Criatividade

O flerte de Londres com a morte e como eu passei a gostar disso por aqui

24 • 05 • 2022 às 15:14
Atualizada em 26 • 05 • 2022 às 08:54
Jamille Bastos
Jamille Bastos   Redatora Uma apaixonada pelo Rio de Janeiro vivendo em Londres, Jamille é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro que atualmente faz mestrado em Diversidade e Mídia na Universidade de Westminster. Em oito anos de experiência no digital, já coordenou e editou alguns gigantes de audiência como o site gastronômico TudoGostoso, mas se encontrou mesmo trabalhando para incluir a questão racial na mídia de uma forma justa e livre de estereótipos. Mudar narrativas é seu objetivo.

Se você já ultrapassou a barreira dos 30, deve ter notado como o tempo passa rápido. Já surgiram as primeiras rugas na sua testa, provavelmente alguns cabelos brancos, todos sinais de envelhecimento do seu corpo e do encaminhamento dele para a morte.

Soltou um “credo!” mentalmente? Não é nada que a gente não saiba, mas certamente é algo em que a gente não faz muita questão de pensar. Pois não os ingleses, aqui se vê e se pensa em morte toda hora, mas de uma forma surpreendentemente leve.

Não me entenda mal, assim como brasileiros ingleses também não gostam de falar de morte. É um assunto que incomoda, que traz tristeza, medo, sentimentos que ninguém gosta de despertar. Na verdade, uma pesquisa recente da Goldsmiths University diz que 83% dos britânicos acham que eles se sentem desconfortáveis em falar sobre a morte. O que acontece por aqui é que a cidade é cheia de símbolos que apontam para a morte o tempo todo. São objetos e locais que, por mais que não te façam pensar diretamente sobre a sua própria morte, te deixam constantemente em contato com a ideia de finitude, de que não vamos estar aqui para sempre.

“Eu acho legal a forma como eles lidam com a morte. Uma vez eu estava num parque com umas amigas e no pub em frente tinha uma mega coroa de flores do lado de fora junto de um monte de pessoas arrumadas, provavelmente vindas do velório, contando várias histórias sobre a pessoa. É menos dramático”, conta Stefanie Reis, brasileira que morou em Londres por 3 anos.

Casa onde viveu uma das mulheres que lutou pelo voto feminino – (foto: Amanda Souza Camargo)

Mensagens são deixadas em bancos para lembrar quem se foi

Morando em Londres nesses últimos meses, eu fui entrando em contato com esse lado da cidade sem nem perceber, a começar pelos bancos memoriais: aqueles clássicos bancos de praça que aqui se vê aos montes por todos os parques e que carregam mensagens para pessoas que já se foram. As frases variam infinitamente, desde o clássico “em memória de”, até dedicatórias de amor ou piadas infames com o clássico humor inglês. Também é comum encontrar dedicatórias falando que aquela pessoa amava se sentar ali ou adorava aquele parque.

Eu, particularmente, amo ler essas frases, imaginar que vida aquela pessoa teve, como ela era, mas há quem se incomode. Em uma entrevista recente Charles Alluto, um político da Ilha da Jersey Island, teritório inglês, disse que a instalação de bancos memoriais nas praias da ilha era uma grande pena.

“Existe o perigo de que lindas áreas costeiras virem áreas memoriais. É absolutamente crucial que esses lugares não virem cemitérios. Esses lugares são para as pessoas sentarem, mas frequentemente elas não sentam neles porque se tornaram muito pessoais, é como ficar em pé na cova de alguém”, declarou ao Jersey Evening Post.

Embora até faça algum sentido, a sensação que eu tenho é exatamente oposta, a de que as pessoas aproveitam, que tem sempre gente sentada e igualmente tocadas pelas mensagens. Leo Zawadzki, que nasceu na Escócia e mora há anos em Londres também não concorda muito com a história: “Acho que as mensagens não impedem as pessoas de se sentarem lá, na verdade acho que cria uma sensação de conexão com o espaço e faz com que as pessoas sintam que há algo especial naquele lugar”.

Esses bancos memoriais não são uma exclusividade da Inglaterra, também dá pra encontrá-los em cidades dos Estados Unidos (O Central Park é cheio deles!) ou em outros países da Europa, mas por aqui o mercado certamente é um dos mais fortes.

Londres é surpreendentemente menos cinza e mais verde do que muita gente pensa, tem pelo menos um grande parque em cada bairro, que vão desde jardins planejados cheios de flores até florestas densas no meio da cidade. E em cada um deles lá estão as dezenas de bancos de madeira, que podem custar de 500 até 3.000 libras dependendo de onde você queira a localização.

Muita gente compra um banco desses com uma mensagem para alguém que se foi com a intenção de deixar a memória daquela pessoa viva por mais tempo, mas os bancos não ficam ali para sempre. Por motivos de manutenção, o tempo máximo que esses bancos costumam durar é 10 anos.

Para Leo, que teve sua primeira experiência com um banco memorial com uma colega que morreu ainda criança e foi homenageada pelo colégio dele, essa sim é a parte triste da história: “Alguns dos antigos, que não são bem cuidados, você vê caindo aos pedaços e isso pode ser bem triste, porque é como se a pessoa fosse esquecida também”, diz.

‘Em memória da minha querida espoda Alice Ethel Emily Parsons’ – (foto: Jamille Ribeiro)

Tomar sol em cima do túmulo de alguém não é assim tão incomum

Outra relação bem natural que Londres têm com a morte e que me deixou um pouquinho de orelha em pé é a forma como eles aproveitam os cemitérios por aqui. Logo assim que cheguei, tive uma consulta médica bem cedo. Fui seguindo a pé o caminho que o aplicativo de trajetos me mandava fazer quando percebi que estava dentro de um cemitério.

Achei bem estranho me indicarem um cemitério como passagem, mas isso foi só até perceber a relação que as pessoas têm com esses espaços por aqui. Nesse dia mesmo havia pessoas passeando com o cachorro pelos túmulos e uma criança andando de patinete com a mãe no caminho central. Eu já sabia que em várias cidades do mundo cemitérios são atrações turísticas visitadas por causa dos túmulos de quem está enterrado ali, mas eu nunca tinha visto esses lugares utilizados como espaços comunitários de lazer, descanso e diversão.

Por serem cheios de árvores e muito verde, os cemitérios daqui são usados como parques pela maioria das pessoas, que tomam até sol deitadas em cima dos túmulos de outras pessoas.

“Quando eu morava no centro de Londres, morava ao lado de um cemitério que era muito usado. As pessoas andavam nele todos os dias e, durante o lockdown, costumavam ir lá pra fazer chamadas de trabalho ou só pra relaxar. É bastante comum aqui usar cemitérios como parques”, conta Leo.

Os cemitérios do Reino Unido fazem, na verdade, parte do que eles chamam de Green Infrastructures (Estruturas Verdes), espaços que ajudam a melhorar o bem-estar de moradores da cidade, a aumentar a biodiversidade e a mitigar os efeitos das mudanças climáticas. Para mim, eles são mais uma prova de que o pessoal por aqui tem uma relação mais tranquila com a morte e a finitude em si; se não mais tranquila, bem menos mística do que a que eu estava acostumada.

‘Em memória de Morley e Shirley Buri, que amavam caminhar nesse parque (Heath) com seus netos’ – (foto: Jamille Ribeiro)

Placas azuis marcam a vida de pessoas que fizeram diferença na sociedade

Uma das formas mais legais de memoriais que você encontra em Londres são as famosas placas azuis. Elas são usadas pra homenagear pessoas que fizeram contribuições importantes pra história e marcam onde elas moraram na capital, mesmo que por alguns meses ou poucos anos.

Na 50 Lawford Road você vai encontrar a casa que foi de George Orwell por alguns meses, na 87 Hackford Road dá pra ver onde Van Gogh morou por um ano a trabalho e na 20 Maresfield Gardens onde Freud, que era judeu, se refugiou dos nazistas que ocuparam Viena em 1938. E é claro que os locais também são lembrados: tem plaquinha azul nas antigas casas de John Lenon, Charles Darwin e até Diana Spencer, que ganhou uma delas em 2021 para marcar o flat onde morava em Chelsea.

Por aqui existem vários tours especializados que vão te levar pra conhecer as principais e dá, claro, pra fazer um tour sozinho em uma caça às placas que torna as andanças pela cidade ainda mais interessantes. De uma forma ou outra, essa é mais uma maneira que a cidade tem de te colocar em contato com a ideia de finitude e pensar no que você vai deixar de legado. 

Placa que marca onde Darwin morou por quatro anos em Londres – (foto: Lourenço Capriglione)

William Garrett, Um homem gentil (foto: Jamille Ribeiro)

Como eu já suspeitava, aparentemente os britânicos não percebem todo esse flerte com a morte materializado pela cidade, pra eles faz parte da vida normal. “No geral, acho que as placas azuis e esses usos dos espaços são uma das coisas mais legais da Grã-Bretanha. Nunca pensei muito nisso, sempre tive como algo inerente, mas na verdade eu acho que isso cria um senso de comunidade e um senso de conexão mais forte com esses espaços”, diz Leo.

Uma coisa é certa: é útil ser lembrado de pensar na sua própria finitude. Tenha você ou não uma esperança do que vai acontecer depois, ser lembrado de que a gente não vive pra sempre traz humildade e te faz viver no presente com mais gosto.

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Fotos: foto 1: Amanda Souza Camargo/fotos 2 e 3: Jamille Ribeiro/foto 4: Lourenço Capriglione/foto 5: Jamille Ribeiro


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