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Paulo Cupertino: precisamos falar sobre cultura machista da possessividade entre pai e filha

23 • 05 • 2022 às 16:57
Atualizada em 24 • 05 • 2022 às 11:40
Redação Hypeness
Redação Hypeness Acreditamos no poder da INSPIRAÇÃO. Uma boa fotografia, uma grande história, uma mega iniciativa ou mesmo uma pequena invenção. Todas elas podem transformar o seu jeito de enxergar o mundo.

Na semana passada, a Polícia Civil de São Paulo prendeu Paulo Cupertino, principal suspeito pelo assassinato do ator Rafael Miguel e seus pais no ano de 2019.

O homem de 51 anos é acusado de assassinar a família por não concordar com o relacionamento entre sua filha, Isabela Tibcherani, e o artista conhecido por novelas no SBT.

Paulo Cupertino: crime machista remonta ao pior do patriarcado

Depois de três anos foragido, Cupertino foi detido com um disfarce em São Paulo. Ele era o homem mais procurado do estado e, durante esse período, passou por mais de 300 endereços no Brasil, no Paraguai e na Argentina.

Relembre o crime

Em 9 de junho de 2019, o Brasil se chocou com a morte do ator Rafael Miguel. De acordo com a investigação da Polícia Civil, Rafael, seu pai, João Alcisio Miguel, de 52 anos, e sua mãe, Miriam Selma Miguel, de 50, foram à casa de Cupertino para conversar com ele.

Paulo Cupertino não aceitava o relacionamento entre Rafael e sua filha, Isabela. Ao receber a família na porta de casa, o acusado de assassinato disparou 13 tiros na direção da família, matando todos. Ele fugiu e logo desapareceu do país. O pai acabou fugindo do país e chegou a ser colocado na lista da Interpol.

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Rafael Miguel e seus familiares foram vítimas do machismo em crime cruel

Rafael tinha carreira consolidada na televisão, e já havia participado de novelas como “Pé na Jaca”, “Cama de Gato”, além do especial de fim de ano “O Natal do menino imperador”, da Globo.

Paulo Cupertino é acusado de triplo homicídio duplamente qualificado, por motivo fútil e recurso que impossibilitou a defesa das vítimas. Além disso, dois amigos do comerciante também foram presos por colaborar com a fuga do homem após o crime.

Isabela concedeu entrevista ao “Fantástico” afirmando que irá depor contra seu pai. “Embora não vá aparar nada do que aconteceu, não vá diminuir as dores, a pessoa que causou esse mal todo está preso agora e não vai sair impune. Isso meio que conforta, de alguma forma. É como se os pesos fossem gradativamente se aliviando na nossa vida, e eu tenho fé e desejo que não só para mim, mas que também para família do Rafael, que aos poucos as coisas voltem a se acalmar e que exista esse senso de justiça para tudo de ruim que aconteceu”, disse a filha de Cupertino.

Um crime patriarcal

O crime de Paulo Cupertino é chocante. E demonstra uma das piores chagas da relação pai-filha causada pelo sistema patriarcal e violento em que vivemos.

“Ele não era uma pessoa que tinha algum tipo de coisa afetiva. Era uma possessão mesmo. Ele não me deixava viver, ele era extremamente controlador. Então, eu não tinha uma vida de fato até os meus 18 anos”, conta Isabela.

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Isabela disse que viveu seu momento mais feliz ao lado de Rafael, mas brutalidade patriarcal de seu pai tirou a vida do jovem e de sua família

Como já falamos aqui no Hypeness, o patriarcado é um sistema socioeconômico encontrado na maioria das sociedades ao redor do mundo que centra o poder nas mãos dos homens. Inclusive a vida das filhas.

O Brasil herdou de Portugal esse costume: a filha era vista como um meio de perpetuação política de poder da família, e podia ser “vendida” e “comprada” por sistemas de dote e contradote. Esse sistema de matrimônio era comum até o século XIX.

Para você ver como ainda herdamos alguns costumes bizarros dessa prática: o costume do pai da noiva entrar no altar junto da filha para “cedê-la” ao noivo é justamente um ritual dessa suposta troca.

Essas relações patriarcais entre pai e filha reforçam a ideia de submissão das mulheres às figuras masculinas. Seja em crimes que se escoram no excludente de defesa da honra ou em outros crimes chamados de “passionais”, como o de Cupertino, sempre se observa a predominância da violência masculina.

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Por que um pai se sente no direito de permitir ou não permitir o que sua filha maior de idade pode fazer ou não? O que lhe permite matar a pessoa que sua filha ama por não aprová-la? Por que ainda repousa em nossa imaginário a ideia de que um pai deve “aprovar” a relação de sua filha?

Hoje em dia, é consenso na opinião pública que as mulheres tem autonomia e devem ser as únicas responsáveis pelas escolhas de sua vida. Mas essas chagas psicossociais de um patriarcalismo ainda enraizado na nossa sociedade podem ser uma chave para entender a crueldade do crime de Paulo Cupertino.

A mentalidade machista patriarcal de Cupertino tem raízes sociais. Essas origens não são justificativa ou atenuante, mas devem ser agravantes de um crime grave de violência machista, de motivo torpe, que destruiu duas famílias.

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Fotos: Reprodução/Instagram


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