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O que se sabe sobre relatos recentes de mulheres dopadas por motoristas de aplicativo

16 • 05 • 2022 às 19:23 Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

Uma passageira de transporte por aplicativo relatou recentemente ter sido dopada por um motorista durante viagem entre os bairros de Vila Mariana e Pinheiros, em São Paulo, através de produto borrifado no ar: a identidade da passageira foi mantida em sigilo e, segundo o relato compartilhado em um post no Instagram, o ataque aconteceu em um veículo chamada pelo app 99. Após cerca de 2 km de viagem, o motorista fechou o vidro da frente, e a vítima, uma fotógrafa de 32 anos, começou a sentir um cheiro forte, mesmo com seu vidro aberto na parte de trás do carro. Essa é a segunda denúncia recente em que uma mulher revelou ter sido dopada durante viagem em carro de aplicativo, com a primeira tendo ocorrido em Porto Alegre, em março.

Os relatos de tentativa de intoxicação por motoristas de app se multiplicam nas redes sociais

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O caso mais recente aconteceu no último dia 11 de maio, segundo relato em matéria do G1 e, de acordo com o post, a fotógrafa saiu de seu trabalho na Vila Mariana, Zona Sul de São Paulo, às 20h30, e pediu o veículo da 99 para encontrar um grupo de amigas no bairro de Pinheiros, na Zona Oeste da cidade: o ataque começou na altura da Rua Domingos Morais, quando o motorista olhou para trás e fechou seu vidro. Pouco tempo após sentir o cheiro forte, ela começou a ficar tonta, e chegou a colocar a cabeça para fora do vidro, confirmando que o odor intoxicante vinha de dentro do carro. “Quando percebi que o cheiro estava só aumentando, minha visão foi ficando turva, a cabeça zonza e fui tremendo”, escreveu.

Relato compartilhado pela fotógrafa de 32 anos, contando o ataque que sofreu dia 11

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Em seguida a passageira pediu que o motorista parasse o carro, enquanto mandava uma mensagem para sua namorada. “Ele parou, mas ficou perguntando o que estava acontecendo (claramente ele estava mentindo). Eu saí do carro, fiz uma foto e me afastei porque tive medo”, revelou em seu relato. De acordo com especialistas ouvidos pelo G1, solventes como éter e clorofórmio podem ter efeito intoxicante se borrifados no ar, capazes de causar tontura, visão embaçada, desmaios e perdas dos sentidos, especialmente em um ambiente pequeno como de um carro. A fotógrafa afirmou não saber como o próprio motorista não foi afetado pelo produto: máscaras do tipo N95 são capazes de impedir o efeito.

A reportagem informa que o uso de máscaras tipo N95 são suficientes para impedir intoxicação

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A própria fotógrafa afirmou, em sua postagem, que uma amiga havia enfrentado situação semelhante poucos dias antes e, no mês de março, a jovem Evelyn Moraes, de 22 anos, relatou ter sido intoxicada em um veículo de aplicativo em Porto Alegre. No ataque ocorrido na capital gaúcha, o motorista afirmou que produzia aromatizantes de carro, e ofereceu para que a passageira sentisse o cheiro. Após a recusa da jovem, o motorista fechou os vidros e ligou o ar-condicionado: rapidamente ela começou a se sentir tonta e intoxicada e, apavorada com a hipótese de desmaiar, abriu a porta e se lançou do carro em movimento.

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Apesar da lesões nas pernas e no quadril, a investigação pela Polícia Civil concluiu que não havia provas para acusar o motorista do crime. A autora da denúncia foi indiciada por denunciação caluniosa: Evelyn afirmou ao G1 que irá reunir provas e acionar seu advogado. “Eu não vou desistir disso não. Eu tinha que ter sido estuprada pra que acreditassem em mim?”, questionou. Diante da nova acusação, a 99 emitiu nota comentando o caso: “A 99 lamenta profundamente o ocorrido com a passageira. Assim que tomamos conhecimento, bloqueamos o motorista e mobilizamos uma equipe que está em contato com ela para acolhimento e suporte necessários”, diz o texto.

Os químicos borrifados podem provocar tontura, desmaios, visão turva e perda dos sentidos

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“Ressaltamos que a empresa não tolera e repudia qualquer forma de assédio. Investimos constantemente em ferramentas de segurança para a prevenção, proteção e acolhimento de todos os usuários, principalmente para as passageiras. Entre as medidas estão a opção de compartilhar rota com contatos de confiança, monitoramento da corrida, gravação de áudio e botão para ligação direta para a polícia”, seguiu a nota. “Passageiras que tenham experienciado essa situação devem reportar imediatamente para a empresa, por meio de seu app, ou no telefone 0800-888-8999 para que as medidas cabíveis sejam tomadas. Trabalhamos 24 horas por dia, 7 dias por semana, para cuidar da proteção e suporte dos usuários”, conclui a nota.

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© fotos 1, 3, 4: Getty Images

© foto 2: Instagram/reprodução


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