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Ocorrências relacionadas a atiradores dobraram nos EUA nos últimos 5 anos, aponta FBI

25 • 05 • 2022 às 13:21
Atualizada em 25 • 05 • 2022 às 16:19
Redação Hypeness
Redação Hypeness Acreditamos no poder da INSPIRAÇÃO. Uma boa fotografia, uma grande história, uma mega iniciativa ou mesmo uma pequena invenção. Todas elas podem transformar o seu jeito de enxergar o mundo.

Pelo menos 19 crianças e 2 adultos foram mortos após um ataque armado em uma escola na cidade de Uvalde, no Texas. Cerca de 10 dias antes, outras 10 pessoas foram mortas e outras 3 feridas em outro tiroteio em massa com motivações racistas na cidade de Buffalo, no estado de Nova York.

Em menos de duas semanas, os Estados Unidos enfrentaram dois tiroteios de dimensão assustadora, que chocaram o país e levantaram o debate sobre a questão das armas nas escolas. Nesta semana, o FBI publicou um relatório que mostrou um aumento expressivo do número de ocorrências desse tipo em 2021 e 2022.

Mais de 30 pessoas foram mortos nos EUA nas últimas duas semanas

O tiroteio de Buffalo matou somente pessoas negras e foi classificado como um caso de terrorismo de supremacistas brancos. O assassino era um neonazista pró-Trump.

O caso provocou o presidente Joe Biden (Democrata) a se pronunciar. Ele condenou a radicalização dos racistas dos EUA. “O ódio, através da mídia, da política e da internet, radicalizou indivíduos raivosos, alienados, perdidos e isolados a acreditarem falsamente que serão substituídos – essa é a palavra, ‘substituídos’ – pelo outro”, disse Biden.

O presidente estadunidense citou a teoria mentirosa da conspiração da ‘Grande Substituição’, que alega que a Elite Financeira Mundial deseja acabar com as populações brancas através da imigração e da miscigenação, e que foi uma das motivações do assassino de Buffalo.

“Peço a todos vocês que rejeitem a mentira. Apelo a todos os americanos para que rejeitem a mentira. E condeno aqueles que espalham a mentira pelo poder, ganho político e lucro”, acrescentou o presidente.

Aumento no número de casos

Estudos de caso mostram que, desde os anos 1990, o número de mass shootingsou seja, eventos onde um atirador tenta ferir mais de quatro pessoas em sequência, subiram gradativamente.

Durante o ápice da pandemia, os EUA registrou seu primeiro mês sem ataques a tiros desde 2002. O motivo foi o lockdown. Com a reabertura das escolas, o fenômeno voltou a ocorrer.

Um relatório do FBI identificou 61 ataques de “atiradores ativos” em 2021. Estes tiroteios mataram 103 pessoas e feriram outras 130.

O número de vítimas foi o maior desde 2017, quando 143 pessoas foram mortas e outras centenas ficaram feridas, números inflados pelo ataque de atiradores na Las Vegas Strip em outubro daquele ano.

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Em comparação com o ano de 2020, foi registrado um aumento de 52% no número de crimes desse tipo em 2021. Na comparação com 2017, o número de incidentes (e não de vítimas) quase dobrou.

O fenômeno está relacionado com o aumento de armas nas mãos de cidadãos dos EUA. Eis alguns fatos sobre a posse de armas no país:

  • Existem mais armas nos EUA do que pessoas; são 390 milhões de armas e 320 milhões de estadunidenses
  • O número de armas vendidas para cidadãos cresceu  189% entre 2000 e 2020
  • Houve um aumento de 50% no número de crianças mortas por armas de fogo entre 2019 e 2020
  • 1500 menores de idade morreram por tiros no EUA em 2021

 

A política e as armas nos EUA

O tiroteio em massa registrado na cidade de Uvalde levantou fortes debates sobre o poder do lobby de armas nos Estados Unidos. O pronunciamento do presidente Joe Biden falou sobre o tema.

Na noite desta terça-feira, ao voltar de uma viagem da Coreia do Sul, o chefe de estado dos EUA convocou um debate político sobre o lobby das armas. “Nós, como nação, temos que perguntar quando, em nome de Deus, vamos enfrentar o lobby das armas. Quando, em nome de Deus, fazemos o que todos sabemos que precisa ser feito?”, disse em pronunciamento na Casa Branca.

A principal associação do lobby de armas nos Estados Unidos é a National Rifle Association. Com mais de 10 milhões de membros ao redor do país e o apoio das empresas do ramo armamentista, a NRA acabou se tornando uma das principais organizações políticas do país norte-americano.

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E a NRA se torna extremamente ativa quando ocorrem tiroteios em massa. O sistema funciona mais ou menos na seguinte ordem: alguém comete um tiroteio em massa, logo a sociedade pede para regulação na política de armas e a NRA despeja milhões de dólares nas mãos de políticos, que barram propostas de legislação.

Uma revisão de dados do departamento de ciência política da Universidade de Northwestern mostrou que, a partir da onda de mass shootings que se iniciou nos anos 2000, a NRA acabou despejando mais dinheiro no Congresso para evitar legislações que tirem as armas da mão dos estadunidenses.

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“Quando o Congresso mostrou disposição para buscar a legislação de controle de armas, propondo mais leis anti-armas do que a média – geralmente em resposta a um incidente de tiroteio em massa – a NRA muitas vezes lançou uma campanha de mobilização contra tais iniciativas legislativas”, explica o estudo.

Dos 535 membros do Congresso dos EUA, 307 receberam contribuições de campanha da própria NRA. Em 2016, a organização contribui com mais de 30 milhões de dólares para a campanha de Donald Trump. A troca? Assegurar que leis de controle de armas não fossem aprovadas pelo Congresso. Cerca de 24 parlamentares democratas também receberam dinheiro da organização.

Além de tudo, candidatos republicanos têm medo de perder o cargo caso não se aliem com os mais de 10 milhões de financiadores da organização.

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“Essas campanhas de mobilização incluem modos de influência que não são tão facilmente medidos quanto contribuições de campanha, lobby e publicidade. Em vez disso, o principal modo de influência usado pela NRA é a mobilização de membros, que geralmente é usada para se opor a uma importante legislação de controle de armas que tem uma chance significativa de se tornar lei”, explica o estudo.

Tudo isso falando somente da NRA, que está em processo de falência; novas organizações pró-armas seguem surgindo ao redor do país e mais dinheiro está sendo despejado no bolso dos congressistas dos EUA. E o lobby das armas segue a todo vapor.

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“Não há razões para acreditar que a natureza do debate sobre o controle de armas no Congresso está começando a mudar. Grupos de lobby de controle de armas, como Everytown for Gun Safety e Moms Demand Action, estão cultivando coalizões cada vez maiores de apoiadores de base e estão crescendo em força e proeminência”, explica o documento da UW. Contudo, os grupos pró-armas gastam 10 vezes mais em lobby do que os movimentos pelo controle no acesso a rifles e pistolas.

Uma lei de controle de armas em nível federal não seria aprovada no Senado dos Estados Unidos, hoje com maioria republicana e pró-armas. Além disso, diversos parlamentares democratas que apoiam Joe Biden também são aliados da NRA.

Na próxima semana, mesmo após o tiroteio em Uvalde, o pré-candidato à presidência Donald Trump irá participar de um comício da NRA junto do atual governador do Texas, Greg Abott. E na polarização dos EUA, parece impossível que esse quadro irá mudar.

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Fotos: © Getty Images


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