma série de reclamações e denúncias através do canal 156.

“As queixas relatam bloqueio das calçadas, impedindo o direito de ir e vir das pessoas, interrupção do tráfego na Rua Treze de Maio, além de gerar ruído extremamente elevado, impactando moradores, as missas e cerimônias de casamento na paróquia local”.

A nota enviada dizia ainda que “O Samba da Treze está impedido de ocorrer em via pública e segue sendo realizado em um estabelecimento comercial, na Rua Conselheiro Carrão”, porém o mesmo local foi alvo de repressão por parte da GCM e da Polícia Militar, conforme a reportagem da Folha presenciou no dia 11 de março.

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“Por volta das 20h30, quando uma viatura da GCM despontou na Conselheiro Carrão, o dono da JR Burguer, Francisco Newerkla Junior, deixou o balcão e correu para a calçada. Aos berros, pedia para os garçons recolherem as mesas e cadeiras. As vozes, assim como o surdo, o pandeiro e o cavaquinho, silenciaram. Barulho, apenas, de garrafas e copos, que, na aflição dos funcionários, foram ao chão”, conta o texto de Carlos Petrocilo e Isabella Menon.

Segundo a prefeitura, somente em 2022, o Canal 156 registrou 7 protocolos abertos na Rua Treze de Maio e 31 na Avenida Conselheiro Carrão para PSIU e Perturbação de Sossego. Em 2021, foram 48 nas duas ruas citadas. 33 chamadas foram registradas em 2020 e em 2019, 34 protocolos foram registrados nas duas ruas.

“Sequer consegui permanecer até o fim da reunião que fiz hoje com a Subprefeitura da Sé por tamanha falta de respeito à tradicional roda de samba, que acontece todas às sextas feiras, das 20h30 às 23h00 – respeitando, inclusive, o término da missa – no bairro do Bixiga. Já está declarada guerra e, nessa disputa pela ocupação desse espaço, o que é popular deve vencer”, escreveu o vereador Toninho Vespoli (PSOL).

O vereador afirma que o Samba da 13 sofre boicote pelos comerciantes da região, por algumas associações e pelo poder público durante toda sua existência – e resistência. “Foi vetado pelo prefeito Ricardo Nunes um projeto de minha autoria (que passou em primeira e segunda votação aqui na Câmara Municipal) para tornar o evento como patrimônio imaterial da cidade de São Paulo. É fato que tudo o que é democrático, de graça e para todos e todas, passa a ser perseguido neste país”.

O Grupo Madeira de Lei e o Professor Toninho abriram um abaixo-assinado para pressionarem a prefeitura sobre uma decisão que não seja apenas impeditiva, mas que encontre um caminho viável para o samba acontecer. Você pode assinar o documento online aqui.

O bairro do Bixiga é conhecido como um dos principais berços do samba paulistano. Eternizado pelas canções de Adoniran Barbosa, o bairro é a casa da escola de samba Vai Vai e de outras casas dedicadas ao gênero. Em 2013, a Prefeitura de São Paulo instalou semáforos temáticos com imagens de Adoniran,  nacionalmente conhecido como o pai do Samba Paulista.

“É revoltante saber que quem decide como e por quem as ruas devem ser ocupadas não tem nenhum lastro com o povo. Lutar pelo Samba da Treze é, antes de mais nada, lutar pelo direito à cidade e à memória do Samba. É democratizar os espaços fazendo que todos e todas tenham o direito à nossa cultura popular e não só quem pode pagar”, escreveu Toninho, em referência ao Carnaval de rua de 2022 que foi impedido de acontecer de graça na rua, mas ficou livre para ocupar clubes com entrada paga.

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Fotos: Dule Oliveira/Studio Vikings


Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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