Debate

Ex-funcionária de Comitê da Copa do Mundo fala sobre condenação a chibatadas após denunciar agressão

Vitor Paiva - 04/05/2022 às 10:01

Em entrevista, a mexicana Paola Schietekat comentou a inacreditável e assustadora situação que vem enfrentando há um ano e meio, após ser condenada, no ano passado, no Catar, onde vivia e trabalhava no Comitê Organizador da Copa do Mundo, a 100 chibatadas e 7 anos de prisão por um crime do qual, na realidade, foi vítima. Após ter seu apartamento invadido e ser violentada por um homem, pela lei islâmica que impera no país, ela foi condenada por manter relações sem ser casada. “Foi violência física, e me deixou com marcas no corpo”, ela revelou, em entrevista para o programa Fantástico, da Rede Globo, após detalhar o ocorrido.

A mexicana Paola Schietekat foi condenada no Catar pelo crime de que foi vítima

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A situação aconteceu no apartamento em que Paola vivia na cidade de Doha, onde trabalhava há cerca de um ano e meio no Comitê da Copa. Segundo Paola, o homem é colombiano, e eles se conheciam, mas não tinham qualquer proximidade. “Eu o conhecia da comunidade latina, não há muitos latinos no Catar”, explicou. O homem invadiu o apartamento no meio da noite e, após perceber que a jovem estava telefonando para números de emergência, a derrubou no chão, e em seguida a golpeou novamente. “Não pense em contar a ninguém que te bati”, ele disse, antes de ir embora. Quando procurou a polícia, ela foi recebida com desconfiança, e teve seu celular retido.

A jovem trabalhava no Comitê da Copa há um ano e meio como seu grande sonho

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Depois que o agressor mentiu, afirmando que eles mantinham um relacionamento amoroso, para a justiça local ela deixou de ser vítima para se tornar acusada de um crime. “Já não interessava à polícia a agressão. Interessava investigar a relação fora de um casamento. Nunca me informaram sobre meus direitos, não explicaram por que pegaram meu celular. Me interrogaram em árabe por três horas. Esse interrogatório que fizeram foi simplesmente com o objetivo de me incriminar”. Paola também revelou que a polícia lhe pediu um exame que comprovasse sua virgindade, para provar que a relação não tinha ocorrido.

Mesmo condenada, Paola conseguiu deixar o país para o México com ajuda do Comitê

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“Isso é, inclusive anticientífico”, afirmou, sobre o bizarro pedido de exame. “Tem mulheres que nascem sem hímen, tem mulheres que não têm hímen, perdem na infância. Não é garantia de nada. E, além de ser anticientífico, é violento. Eu poderia ter tido relações antes e fora do Catar. E me pedir prova de virgindade não comprova nada. O conceito da virgindade é muito agressivo. Por que para um homem não pedem o mesmo?”, questionou a jovem, que conseguiu retornar para a Cidade do México, mesmo condenada, com a ajuda do Comité da Copa do Mundo. Além dos 7 anos de prisão, ela também receberia a pena de 100 chibatadas por ser convertida ao islamismo: o homem colombiano não teve a identidade revelada e não foi nem mesmo investigado.

Paola em Abu Dhabi: o interesse internacional ajudou o caso a ser reavaliado

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Após pedir demissão, ela recorreu às redes sociais para denunciar o caso, publicando as fotos com as marcas da agressão. A partir do interesse da imprensa internacional, no mês passado ela recebeu a notícia de que a Justiça do Catar retornou a acusação para a Procuradoria, com indicação de arquivamento do caso: a decisão será tomada pelos procuradores. Segundo relatos apresentados na reportagem, a lei do Catar pune severamente mulheres que praticarem sexo fora de um casamento, mesmo sem qualquer prova – a partir somente de uma denúncia ou relato. Vítimas de estupro no país, por exemplo, costumam ser processadas e condenadas pela justiça do país, que será sede da próxima Copa do Mundo, no mês de novembro desse ano. A reportagem completa no Fantástico pode ser acessada aqui.

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© fotos: Instagram/reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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