Ciência

O que é ‘pandemiceno’ e como ele pode estar ligado ao surgimento de velhas e novas doenças

25 • 05 • 2022 às 15:25
Atualizada em 25 • 05 • 2022 às 16:10
Redação Hypeness
Redação Hypeness Acreditamos no poder da INSPIRAÇÃO. Uma boa fotografia, uma grande história, uma mega iniciativa ou mesmo uma pequena invenção. Todas elas podem transformar o seu jeito de enxergar o mundo.

A pandemia de coronavírus nunca acabou. E segundo especialistas em saúde pública e meio ambiente, ela pode ter inaugurado um novo período na história humana: o pandemiceno.

De acordo com estudiosos, as mudanças climáticas causadas pelo ser humano no planeta motivarão o surgimento e a intensificação de diversas doenças e agentes perigosos para a saúde pública.

Antropoceno é um conceito em debate para especialistas em geologia, mas é ponto de reflexão para ambientalistas e antropólogos ao redor do mundo

O conceito é uma apropriação do já debatido conceito geográfico e antropológico de antropoceno.Para os pensadores do antropoceno, como Marisol de la Cadena e Bruno Latour, esta ideia é que o homem fez tantas transformações profundas no planeta que uma nova era geológica se inaugurou.

A geologia clássica divide as eras da Terra de várias formas. De acordo com esses pensadores, o capitalismo haveria transformado tão drasticamente a humanidade que saímos do Holoceno para um novo planeta, cujo principal ator de mudança climática e geográfica é o ser humano.

O que é pandemiceno?

A ideia de um pandemiceno é extremamente recente. Na verdade, ela surgiu em um artigo de abril da revista The Atlantic feito pelo jornalista Ed Young, dono do prêmio Pullitzer de 2021 por suas matérias sobre a covid-19.

A matéria tem como base um estudo publicado na revista Nature. De acordo com o texto, o modelo de experimentação testado por cientistas de diversas universidades de planta nos mostra que, com o aumento da temperatura média do planeta Terra, novos vírus de potencial desconhecido irão, inevitavelmente, atingir a humanidade e causar novas epidemias

Pandemia de covid-19 pode ter inaugurado era de sequenciais pandemias causadas pelas mudanças climáticas

Essa aumento frequente no número de pessoas entrando em contatos com vírus levaria a mais pandemias e inevitavelmente iria inaugurar uma era de proliferação intensa de vírus entre seres humanos, levando a uma “Era das Pandemias”, ou, nos termos de Ed Young, um “pandemiceno”.

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“A ideia é realmente bastante simples e intuitiva. À medida que o mundo aquece, os animais do mundo são forçados a se mudar para novos habitats para rastrear suas condições ambientais preferidas. Ao fazer isso, espécies que nunca antes coexistiram, de repente se encontrarão vizinhas próximas”, explica o jornalista ao site Democracy Now.

“Isso dá aos vírus que essas espécies carregam oportunidades de entrar em novos hospedeiros. Então, em um mundo em aquecimento, teremos muitos desses eventos de transbordamento nos quais os vírus encontram novos hospedeiros, principalmente se transferindo de animal para animal, mas aumentando as chances de que eles acabem se espalhando para nós”, completa.

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Além disso, variantes mais resistentes a vacinas tendem a surgir, além de recombinações entre variantes de diversos vírus que podem acabar se espalhando pela humanidade.

Interações humanas com animais silvestres podem acabar criando vírus mais complexos, resistentes e desconhecidos

“A parte mais preocupante disso é que a simulação mostrou que essas tendências já estão acontecendo e que  mesmo que todas as emissões de carbono cessem hoje, nada vai mudar. O impacto do aquecimento global nos hospedeiros e vetores de vírus não pode ser detido. Já começamos isso, e já está em andamento neste mundo”, adicionou.

“Claro, existem muitas outras grandes razões para tentar mitigar as mudanças climáticas tanto quanto possível, mas a era do Pandemiceno, uma vez liberada, não pode ser facilmente encerrada, o que significa que agora estamos em uma posição em que temos que esperar mais do que preparados para um momento desse tipo”, explicou.

Enquanto isso, uma epidemia misteriosa de hepatite afeta centenas crianças ao redor do planeta. No Atlântico Norte, uma surto de monkeypox ou varíola dos macacos se espalha, com novos casos confirmados dia-a-dia. No Brasil, surtos incontroláveis de dengue. Todo mês, novas variantes da covid-19 são descobertas. Será que nunca vai passar?

Riscos incontáveis

As mudanças drásticas causadas pelos seres humanos no meio ambiente abrem uma série de precedentes para a formação de pandemias ainda mais intensas. E não se trata de alarmismo, mas de lógica.

“Vai haver uma próxima pandemia. Isso é uma coisa que a gente já sabe e que é inevitável. É uma questão de quando vai acontecer”, alertou a médica Mariângela Simão, em entrevista à “Rádio France Internationale”, no fim do ano passado.

Com o desenvolvimento econômico e social dos últimos séculos, seres humanos passaram a se aglomerar e criar condições mais favoráveis para o espalhamento de doenças.

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É só pensar nos temores constantes dos infectologistas com as gripes suínas e aviárias: com a necessidade de alimentar 7 bilhões de pessoas, precisamos criar animais e aglomerá-los. Eles potencialmente carregam esses vírus e podem causar uma pandemia, mas a humanidade escolhe comer carne.

“Quando superlotamos fazendas com milhares de animais no espaço de um campo de futebol, que ficam com pata ao lado de pato, além do estresse que permeia seus corpos e derruba o seu sistema imunológico, há amônia destruindo os seus pulmões e uma falta de ar fresco e luz do sol: todos esses fatores juntos são o caminho certo para quem deseja criar uma epidemia rapidamente”, disse Michael Greger, biólogo e escritor de “Gripe Aviária: Um Vírus com a Nossa Culpa”, à “VOX”.

Também escolhemos, por exemplo, expandir as nossas cidades em direção a regiões antes intocadas. Assim, mais seres humanos possuem contato com animais selvagens desconhecidos e acabam interagindo com vírus também desconhecidos.

Essa foi a origem de diversas doenças surgidas na história da humanidade: quase todas elas vieram da interação entre humanos e animais selvagens.

O modelo criado pelos cientistas cujos resultados foram publicados na Nature alerta para um inevitável surgimento de novas doenças no Sudoeste Asiático (China, Laos, Camboja, Vietnam e Tailândia) e para a África Subsaariana (onde já apareceram novas doenças como a varíola dos macacos e o HIV).

Derretimento do permafrost é outro fator de risco que pode estar associado a uma nova onda de doenças ao redor do mundo

Outro ponto de preocupação para cientistas que pode abrir de vez a porteira do chamado “pandemiceno” é o derretimento de geleiras no permafrost. Segundo especialistas, com o aquecimento global, as geleiras terrestres da Sibéria estão desaparecendo. E, no meio do gelo, milhares de micro-organismos patogênicos podem ressurgir. Por isso, existe uma grande preocupação com uma possível ocupação humana nas regiões mais interioranas da Rússia.

“A ideia de que uma bactéria pode sobreviver muito tempo já é definitiva. A pergunta é: por quanto tempo?1 milhão de anos? Meio milhão? 50 mil anos? Existe uma dezena de artigos científicos que confirmam: sim, há evidências de que as bactérias do permafrost podem voltar à vida”, afirma Jean Michel Claverie, um virologista da Universidade de Aix-Mairselle ao Greenpeace.

“Se um desses vírus entrar em contato com um hospedeiro, ele vai ser reativado. Então, se você colocar seres humanos em lugares de permafrosts, esses seres humanos podem ser infectados, retransmitir os vírus e começar uma nova pandemia”, completa.

Por outro lado, os cientistas e a atenção dos governos para o surgimento de novos vírus evoluíram muito de dois anos para cá. A esperança de que novos vírus possam ser reconhecidos de forma mais ágil e as epidemias possam ser contidas com maior urgência é consenso na ciência, que segue mapeando os riscos que corremos como seres humanos. Até lá, muito álcool em gel, vacinas e máscaras.

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