Ciência

Os desenhos dos filhos de Darwin que ‘ilustram’ os rascunhos de ‘A Origem das Espécies’

Vitor Paiva - 05/05/2022 às 10:10 | Atualizada em 06/05/2022 às 09:40

Publicado há 162 anos, em 24 de novembro de 1859, A Origem das Espécies, de Charles Darwin, é considerado o livro mais importante de toda a ciência moderna. Engana-se, porém, quem pensa que os originais manuscritos pelo naturalista e biólogo britânico foram preservados por ele e sua família em nome do valor científico e histórico das páginas.

Os papeis nos quais Darwin rascunhou as bases da biologia evolutiva e de sua teoria da evolução das espécies foram guardados para guardas os desenhos infantis que traziam em seus versos – os rabiscos e garatujas que os filhos do naturalista fizeram na parte de trás da papelada.

Animais e flores, tema de estudo do pai, eram também desenhos recorrentes dos filhos de Darwin

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Um castelo: as páginas foram preservadas com grande estima, como memórias das crianças

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De acordo com o acervo da Biblioteca de Cambridge e do Museu de História Natural dos EUA, a família estimava profundamente a memória da infância dos dez filhos que Charles Darwin e Emma Wedgwood tiveram ao longo dos 73 anos de vida do cientista – Emma viveu até os 88 anos.

Eram muitas, portanto, as crianças na casa dos Darwins, e elas tinham por hábito usar as páginas dos originais do pai – alguns dos escritos mais importantes da história da humanidade – para pintar, rabiscar, desenhar e desenvolver histórias ilustradas.

A frente de uma das páginas: os manuscritos do rascunho da Origem das Especies

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Senhores em uma charrete: desenho em lápis de um dos filhos dos Darwins

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Assim, foi pela imensa estima que tinham pelos desenhos que algumas das mais de 600 páginas dos manuscritos originais da Origem das Espécies foram preservadas – entre outros escritos do naturalista britânico, igualmente “ilustrados” no verso pela criatividade das crianças da família.

De acordo com as informações sobre o Darwin Manuscripts Projects, projeto de digitalização do acervo de manuscritos do biólogo, dentre as mais de 27 mil páginas disponibilizadas para acervo digital, 57 trazem desenhos de alguns dos filhos ou filhas do casal.

Página de uma das histórias desenvolvidas no verso dos trabalhos de Darwin

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Soldados e guerreiros são temas recorrentes entre os desenhos

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De acordo com David Kohn, diretor do projeto ligado ao Museu de História Natural, não é possível saber ao certo quais filhos realizaram quais desenhos, mas sabe-se que ao menos três crianças “assinam” as ilustrações: Francis Darwin, que mais tarde tornou-se botânica; George Darwin, que trabalhou como astrônomo e matemático; e Horace Darwin, que se tornou engenheiro.

“Parte da graça dessas imagens, claro, é o que elas dão a entender de Darwin – não o estereótipo do grande pensador isolado e torturado, mas o instigador da curiosidade científica em outros tanto quanto nele mesmo. De fato, ele frequentemente colocava seus filhos para trabalhar em sua pesquisa”, reflete Kohn. “As crianças eram usadas como voluntários – para coletar borboletas, insetos e mariposas, e para fazer observações sobre plantas dos campos da cidade”.

Soldado sobre uma cenoura

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Outros animais desenhados pelas crianças dos Darwins

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Uma casa: 57 páginas guardadas traziam desenhos em seus versos

Uma casa: 57 páginas guardadas traziam desenhos em seus versos

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© fotos: Darwin Manuscripts Projects/reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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