Ciência

México: ossadas de supostos crimes de 2012 eram na verdade de assassinatos do ano 900

Vitor Paiva - 11/05/2022 às 18:57

A investigação iniciada em 2012 pela polícia de Chiapas, estado ao sul do México, procurava resolver uma série de assassinatos  brutais que teria acontecido há uma década, mas acabou esclarecendo um outro crime, consideravelmente anterior – ocorrido há mais de 1300 anos. A busca partiu da descoberta de 150 crânios no chão de uma caverna, e procurava concluir se as ossadas estavam ligados a assassinatos cometidos por gangues contra migrantes na fronteira do país com a Guatemala: após dez anos, porém, a polícia concluiu que os restos mortais encontrados na caverna são de vítimas de sacrifícios cerimonias cometidos na região entre os anos de 900 e 1200 da era comum.

Parte dos crânios no chão da caverna em Carrizal

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Os crânios foram descobertos em uma caverna na cidade de Carrizal, no município de Frontera Comalapa, com partes esmagadas, ossos triturados e dentes faltando, e as análises realizadas por pesquisadores do Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH) determinaram que as marcas encontradas só apareceriam com a passagem de “muito, muito tempo”, de acordo com declaração do arqueólogo Javier Montes da Paz. Segundo o pesquisador, a pilha de ossos encontrada era parte de um “tzompantli”, altar semelhante a uma estante de madeira, com os crânios alinhados sobre varas, como parte de cerimonias comuns entre maias e astecas, por exemplo.

O tzompantli montado no local, descoberto há dez anos

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As pesquisas também descobriram varas de madeira alinhadas no local, o que ajudou a concluir que se tratava de um “tzompantli”, cujo a estrutura teria se decomposto com a passagem do tempo, fazendo com que os crânios caíssem ao chão. Os restos esqueletais de três crianças pequenas, bem como outros fragmentos de ossos também foram encontrados nas cavernas pelos pesquisadores, incluindo um fêmur e partes de um braço: as conclusões sugerem que as vítimas eram em sua maioria mulheres e foram decapitadas. Sobre a ausência de dentes em todos os exemplares, os arqueólogos ainda não concluíram se teriam sido extraídos antes ou depois dos assassinatos.

Os crânios foram reunidos pela Procuradoria do Estado de Chiapas

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A polícia local não detalhou quem encontrou nem como se deu a descoberta das ossadas há dez anos, informando apenas que uma denúncia os levou até a caverna em Carrizal, mas pediu à população que não encoste em crânios ou outros objetos semelhantes eventualmente encontrados, já que as pessoas que descobriram as ossadas em 2012 teriam acidentalmente tocado em alguns ossos. “Você afeta a história, e muitas informações se perdem”, afirmou Montes da Paz, que confirmou que, apesar da conclusão sobre a origem da descoberta, há ainda muita exploração e pesquisa a ser feita no sítio arqueológico, para que, em breve, a história completa das pessoas mortas em ritual na caverna em Comalapa possa ser contada.

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© fotos 1, 2: INAH/reprodução

© foto 3: Procuradoria do Estado de Chiapas/reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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