Arte

Bispo do Rosário: obra e vida do grande artista são celebradas com exposição em SP

18 • 05 • 2022 às 09:08
Atualizada em 19 • 05 • 2022 às 18:49
Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

Se é tênue a fronteira entre a genialidade e a loucura em qualquer grande artista, na vida e no trabalho do sergipano Arthur Bispo do Rosario esses limites se dissolvem, e são recosturados com agulha e linha. Diagnosticado com esquizofrenia paranoide em 1938, o artista permaneceu internado por 50 anos de seus 80 anos de vida, e assim, em cárcere, produziu uma das mais influentes e pungentes obras das artes visuais brasileiras no século XX, que é tema de exposição especial inaugurada hoje em São Paulo.

Bispo do Rosario não frequentou as galerias, museus e festas típicas da cena das artes plásticas, nem desfrutou dos louros do reconhecimento que conquistou, principalmente a partir do início dos anos 1980. Mas enquanto viveu na Colônia Juliano Moreira, instituição psiquiátrica no Rio de janeiro, produziu uma vasta obra, entre objetos, tecelagens, assemblagens, estandartes, roupas, faixas, esculturas, mantos e tantos mais, que era vista pelo artista como efetivamente uma trabalho enviado dos céus: uma missão divina e na dimensão da própria vida.

Bispo do Rosário, em ensaio para a Revista Cruzeiro, em 1942

Arthur Bispo do Rosário, em ensaio para a Revista Cruzeiro, em 1942

O artista vestindo seu "Manto da Apresentação", à esquerda; à direita, estátua de Bispo

O artista vestindo seu “Manto da Apresentação”, à esquerda; à direita, estátua de Bispo em Japaratuba, onde nasceu

-Saúde mental e democracia: a importância de defender o SUS começa pela mente

Costurando e bordando tecidos e peças de roupa e reutilizando materiais e objetos encontrados no lixo, como pentes, bonecas e sapatos, o artista recorria ao uso de textos e palavras nas esculturas e tecidos como veículo de mensagens – e como símbolos estéticos e da subversão da linguagem.

A operação é comparada a do francês Marcel Duchamp, ao subverter a função e o sentido de objetos cotidianos, transformados em obras de arte. Enquanto se encontrava preso em uma solitária, em 1967, uma voz lhe ordenou que representasse “os materiais existentes na Terra para o uso do homem” e, internado em um asilo, seu trabalho passou a buscar recriar o mundo a partir dos restos da sociedade contemporânea.

Bispo produzindo seus objetos na Colônia Juliano Moreira

Bispo produzindo seus objetos na Colônia Juliano Moreira

-Série de fotos mostra o que pacientes de hospital psiquiátrico levavam na mala

Nascido em Japaratuba, município no leste do estado do Sergipe, em março de 1909, antes de migrar para o Rio de Janeiro Bispo trabalhou como biscateiro, alistou-se Escola de Aprendizes de Marinheiros em 1925, e também atuou como um bom boxeador no período. Expulso da Marinha por indisciplina em 1933, no mesmo ano empregou-se como lavador de bondes na companhia Light, quando passou a viver no Rio, então capital federal do Brasil.

Em 1936, um acidente com um bonde esmagou seu pé, deixando-o manco e encerrando sua carreira no boxe: demitido da Light no ano seguinte, foi defendido em ação indenizatória pelo advogado Humberto Leone, para quem começou a trabalhar como empregado doméstico. Bispo passou a viver na casa da família Leone, no bairro de Botafogo, onde viveria seu primeiro surto, que o levaria à internação.

A "Ficha de Doente" do artista, internado na Colônia em 1939

A “Ficha de Doente” do artista, internado na Colônia em 1939 – com a data de seu falecimento

-Fotógrafo com esquizofrenia retrata sua luta em série intensa

A primeira grande crise psiquiátrica do artista ocorreu em 22 de dezembro de 1938, e o levou a sair da casa da família Leone em peregrinação, até chegar à Igreja da Candelária, no Centro do Rio, na noite de Natal. Internado no Hospital dos Alienados, na Praia Vermelha, após descrever suas aspirações místicas aos médicos, foi finalmente diagnosticado.

“Contou-nos o paciente seus sonhos fantásticos. Tem feito viagens através dos Continentes em missão religiosa onde ele aparece como frade”, diz seu primeiro registro psiquiátrico. Transferido em 1939 para a Colônia Juliano Moreira, a partir de então sua vida seria marcada pela relação com a instituição psiquiátrica, da qual fugiria entre os anos de 1954 e 1963, mas que se tornaria sua casa, seu ateliê, até mesmo sua galeria – seu domínio.

Por sua passagem pela marinha, os navios eram temas recorrentes em suas esculturas

Por sua passagem pela marinha, os navios eram temas recorrentes em suas esculturas

O trabalho em tecidos também foi estrutural em toda sua obra

O trabalho em tecidos também foi estrutural em toda sua obra

-Macramé: artista utiliza tecelagem em nó para manufaturar três imensas instalações

Retornando ao asilo em 1964, Bispo repetia sua missão para quem quisesse ouvir: “Vozes dizem para me trancar num quarto e começar a reconstruir o mundo”, ele repetia – e assim começou a fazer: produzia intensamente, mesmo sob efeito de forte medicamento e eletrochoques.

A partir de 1967 iniciou sua extensa produção de objetos, passando a ocupar dez solitárias do pavilhão 10 do hospital: mantendo consigo a chave do espaço onde se encontravam suas obras, Bispo só permitia a entrada a quem lhe respondesse de que cor era sua aura.

O "Manto da Apresentação", seu trabalho mais conhecido, que Bispo dizia que usaria para aguardar o juízo final

O “Manto da Apresentação”, seu trabalho mais conhecido, que Bispo fez para usar no juízo final

A costura e o uso de texto marca grande parte do estilo e trabalho de Bispo

A costura e o uso de texto marca grande parte do estilo e trabalho de Bispo

-Os Incoerentes: o movimento que em 1882 antecipou as mais importantes tendências artísticas do século 20

A partir dos anos 1980, especialmente com uma série de denuncias que a imprensa passa a divulgar a respeito das terríveis condições que se encontram as instituições psiquiátricas no Brasil, bem como dos maus-tratos e métodos análogos à tortura que muitos pacientes enfrentavam no período, o nome e a obra de Bispo do Rosário começam a aparecer ainda mais na grande mídia.

Em 1982, é realizado o curta-metragem “Prisioneiro da Passagem”, de Hugo Denizart, sobre o artista, no mesmo período em que seus estandartes passam a integrar, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, a mostra coletiva “À Margem da Vida”, organizada por Frederico Morais: pela primeira vez, os objetos de Bispo são vistos fora da Colônia Juliano Moreira.

Uma das roupas, com a data de seu primeiro surto e a frase "Eu vim" bordadas

Uma das roupas, com a data de seu primeiro surto e a frase “Eu vim” bordadas

-Kubrick se inspirou em quadro de Van Gogh para cena de ‘Laranja Mecânica’

O impacto é grandioso, e o trabalho de Bispo do Rosario começa a ser compreendido como um dos mais pungentes da produção brasileira de então, tensionando o próprio debate sobre as condições e a qualidade dos cuidados psiquiátricos e das instituições. Arte e vida, saúde e doença, sagrado e profano, loucura e genialidade, vida e morte se sobrepõem em sua obra, como forças realmente complementares, capazes de criar uma forma singular e radical de expressão e vivência das artes – e do que chamamos de loucura.

Em 5 de julho de 1989, aos 77 anos, Arthur Bispo do Rosario morre de infarto do miocárdio, arteriosclerose e broncopneumonia dentro da Colônia – segundo o site do seu museu, na sua certidão de óbito se lê: “Deixa bens? Ignorado”.

Outra dos incríveis fardões bordados por Bispo do Rosário

Outra dos incríveis fardões bordados por Bispo do Rosário

-Fluxus, o grupo do qual fez parte Yoko Ono e que desafiou os parâmetros do que a arte pode ser

No mesmo ano de sua morte, é montada, no Parque Lage, no Rio de Janeiro, sua primeira exposição individual, chamada “Registros de minha passagem pela Terra”. Desde então, a obra de Bispo do Rosário passou ocupar mostras por todo o país, chegando, em 1991, a Estocolmo, na Suécia, para sua primeira exposição internacional. Aos poucos, após sua morte, ele se confirmou como um dos mais originais e reconhecidos artistas brasileiros.

É essa a obra, história, estética e os tantos debates que atravessam a arte e a própria existência de Bispo do Rosário que serão enfrentados e celebrados na mostra “Bispo do Rosario – Eu vim: aparição, impregnação e impacto”. Ocupando os três andares do Itaú Cultural, em São Paulo, a exposição reúne mais de 400 de suas peças, entre estandartes, painéis, objetos e esculturas, e inclui o trabalho de artistas contemporâneos influenciados por seu trabalho e sua mensagem.

O artista, em 1982: sua vida e obra será tema de exposição no Itaú Cultural

O artista, em 1982: sua vida e obra será tema de exposição no Itaú Cultural

-O Brasil que dá certo: Tarsila do Amaral ganha retrospectiva no MoMA, em NY

A abertura da mostra não se de deu no dia 18 de maio por acaso: nessa data é celebrado o Dia da Luta Antimanicomial, e a exposição também tem como norte o debate sobre as experiências modernas do uso da arte como forma de terapia e a violência dentro das instituições, a fim de combater estigmas e preconceitos contra os pacientes e as próprias noções de loucura na sociedade atual.

A mostra também recria, em um dos ambientes, um espaço que remete à cela em que o artista viveu, e conta com audiovisuais, seminários sobre arte, cultura, saúde mental e bem-estar, e trabalhos de nomes como Djanira, Maria Leontina, Maria Eugênia Franco, Flávio de Carvalho e Abraham Palatnik. Encontram-se, ainda, obras de Regina Silveira, Geraldo de Barros e Ivan Serpa, entre outros.

A exposição “Bispo do Rosario – Eu vim: aparição, impregnação e impacto” ocupará até outubro os três andares do Itaú Cultural

A exposição ocupará até outubro os três andares do Itaú Cultural

Bispo do Rosario – Eu vim: aparição, impregnação e impacto”, fica até 2 de outubro de 2022, de terça a sábado, das 11h às 20h, e domingos e feriados, das 11h às 19h. O Itaú Cultural se localiza no número 149 da Avenida Paulista, próximo à estação de metrô Brigadeiro. A entrada é gratuita.

Arthur Bispo do Rosario é hoje um dos mais influentes e importantes artistas brasieiros

Arthur Bispo do Rosario é hoje um dos mais influentes e importantes artistas brasileiros

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© fotos 1, 2, 3, 4, 13: Museu Bispo do Rosário/reprodução

© fotos 5, 6, 7, 8, 9, 10: Rafael Adorjan/Itaú Cultural/divulgação

© fotos 11, 12: Hugo Denizart/Itaú Cultural/Divulgação


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