Ciência

Ciência confirma que cérebros de adolescentes estão programados para ignorar a voz dos pais desde os 13 anos

27 • 05 • 2022 às 16:21
Atualizada em 07 • 06 • 2022 às 13:23
Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

Se a maioria dos adolescentes passa a demonstrar desinteresse ou mesmo desprezo por chamados, perguntas e pedidos de suas mães, a explicação parece estar não na mera rebeldia ou teimosia juvenil, mas sim em uma efetiva mudança cerebral. É essa a conclusão de uma pesquisa realizada recentemente por cientistas da Universidade de Stanford, na Inglaterra, e publicada na revista científica Journal of Neurosciences em abril de 2022: segundo o estudo, a recepção da voz materna nos cérebros dos jovens passa a provocar menor reação neural na adolescência.

A pesquisa mostra que parte da rebeldia e do desprezo adolescente é uma reação cerebral

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A pesquisa demonstrou que, em crianças com idade até 12 anos, a voz da mãe ainda provoca uma intensa resposta neurológica, com forte capacidade de ativar pontos de recompensa e emoções nos cérebros de qualquer gênero. Aos 13 anos, porém, uma mudança torna o cérebro adolescente consideravelmente mais responsivo às vozes em geral, e menos ao chamado materno. Segundo os pesquisadores, a transformação é tão forte e evidente, que puderam adivinhar a idade da pessoa pesquisada a partir de sua resposta cerebral ao escutar a voz da mãe.

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“Assim como uma criança sabe sintonizar a voz de sua mãe, um adolescente sabe sintonizar novas vozes”, explicou Daniel Abrams, psiquiatra e pesquisador da Universidade de Stanford, nos EUA. “Quando adolescente, você não sabe que está fazendo isso. Você está apenas sendo você: tem seus amigos e novos companheiros e quer passar tempo com eles. Sua mente está cada vez mais sensível e atraída por essas vozes desconhecidas.”, afirmou. O resumo da pesquisa, portanto, explica cientificamente certa rebeldia adolescente – e exime um tanto os próprios jovens por seu comportamento.

Em muitas dessas situações, é como se o jovem estivesse de fato usando um fone de ouvido

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O estudo foi iniciado a partir dos resultados de ressonâncias magnéticas realizadas em 2016 com crianças de menos de 12 anos, registrando a reação dos circuitos cerebrais dos jovens ao ouvirem a voz da mãe. Em seguida, a pesquisa realizou procedimento com 22 adolescentes entre 13 e 16,5 anos: em todos os casos, o resultado mostrou a redução considerável na ativação dos centros de recompensa do cérebro. “Quando os adolescentes parecem estar se rebelando por não ouvirem seus pais, é porque estão programados para prestar mais atenção às vozes fora de casa”, comentou Vinod Menon, neurocientista de Stanford.

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A conclusão do estudo, portanto, sugere que os cérebros aos poucos se preparam para compreender mais e melhor outras realidades, comportamentos e temperamentos, como forma de crescimento e expansão: assim, perde-se um tanto o interesse pela voz da mãe. “Isso é o que descobrimos: este é um sinal que ajuda os adolescentes a se envolverem com o mundo e a formar conexões que lhes permitem ser socialmente adeptos fora de suas famílias”, diz o pesquisador.

A mudança neural funciona como uma preparação para o resto mundo na vida social dos jovens

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