Debate

Homem morto em câmara de gás pela PRF tinha esquizofrenia, deixou um filho e sofreu asfixia mecânica

26 • 05 • 2022 às 12:22
Atualizada em 27 • 05 • 2022 às 11:56
Redação Hypeness
Redação Hypeness Acreditamos no poder da INSPIRAÇÃO. Uma boa fotografia, uma grande história, uma mega iniciativa ou mesmo uma pequena invenção. Todas elas podem transformar o seu jeito de enxergar o mundo.

Agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) sufocaram e mataram Genivaldo de Jesus Santos em uma viatura que se transformou em uma câmara de gás improvisada.

O homem negro morreu por asfixia, sem nenhuma chance de defesa, após ser trancado pelos policiais no carro com gás pimenta.

Polícia Rodoviária Federal matou homem negro com esquizofrenia em câmara de gás improvisada no meio da rua

Genivaldo tinha 38 anos. Ele estava de moto quando foi abordado pelos policiais no município de Umbaúba, no litoral de Sergipe. Walysson de Jesus, sobrinho da vítima, acompanhou a operação e qualificou a ação da PRF como tortura.

De acordo com o relato, Genivaldo, que segundo o sobrinho sofre com transtornos mentais e dependia de medicamentos controlados há mais de 20 anos, acabou se estressando depois que os policiais pegaram seus remédios.

“Eu estava próximo e vi tudo. Informei aos agentes que o meu tio tinha transtorno mental. Eles pediram para que ele levantasse as mãos e encontraram no bolso dele cartelas de medicamentos. Meu tio ficou nervoso e perguntou o que tinha feito. Eu pedi que ele se acalmasse e que me ouvisse”, disse o sobrinho da vítima, Wallyson de Jesus, ao G1.

A Polícia Rodoviária Federal ignorou todos os avisos de populares para acabar com a truculência na abordagem e prosseguiu com o tratamento ostensivo. Trancaram Genivaldo no carro. “Eles jogaram um tipo de gás dentro da mala, foram para delegacia, mas meu tio estava desacordado. Diante disso, os policiais levaram ele para o hospital, mas já era tarde”, completou.

Além do sobrinho, Maria Fabiana, cônjuge de Genivaldo, assistiu à cena de tortura. “Não ouvi mais a fala dele, eles (policiais) trancaram ele. Pedi para que abrissem (o porta-malas) para entrar ventilação, o ar estava muito ‘coisado’ de pimenta. Eu passei até mal, porque eu cheguei bem juntinho dele(Genivaldo). O policial falou “Ele tá melhor do que nós, aí dentro está ventilado”, declarou a esposa da vítima a uma rádio de Umbaúba.

Alerta de conteúdo sensível

O vídeo da cena pode ser visto aqui:

Polícia mente em nota

A Polícia Rodoviária Federal mentiu em nota para a população. A corporação disse que Genivaldo passou mal durante o trajeto para a Delegacia.

“Em razão da sua agressividade, foram empregados técnicas de imobilização e instrumentos de menor potencial ofensivo para sua contenção”, disse o órgão em comunicado.

“Durante o deslocamento, o abordado veio a passar mal e foi socorrido de imediato”, completou a PRF.

É mentira. E o Instituto Médico Legal mostrou isso. Ninguém passa mal de “insuficiência respiratória aguda”. E muito menos de “asfixia mecânica”, definição técnica de legistas para enforcamento.

Racismo e neurodivergência

A morte de Genivaldo evidencia mais uma vez o racismo das forças policiais brasileiras. Mas, sobretudo, escancara também um componente de psicofobia e capacitismo.

Pessoas neuroatípicas e pessoas com deficiência são também vítimas da violência policial. As corporações de segurança não possuem nenhum treinamento para lidar com PCDs. Além disso, fatores como neurodivegências ou condições de acessibilidade não são consideradas pelas forças de segurança, o que causa um apagão de dados desse tipo.

Em 2021, Thiago Duarte foi baleado por PMs de São Paulo. Ele tinha autismo. Por ter sensibilidade ao toque, reagiu ao ser abordado pelos PMs, que atiraram nele.

Em 2021, jovens com neurodivergência foram assassinados por polícias

No mesmo ano, Hamilton César Lima Bandeira, que tinha deficiência intelectual, foi assassinado pela Polícia Civil do Maranhão. Ele levou três tiros após se assustar com uma abordagem policial em sua casa. “A polícia foi racista e capacitista. O delegado me disse que todos têm direito a defesa, mas o meu filho não teve”, conclui a mãe da vítima, Ana Maria Lima, à Ponte Jornalismo.

“Sempre se fala que um jovem negro é morto a cada 23 minutos no país, sobre a violência obstétrica ser maior em mulheres pretas, mas a gente não discute quando essas violência atingem as pessoas com deficiência. Quando isso ocorre, existe uma invisibilidade em cima do nosso grupo, que também é uma forma de nos matar”, explica Marcelo Zig, fundador do Quilombo PCD, também à Ponte Jornalismo.

Publicidade

Canais Especiais Hypeness