Ciência

O livro perdido ‘Inventio Fortunata’, sobre uma expedição medieval ao Atlântico Norte

23 • 05 • 2022 às 17:42
Atualizada em 27 • 05 • 2022 às 10:21
Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

Publicado em meados do século XIV, o livro Inventio Fortunata se tornou um dos primeiros e mais influentes documentos sobre a geografia do Pólo Norte – mas que jamais será lido novamente. Trata-se de um livro perdido, que pautou por séculos a ideia que se tinha da região do Ártico mas, por conta da precariedade com que a publicação foi confeccionada, há quase 700 anos, nenhuma cópia de Inventio Fortunata sobreviveu, nem mesmo a que pertencia à biblioteca pessoal do rei Eduardo III, da Inglaterra.

Globo terrestre Gemma Frisius, de 1536

Globo terrestre Gemma Frisius, de 1536

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A lenda do Inventio Fortunata conta que o livro foi escrito por um frei franciscano de Oxford, na Inglaterra, que teria viajado algumas vezes por volta do ano de 1360 pelo Atlântico Norte, em nome do então rei da Inglaterra. A descrição de sua primeira jornada até a região ao norte foi registrada no livro, feito em presente a Eduardo III, com somente algumas poucas cópias extras produzidas. Nenhum trecho direto do relato sobreviveu, e o conteúdo só tornou-se conhecido através de um resumo, publicado por um viajante chamado Jacobus Cnoyen no texto Itinerarium – e que também viria a desaparecer.

Mapa de Gerardus Mercator, de 1595

Mapa de Gerardus Mercator, de 1595, com a Rupes Nigra ao centro e as influências do livro

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O título traduz-se em algo como “a descoberta afortunada” e o texto apresenta o Polo Norte contendo uma “ilha magnética” cercada por um redemoinho gigante e quatro continentes. A suposta ilha é chamada no relato de Rupes Nigra (ou “Pedra Negra”, em tradução livre) e seria uma rocha escurecida localizada com 33 milhas de dimensão, que, até o século XVII, aparecia em diversos mapas. À época do início das grandes explorações, por volta de 1490, o Inventio Fortunata já havia desaparecido por completo, mas o resumo de Cnoyen influenciou diretamente o registro do Ártico em mapas e globos da época.

Detalhe da Rupes Niegra no mapa de Mercator

Detalhe da Rupes Nigra no mapa de Mercator, com os “quatro continentes” ao redor

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Por volta do século XVI, o Itinerarium de Cnoyen também havia se tornado em um livro perdido e sem registros diretos recuperados: hoje, portanto, quase tudo que se sabe sobre o conteúdo do livro vem de uma carta, escrita pelo cartografo flamengo Gerardus Mercator para o astrônomo inglês John Dee em abril de 1577, que hoje se encontra British Library, biblioteca nacional do Reino Unido. As influências do texto sobre o mapa da região só foram revistas após o século XVII, quando cartógrafos e viajantes já possuíam todas as informações corretas sobre a geografia do Polo Norte.

Detalhe de uma carta marinha de 1539, com a "Insula Magnetu", ilha magnética ao norte

Detalhe de uma carta marinha de 1539, com a “Insula Magnetu”, ilha magnética ao norte

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Desde o século XVI que a autoria do livro é disputada: alguns historiadores acreditavam que Inventio havia sido escrito pelo astrônomo Nicholas of Lynn, mas Lynn era um frei carmelita e não franciscano, e não há registro algum de ter sido um viajante ou explorador. O outro possível autor do texto foi um franciscano irlandês chamado Hugh, que teria viajado até a região gelada ao norte, além da Groelândia, no período, e registrado suas aventuras em um “uma jornada de um volume” – quase nada se sabe sobre ele e, é claro, esse possível texto também desapareceu.

O vulcão no Polo Norte retratado em "O Capitão Hatteras", de Julio Verne - também inspirado no livro

O vulcão no Polo Norte em “O Capitão Hatteras”, de Julio Verne – também inspirado no livro

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