Arte

Doninhas: animais eram símbolos de insinuação sexual na arte renascentista

25 • 05 • 2022 às 10:04
Atualizada em 27 • 05 • 2022 às 10:21
Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

As doninhas aparecem com bastante frequência em pinturas renascentistas, nos braços ou aos pés de algum personagem retratado. Engana-se, porém, quem pensa que o animal está no quadro por sua graça ou fofura: na arte do período, entre os séculos XIV e XVII, o simpático mamífero aparecia como um fascinante símbolo de insinuação sexual. Diversos significados ocultos, como fertilidade, saúde para as crianças e, ao mesmo tempo, pureza e poder eram representados pela figura do animal nos retratos de então.

“Dama com Arminho”, pintado por Leonardo da Vinci em 1490

“Dama com Arminho”, pintado por Leonardo da Vinci em 1490

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O desconhecimento científico sobre as formas de reprodução da espécie, somado à coleção de dogmas religiosos que pautava o conhecimento do período, faziam com que, na época renascentista, se acreditasse que as doninhas se reproduziam pela orelha – e pariam os filhotes pela boca. A reprodução do animal era vista, portanto, como um milagre, e também por isso eles se tornaram representações complexas de diversos aspectos da sexualidade presentes, ainda que veladamente, nas pinturas. O formato fálico do corpo do animal também fez com que as doninhas se tornassem como talismãs para jovens recém-casados.

O simpatico mamífero na "vida real"

O simpatico mamífero na “vida real”

"Retrato da Condessa Livia da Porto Thiene e de sua filha Diedama”, de Pablo Veronese pintado em 1552

“Retrato da Condessa Livia da Porto Thiene e de sua filha Diedama”, de Pablo Veronese, pintado em 1552

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Nas obras de arte, o animal aparece tanto com vida, como no quadro “Dama com Arminho”, pintado por Leonardo da Vinci em 1490 – no qual um arminho, também da família dos mustelídeos, representa a pureza da jovem retratada – quanto como pele adornando uma mulher, feito acontece em “Retrato de uma dama”, de Bernardino Luini. Pintado entre 1520 e 1525, no quadro o animal surge como imagem de status e poder, bem como em seu sentido fálico, nas mãos da jovem.

Retrato de uma dama”, de Bernardino Luini, pintado entre 1520 e 1525

Retrato de uma dama”, de Bernardino Luini, pintado entre 1520 e 1525

Retrato de Elizabeth I pintado por Nicholas Hilliard em 1585

Retrato de Elizabeth I pintado por Nicholas Hilliard em 1585

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O mamífero também representa pureza da rainha Elizabeth I, conhecida como “rainha virgem”, aparecendo aos braços da monarca no retrato pintado por Nicholas Hilliard em 1585. Quando, em um quadro, junto a mulheres já gravidas ou mesmo com crianças, a doninha então se torna um amuleto pela saúde da prole – como em “Retrato da Condessa Livia da Porto Thiene e de sua filha Diedama”, pintado por Pablo Veronese em 1552. Sua presença também pode representar o desejo da fertilidade, como em “Retrato de Lucina Brembati”, concluído em 1523 por Lorenzo Lotto, no qual a noiva retratada aparece segurando uma pele de doninha e com a mão sobre o ventre.

“Retrato de Lucina Brembati”, pintado por Lorenzo Lotto em 1523

“Retrato de Lucina Brembati”, pintado por Lorenzo Lotto em 1523

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© foto 1: Leonardo da Vinci/Collection of Czartoryski Museum Krakow/Wikimedia Commons

© foto 2: Wikimedia Commons

© foto 3: Paolo Veronese/Collection of the Walters Art Museum/Messy Nessy/reprodução

© foto 4: Bernardino Luini/National Gallery of Art, Washington/Messy Nessy/reprodução

© foto 5: Nicholas Hilliard/Collection of Hatfield House, Hertfordshire/Messy Nessy/reprodução

© foto 6: Lorenzo Lorro/Collection of Accademia Carrara, Bergamo/Wikimedia Commons


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