Ciência

Covid grave pode gerar envelhecimento cognitivo equivalente à perda de 10 pontos no QI

Vitor Paiva - 09/05/2022 às 19:29 | Atualizada em 10/05/2022 às 10:21

Um novo estudo observando os impactos posteriores dos casos mais graves de Covid-19 sobre a saúde concluiu que os quadros mais severos da doença afetam não somente a saúde respiratória ou física dos pacientes, mas também as capacidades cognitivas – equivalente em muitos casos a perda de 10 pontos de QI.

Realizada por cientistas da Universidade de Cambridge e do Imperial College London, na Inglaterra, a pesquisa concluiu que, a longo prazo, os impactos da Covid podem causar um processo de envelhecimento cognitivo de até 20 anos sobre o funcionamento do cérebro.

Exemplos do vírus SARS-CoV-2, que causa a Covid-19, vistos em microscópio

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A análise 

O estudo foi publicado na revista científica eClinical Medicine em 28 de abril, e trabalhou com os dados de 46 pacientes internados com quadros graves de Covid-19 na enfermaria ou UTI do Hospital de Addenbrooke, em Cambridge, na Inglaterra, entre março e julho de 2020, dos quais 16 precisaram recorrer à ventilação mecânica para se recuperar.

A avaliação das capacidades cognitivas dos indivíduos foi realizada seis meses após o diagnóstico, através da plataforma Cognitron, medindo atributos como raciocínio, atenção, memória, ansiedade, depressão e até transtorno de estresse pós-traumático.

Pacientes de Covid-19 em estado grave em hospital no Irã, em março de 2020

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Os resultados foram comparados com mais de 66 mil indivíduos saudáveis, revelando que os pacientes adoecidos apresentaram respostas menos precisas e tempo de raciocínio mais lento: o resultado foi ainda mais agravado entre os que precisaram de ventilação mecânica.

De acordo com o estudo, a perda é semelhante a sofrida no envelhecimento, em pessoas com idades entre 50 a 70 anos, e os resultados foram especialmente afetados no teste do raciocínio analógico verbal entre os recuperados da Covid-19, possivelmente por fatores como a redução do suprimento de oxigênio ou sangue para o cérebro e o bloqueio de vasos sanguíneos.

Dr. David Menon, da Universidade de Cambridge, autor sênior do estudo

Dr. David Menon, da Universidade de Cambridge, autor sênior do estudo

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“Acompanhamos alguns pacientes até dez meses após a infecção aguda, então conseguimos ver uma melhora muito lenta”, afirmou, em comunicado, o cientista David Menon, autor sênior do estudo. “Embora isso não tenha sido estatisticamente significativo, pelo menos está indo na direção certa, mas é muito possível que alguns desses indivíduos nunca se recuperem totalmente”, diz o texto, apontando que o fator mais importante para a perda cognitiva é a própria resposta inflamatória do corpo e do sistema imunológico.

“Os resultados dos estudos sugerem que os efeitos ainda são detectáveis mais de seis meses após o ponto mais agudo da doença, e que qualquer recuperação é, no melhor dos casos, gradual”, diz o texto.

Aparelho de ventilação mecânica: os pacientes que utilizaram a máquina apresentaram maior dano cognitivo

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© fotos 1, 2: Wikimedia Commons

© foto 3: Universidade de Cambridge/divulgação

© foto 4: Getty Images


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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