Debate

É preciso bem mais que uma aldeia para amparar o retorno das mulheres ao mercado de trabalho

06 • 05 • 2022 às 14:30
Atualizada em 09 • 05 • 2022 às 19:38
Maria Fernanda Moraes
Maria Fernanda Moraes É formada em Letras com especialização em Jornalismo Literário. Paulista das bandas onde se puxa o erre e mora há quase 10 anos em Florianópolis (embora ainda se encante com o vento sul). Já passou pelo meio editorial, jornalismo cultural e redação publicitária. Perde boas horas vendo futebol e tem a missão de criar dois pequenos meninos feministas. Lê quando dá e escreve bastante no bloco de notas.

A cena que aparece no livro A Teta Racional é familiar a muitas mulheres. A identificação tem um motivo: é a realidade da maioria das mulheres que amamentam e retornam ao trabalho após a licença-maternidade

“Estou trancada no banheiro da agência ordenhando. Ajeito a peça plástica em volta do mamilo, aperto a válvula com força, vejo o leite esguichar pela cânula e cair dentro da mamadeira. Faço isso quatro vezes por dia, cinco vezes por semana. Depois guardo a mamadeira na geladeira da copa e, à noite, volto para a casa carregando os frascos a tiracolo, como um entregador de leite. No dia seguinte, a babá serve tudo para o meu bebê.”

A conta não fecha. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) recomendam que os bebês sejam alimentados exclusivamente pelo leite da mãe até os seis meses e que a amamentação continue acontecendo, junto com outros alimentos, por até dois anos ou mais. Pela lei, são concedidos 120 dias (4 meses) de licença para mães e cinco dias para pais. Recentemente, algumas empresas estão aderindo ao programa Empresa Cidadã e oferecem 180 dias (6 meses) e 20 dias respectivamente. 

Luedji Luna lendo com seu filho Dayo

A lei também diz que a mãe que retorna ao trabalho tem direito a se ausentar duas vezes ao longo do dia (por meia hora cada uma) para amamentar ou pode escolher sair uma hora mais cedo do seu expediente normal. 

E aí vem a primeira dificuldade: pense numa cidade grande como São Paulo ou Rio de Janeiro. Para que a dinâmica do deslocamento funcione, é preciso que a mulher esteja próxima à rede de apoio que ficará com seu filho: a creche ou algum outro cuidador. Além disso, para que a produção de leite não cesse, é necessário que haja estímulo. Se o bebê não mama por um período maior de tempo, é preciso que se faça ordenha, como é narrada na cena do conto. Poucas empresas tem um lugar específico para isso, assim como para armazenar o leite, que deve permanecer resfriado.

Um conhecido ditado africano diz que ‘é preciso uma aldeia inteira para criar uma criança‘. No retorno das mães ao trabalho, ele faz ainda mais sentido. E a amamentação é apenas a ponta desse iceberg.  

Como é voltar ao trabalho?

“O Brasil idealiza e celebra a figura materna mas, na hora do vamos ver, nem o governo nem o patriarcado estendem a mão para a criação dos filhos, como se não fossem da sociedade, como se fossem só das mulheres. Toda mãe brasileira tem um quê de heroína, e isso é tudo o que não queremos mais ser”, diz Giovana Madalosso, escritora e autora do livro A Teta Racional. 

“Nem o governo nem o patriarcado estendem a mão para a criação dos filhos”

Giovana conta que escreveu os contos exatamente após o nascimento de sua filha: “Eva tinha alguns meses e eu, trinta e sete anos. Foi só em torno do nascimento da minha filha (e também por isso) que minha voz amadureceu e achei que era hoje de publicar. Havia deixado de ser redatora para investir na literatura e na dramaturgia”.

O caminho da maternidade de uma mulher autônoma é ainda mais desafiador. “Meu puerpério foi duro. Eu não tinha carteira assinada e não tive licença-maternidade. Voltei a trabalhar como freelancer quando minha filha completou um mês. Eu também não tinha parentes em São Paulo. Na época estava casada com um homem de uma geração que não divide igualmente as tarefas com a mulher. Quem segurou a minha barra foram outras mulheres: a minha rede de apoio, a babá que tive o privilégio de poder pagar”, lembra a escritora. 

O puerpério – período que vai desde o nascimento do bebê e que, segundo alguns especialistas, pode durar até dois anos – é visceral para a grande maioria das mulheres. É uma avalanche de hormônios que domina o corpo, somados à exaustão física e privação de sono. Giovana também compartilhou como foi a retomada do seu trabalho criativo e intelectual.

“Para trabalhar um escritor precisa de tempo, silêncio e mãos livres. Eu não tinha nada disso quando a minha filha nasceu, mas estava tão angustiada com as questões do puerpério que precisava escrever. Redigia mentalmente os trechos enquanto amamentava, gravava frases no celular, rascunhava em papéis soltos. O curioso é que, quanto menos tempo eu tinha para escrever, mais queria escrever, como se fosse movida justamente por essa falta. Vivemos em um país em que a licença-maternidade é de cento de vinte dias para as mães e de apenas cinco dias para os pais. Questões como essa, intrínsecas a desigualdade de gênero e a maternidade, passaram a ser estímulo para que eu elaborasse, escrevesse, ficcionalizasse a minha realidade. Em 1920, Virgínia Woolf dizia que as escritoras precisam de um quarto só seu para produzir. Não é incrível que, cem anos depois, algumas mulheres até tenham um quarto mas sigam tão privadas de tempo para si?”

“Dayo nasceu na pandemia e, sendo artista, esse foi o melhor momento para ele ter vindo porque eu pude estar 100% disponível”

A cantora e compositora Luedji Luna, que também é autônoma, teve uma relação diferente com a criatividade e, consequentemente, com a retomada do trabalho após o nascimento do primeiro filho. “Dayo nasceu na pandemia e, sendo artista, esse foi o melhor momento para ele ter vindo porque eu pude estar 100% disponível pela ausência de shows. Meu novo disco já estava gravado e sendo lançado, meu único trabalho além de amamentar o Dayo era dar entrevistas e divulgar o trabalho. Criativamente, a maternidade vivida numa pandemia me prejudicou bastante. Faltou vontade, sabe? Mas a energia criadora é a mesma, e ela já havia sido utilizada na sua máxima potência pra colocar um ser humano no mundo. Eu não li, não escrevi, não cantei (até porque não era possível), fui apenas mãe.”

“Meu novo disco já estava gravado e sendo lançado, meu único trabalho além de amamentar o Dayo era dar entrevistas e divulgar o trabalho”

Quando o corpo é o instrumento de trabalho

Se a volta ao trabalho é um desafio para mulheres autônomas, imagine quando seu instrumento de trabalho é o próprio corpo. A bailarina clássica Ingrid Silva integra a companhia Dance Theatre of Harlem, em Nova Iorque. Ela conta que nos Estados Unidos a licença maternidade é ainda mais limitada que no Brasil e, a princípio, teria apenas três semanas até retornar ao trabalho, mas por conta da pandemia conseguiu passar quatro meses com a filha antes de retomar as práticas. 

bailarina clássica Ingrid Silva integra a companhia Dance Theatre of Harlem, em Nova Iorque

“Pelo meu corpo ser meu principal instrumento de trabalho, a experiência da maternidade foi bem caótica no começo, no sentido de aceitar as mudanças físicas e psicológicas. Bailarinos têm um controle muito grande do corpo e, pela primeira vez na vida, eu não tinha esse controle, afinal, ele estava gerando uma vida e todo o foco era esse. Minha principal dificuldade foi saber se eu voltaria a dançar profissionalmente ou não. Mas eu consegui, graças a uma equipe que me treinou e me reabilitou para que eu pudesse estar da melhor forma no meu ambiente de trabalho”.

Ela conta que a relação com seu trabalho mudou porque percebeu que a partir do nascimento de Laura, ela faria parte da sua vida 24 horas por dia, já que não tem rede de apoio nos Estados Unidos. “Eu e meu marido nos revezamos e desde os três meses ela viaja comigo, assiste peças de dança e me acompanha dentro das salas de aula”. 

“Eu e meu marido nos revezamos e desde os três meses ela viaja comigo, assiste peças de dança e me acompanha dentro das salas de aula”

A sombra da demissão é uma realidade

Charys Oliveira, que trabalhava como gerente de marketing quando o filho nasceu, entrou para a estatística da FGV. “Fazia aproximadamente 2 anos que eu estava em uma empresa de tecnologia e uns 6 meses que tinha sido promovida a gerente de marketing, trabalhando em regime CLT. A esposa do CEO tinha acabado de noticiar a gravidez, e acho que isso ‘facilitou’ a aceitação da minha notícia. Mas lembro de ser testada algumas vezes sobre a minha disponibilidade para seguir com as viagens internacionais durante a gravidez, disse sim para todas as agendas, embora nenhuma tenha chegado a se concretizar.

Voltei ao trabalho 4 meses depois, 1 mês antes do acordo, mas pude voltar meio período pelos 2 meses seguintes. O Theo foi para o maternal no período da manhã. A minha rede de apoio era quase inexistente no dia a dia. Minha mãe e irmãs moravam em outra cidade, minha sogra e família do marido moravam em um bairro muito longe de nós. Então começou a correria de sair do trabalho correndo pra buscar o filho, o leite acumulando na mama. Mas completando um pouco mais 6 meses do meu retorno, fui desligada. O que já vinha se desenhando desde a minha licença.”

“A minha rede de apoio era quase inexistente no dia a dia”

A estatística da FGV está na pesquisa The Labor Market Consequences of Maternity Leave Policies: Evidence from Brazil. Ela relata que a queda no índice de  emprego se inicia imediatamente após o período de proteção ao emprego garantido pela licença (quatro meses). Após 24 meses, quase metade das mulheres que tiram licença-maternidade está fora do mercado de trabalho, um padrão que se perpetua inclusive 47 meses após a licença.

A demissão por parte do empregador, sem justa causa, é o maior motivo da saída das mulheres do mercado de trabalho segundo a pesquisa. Mas há outros: muitas pedem demissão por não conseguirem encaixar a rotina de um filho dentro de horários de trabalho que não são flexíveis, já que socialmente vivemos nessa construção patriarcal em que os filhos ficam sob os cuidados majoritariamente da mãe, além da falta de políticas inclusivas para mães e pais nas organizações.

A pesquisa indica também que no Brasil a licença-maternidade de 120 dias não é o suficiente para reter as mães no mercado de trabalho. O estudo mostra a necessidade de outras políticas públicas como a expansão de creches e pré-escola, principalmente pensando na proteção de mulheres com menor nível educacional.

O números levantados passam por esse recorte de educação: trabalhadoras com maior escolaridade apresentam queda de emprego de 35% 12 meses após o início da licença, enquanto a queda é de 51% para as mulheres com nível educacional mais baixo.

Quem vê close, não vê corre

Com esses entraves, o caminho que muitas mulheres seguem após a maternidade é o empreendedorismo. É o caso da fotógrafa Cristina Souza, que já trabalhava como autônoma pouco antes da gravidez, mas ainda estava se estabelecendo no mercado. Durante a gestação, se aprofundou em fotografia de parto e ensaio de gestantes. “Não consegui ter uma licença maternidade. Fotografei 3 dias antes do Rudá nascer e 1 mês depois eu já estava fotografando com ele no sling. Nos quinze primeiros dias minha mãe ficou comigo, mas nunca pude me focar totalmente no meu bebê nem no puerpério porque eu não consegui parar, eu continuava marcando ensaios e alimentando redes sociais para não perder a minha divulgação”.

Para conseguir conciliar tudo, a fotógrafa levava o filho aos ensaios ou os agendava para os finais de semana quando o pai ficava com a criança. “Uma semana depois do nascimento, eu já estava editando foto com ele no peito”. 

Cristina conta que a maior dificuldade foi entender que a sua produtividade não ia ser a mesma de antes. “Também entendi que era preciso educar as pessoas nesse sentido. Fazer com que os meus clientes entendessem que eu precisava de prazos maiores, principalmente porque cuidar de uma criança é uma coisa totalmente imprevisível. Ser a minha própria chefe traz mais dificuldade nesse sentido, porque se eu não produzo eu não recebo. Mas traz a facilidade de fazer o meu próprio tempo e aproveitá-lo mais com meu filho”.  

A sobrecarga das mães solo

Mariana Rocha Alves, era auxiliar de enfermagem na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo quando passou pela experiência da maternidade. Ela conseguiu juntar a licença maternidade e as férias e, quando o bebê tinha quase cinco meses, retornou ao trabalho. Mãe solo, ela conta que só foi possível com o apoio da família. “Tive e tenho uma rede de apoio muito importante que esteve ao meu lado no retorno ao trabalho. Moro com meus pais eles sempre me ajudaram. Meu pai me levava até o trabalho com o Tiago e me buscava de carro para não pegar condução. Minha mãe ficava com ele aos finais de e feriados em que eu tinha plantão porque a creche não abria nesses dias”.

“Minha mãe ficava com ele aos finais de e feriados em que eu tinha plantão porque a creche não abria nesses dias”

Um projeto que institui a Lei dos Direitos da Mãe Solo foi aprovado pelo Senado em março deste ano e segue para a Câmara dos Deputados. A intenção é que mães solo possam ter prioridade de atendimento em políticas sociais e econômicas. Entre as medidas previstas no texto estão pagamento em dobro de benefícios, prioridade em creches, cotas mínimas de contratação em empresas e acesso a crédito.

“Mães solo são fortes guerreiras. Todos os cuidados do Tiago eram minha responsabilidade. São noites mal dormidas para acordar e enfrentar um plantão no hospital, cansaço mental muito grande, fora as angústias e incertezas que a maternidade trás”, desabafa Mariana. 

Ferramentas que auxiliam o retorno e a recolocação

O empreendedorismo é uma saída que muitas mulheres encontram. Mas ela pode se tornar uma solução falaciosa quando se conclui que muitas mulheres acabam seguindo esse caminho por não conseguirem encontrar uma vaga no mercado de trabalho nesse momento do retorno da licença maternidade. 

Foi pensando nisso e tendo como guia a própria experiência com a maternidade que Daniela Scalco criou a ParentsIN (https://parentsin.co/) , uma startup que conecta mães, pais e cuidadores a empresas. 

A ideia é simples: uma plataforma em que as mulheres cadastram currículos e as empresas podem selecionar candidatas, estreitando esse laço entre profissionais e empresas que procuram se atualizar no mercado, e buscam principalmente perfis com habilidades comportamentais (conhecidas como soft skills). 

A ParentsIN também oferece um trabalho educativo de cultura inclusiva para que as organizações possam mapear barreiras e identificar soluções de baixo custo para serem implementadas na rotina da companhia. Há uma mapeamento para entender em que grau de maturidade cada organização se encontra quanto às políticas de inclusão de mães e pais. As questões para se determinar essa maturidade envolvem benefícios e práticas, como a presença de programas de gestação, horários e jornadas flexíveis, ou ainda auxílio para despesas com babá e creche e estrutura para aleitamento materno.

Outros projetos como este também ajudam a encurtar esse caminho entre empresas e funcionárias mães. O Mãellennials tem foco em consultoria para organizações e oferece vagas para profissionais das áreas de tecnologia e comunicação. O Contrate uma Mãe (https://www.contrateumamae.org.br/)  e o MamaJobs (https://mamajobs.selecty.com.br/) são bancos de currículos com acesso gratuito para recolocação profissional de mulheres com filhos.

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Fotos: foto 1: Helen Salomão/Divulgação/foto 2: Giovana Madalosso Bispo/Divulgação/foto 3: Helen Salomão/Divulgação/foto 4: Helen Salomão/Divulgação/foto 5: Ingrid Silva/Divulgação/foto 6: Ingrid Silva/Divulgação/foto 7: Charys Oliveira/Acervo Pessoal/foto 8: Maiara Bersch/Divulgação/foto 9: Mariana Rocha Alves/Acervo Pessoal 


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