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Elize Matsunaga escreveu livro na prisão para contar à filha porque matou o marido

27 • 05 • 2022 às 09:51
Atualizada em 30 • 05 • 2022 às 11:31
Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

Dez anos após ter assassinado o marido, Elize Matsunaga revelou recentemente ter escrito à mão um livro na prisão. Mais do que simplesmente relatar sua versão dos fatos, “Piquenique no Inferno” foi pensado como um pedido de perdão à filha, que ela está impedida de ver desde 2012, quando o crime ocorreu. Uma reportagem do G1 teve acesso a trechos do manuscrito, no qual ela explica que assassinou o empresário Marcos Matsunaga para se proteger de ofensas, ameaças e agressões.

Capa do caderno onde Elize escreveu "Piquenique no Inferno", com o título "abrindo" o texto

Capa do caderno onde Elize escreveu “Piquenique no Inferno”, com o título “abrindo” o texto

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“Minha amada [filha], não sei quando você lerá essa carta ou se um dia isso irá acontecer. Sei o quão complicada é nossa história, mas o que eu escrevo aqui não se apagará tão fácil”, escreve, em uma das 178 páginas preenchidas em um caderno. De acordo com a matéria do G1, o relato perpassa toda sua vida, desde a origem pobre, passando pelo caso de violência sexual que sofreu na adolescência, até as situações de violência doméstica que enfrentou no casamento: o desejo de Elize é que a criança possa ler o livro quando for adulta.

Marcos e Elize se conheceram em 2004 e se casaram em 2009

Marcos e Elize se conheceram em 2004 e se casaram em 2009

-Presidiários em Joinville escrevem livro sobre suas experiências na prisão

Bacharel em direito, Elize atirou na cabeça de Marcos, então com 42 anos, e em seguida esquartejou o corpo do marido, empresário herdeiro da empresa de alimentos Yoki, em 19 de maio de 2012. As partes do cadáver foram carregada por ela, que tinha 30 anos à época, em três malas, e abandonadas em um matagal em Cotia, na região metropolitana de São Paulo. Segundo relato, antes do crime ela teria confrontado o empresário a respeito de uma traição conjugal: diante das ameaças que teria recebido, ela então usou uma das 34 armas que o casal possuía para cometer o crime.

A câmera de segurança mostra Marcos no elevador, minutos antes de ser morto, e Elize descendo com o cadáver nas malas

A câmera de segurança mostra Marcos no elevador, minutos antes do crime, e Elize descendo com o cadáver nas malas

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“Atira, sua fraca! Atira! Sua vagabunda! Atira ou some daqui com sua família de bosta e deixa minha filha. Vc nunca mais irá vê-la. Acha que algum juiz dará a guarda a uma puta?”, escreve Elize, relatando o que teria ouvido na cena. “A cabeça de Elize parecia um torvelinho. Um caos. Um turbilhão de palavras e sentimentos, entre eles o medo, tão perigoso… Foi então que o dedo no gatilho fez seu trabalho…”, continua. Condenada a 19 anos, 11 meses e 1 dia de prisão em 2016, ela teve a pena reduzida para 16 anos e 3 meses no ano seguinte: presa em na penitenciária feminina de Tremembé, a previsão é que seja solta em 20 de janeiro de 2028.

O livro foi inteiro escrito à mão com caneta vermelha em 178 páginas

O livro foi inteiro escrito à mão com caneta vermelha em 178 páginas

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Em alguns trechos, o livro é narrado em primeira pessoa, mas em outras partes a história passa a ser contada em terceira pessoa, com ela se referindo a si mesma como “Elize”. Segundo sua defesa, o plano é publicar “Piquenique no Inferno” quando ela deixar a prisão, para se tornar uma obra “oficial”, e algumas editoras já demonstraram interesse em lançar o livro. “E como o fim é sempre um novo começo, me atrevo a dizer que não termino minha vida na prisão”, escreve Elize que, quando em liberdade, pretende abrir uma empresa de roupas para animais.

Elize atualmente, em foto de divulgação para o documentário do Netflix sobre o crime

Elize atualmente, em foto de divulgação para o documentário do Netflix sobre o crime

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O crime se tornou um dos mais comentados no Brasil, e é também tema do documentário “Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime”, lançado recentemente no Netflix. A versão apontando o assassinato como uma reação a ameaças e violências vem sendo mantida por Elize desde o julgamento, mas o advogado da família Matsunaga, que foi assistente de acusação, rejeita a hipótese, e aponta o crime como tendo sido “premeditado”, em um “homicídio qualificado seguido de esquartejamento”.

Escrita por Por Kleber Tomaz, Viviane Mateus, Fernanda Berlinck e Marih Oliveira, a reportagem do G1 pode ser acessada aqui.

 

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© fotos 1, 4: Arquivo pessoal/reprodução/G1

© foto 2: Arquivo pessoal/reprodução

© foto 3: Wikimedia Commons

© foto 5: Netflix/divulgação


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