Sustentabilidade

‘Cadê os yanomami’: como está investigação sobre comunidade incendiada após morte de menina

Vitor Paiva - 09/05/2022 às 10:11 | Atualizada em 11/05/2022 às 10:37

Entre os muitos assuntos, debates e tendências que tomaram a internet brasileira nas últimas semanas, uma pergunta se impôs sobre todas com mais gravidade, urgência e importância: cadê os Yanomami? A questão foi compartilhada por milhares de usuários, artistas, políticos e organizações, a respeito de uma sequência de crimes denunciados contra a comunidade na Terra Yanomami, em Roraima, que começou com o estupro e assassinato de uma menina de apenas 12 anos de idade, e culminou na acusação de que a comunidade inteira, onde originalmente viviam 25 pessoas, foi encontrada queimada e sem ninguém.

Uma das artes mais divulgadas nas redes compartilhando a pergunta

Uma das artes mais divulgadas nas redes compartilhando a pergunta

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A grave denúncia de violência sexual e assassinato contra uma criança foi feita no último dia 25 de abril por Júnior Hekurari Yanomami, presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kwana (Condisi-YY), e chegou até o Ministério Público Federal, a Funai e a Polícia Federal através de ofício no dia seguinte. Segundo o Condisi-YY, a menina vivia na comunidade Aracaçá, na região de Waikás, que vive sob forte ameaça de garimpeiros, e outra criança teria sido sequestrada e jogada em um rio: a Polícia Federal foi até o local e informou não ter encontrado indícios do crime, mas que seguiam com apurações. Em seguida, em Aracaçá, a comunidade foi encontrada totalmente vazia e com uma das casas queimadas.

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Segundo Hekurari, que estava na comitiva da Polícia Federal que foi até a região, quando o helicóptero pousou em local utilizado por garimpeiros, encontrou 7 pessoas da comunidade indígena que não quiseram falar sobre o caso. Antes da chegada da comitiva, vídeos foram compartilhados nas redes sociais mostrando garimpeiros questionando a veracidade das denúncias e, em seguida, outros registros revelaram um representante dos garimpeiros da região respondendo com ameaças – em áudio, o homem afirma que “a paciência acabou” e que irão “responder igual” às denúncias divulgadas. Não se sabe se o incêndio na comunidade foi criminoso ou se feito pelos próprios indígenas antes de deixarem o local: em nota, o Condisi-YY afirmou que é parte dos costumes incendiar a comunidade e abandonar um local após a “morte de um ente querido”.

Foto da comunidade Aracaçá tirada antes dos crimes e do abandono

Foto da comunidade Aracaçá tirada antes dos crimes e do abandono

Registro de uma das construções incendiadas na comunidade

Registro de uma das construções incendiadas na comunidade

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“Percebe-se, através dos vídeos que esses indígenas, foram coagidos e instruídos a não relatar qualquer ocorrência que tenha acontecido na região, dificultando a investigação da Polícia Federal e Ministério Público Federal, que acabaram relatando não haver qualquer indício de estupro ou desaparecimento de criança”, diz trecho da nota. “Após insistência, alguns indígenas relataram que não poderiam falar, pois teriam recebido 5g de ouro dos garimpeiros para manter o silêncio”, revela o comunicado, ajudando a elucidar o silêncio dos indígenas, e possivelmente o destino dos membros da comunidade. A região de Waikás reúne três comunidades, com cerca de 198 pessoas, e é uma das mais atingidas pelo garimpo ilegal.

Chegada da comitiva da Polícia Federal na região para investigar os crimes

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A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), cobrou, em sessão recente, que se intensifique a investigação para esclarecer as graves denúncias sobre a morte da menina e o desaparecimento dos membros da comunidade Yanomami. “Essa perversidade, acho, senhor presidente, é a minha palavra, não pode permanecer como dados estatísticos, como fatos normais da vida. Não são. Nem podem permanecer como notícias”, disse a ministra sobre o caso, que foi apontado como “gravíssimo” pelo presidente do STF, Luiz Fux. A vice-procuradora-geral da República, Lindôra Araújo, afirmou que medidas estão sendo tomadas para esclarecer os fatos, que seguem investigados pelo MP. A Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado Federal anunciou que irá formar um grupo para acompanhar em Roraima o combate ao garimpo ilegal na região, com visita prevista para o próximo dia 12.

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© foto 1: Twitter/reprodução

© fotos 2, 3, 4: Condisi-YY/Divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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