Debate

Projeto de militares para o Brasil quer SUS pago, fim da universidade pública e poder até 2035

24 • 05 • 2022 às 14:37
Atualizada em 24 • 05 • 2022 às 16:47
Redação Hypeness
Redação Hypeness Acreditamos no poder da INSPIRAÇÃO. Uma boa fotografia, uma grande história, uma mega iniciativa ou mesmo uma pequena invenção. Todas elas podem transformar o seu jeito de enxergar o mundo.

Organizações de militares e ex-oficiais das Forças Armadas publicaram um documento intitulado “Projeto de Nação”, que expõe a visão que os fardados brasileiros possuem para um suposto projeto de poder com fim previsto para o ano de 2035.

O documento foi lançado em um evento no Instituto General Villas Bôas e contou com o apoio do vice-presidente da República e pré-candidato ao Senado pelo Rio Grande do Sul, Hamilton Mourão. Além disso, o documento encontra consonância com o projeto do presidente Jair Bolsonaro, ex-militar que reintegrou os verde-oliva a posições estratégicas do governo federal.

General Villas Bôas é um dos membros da velha guarda do Exército, formada ainda em tempos da ditadura militar; lançamento de documento contou ainda com ‘Eu Te Amo, Meu Brasil’, canção-tema do período autoritário no país (Foto: Marcos Corrêa/PR)

O documento “Projeto de Nação” conta com cerca de 96 páginas que versam sobre diversos temas, como economia, saúde, educação e diplomacia. Ele possui um estilo de escrita extremamente curioso, onde os militares já implantaram todos os seus planos para o Estado brasileiro.

Nas palavras de Villas Bôas, uma das figurais pivotais do bolsonarismo e que ameaçou criar um estado de golpe dentro e fora dos quartéis brasileiros, o documento seria crucial para o país.  “Certamente, aqui está uma parcela importante do pensamento estratégico do Brasil”, disse o ex-comandante do Exército em discurso lido por sua esposa, Maria Aparecida Villas Bôas, do Instituto General Villas Bôas (IGVB). O militar da reserva está em estado de saúde seriamente fragilizado, mas suas ideias – consideradas ultraconservadores – parecem viver em parte do generalato brasileiro.

Fim dos benefícios sociais

O projeto dos militares tem como alguns pontos principais a “liberalização” do Estado brasileiro, reduzindo os encargos do governo com benefícios sociais.

O que o Instituto Villas Boas e o General Hamilton Mourão desejam para o Brasil é uma ampla privatização de empresas públicas, contrariando um suposto espírito “nacionalista” das forças armadas.

Além disso, os militares preveem a instauração da mensalidade nas universidades públicas brasileiras para alunos de classe média, colocando ponto final no conceito de universalidade do sistema público de ensino superior.

“Um marco importante para a melhoria de desempenho das universidades públicas, mas que sofreu forte resistência para vingar, foi a decisão de cobrar mensalidades/anualidades, segundo critérios que levaram em conta a renda pessoal do aluno e ou de seu responsável, o número de alunos sob o mesmo responsável, a concessão de bolsas a alunos de camadas carentes e para os de elevado nível de desempenho”, diz o documento. (Vale lembrar que ele é escrito como se o projeto já tivesse sido implantado).

Além disso, os verde-oliva também desejam a implantação de um sistema de indenizações no Sistema Único de Saúde, ou seja, desejam que o SUS seja pago. Isso mesmo. Para quem ganha mais de três salários mínimos, os serviços de saúde básicos passariam a ser cobrados.

“Essa medida encontrou forte resistência, especialmente a oposição política, mas atualmente comprova-se que não somente trouxe mais recursos para o SUS como também racionalizou atividades e procedimentos — o que contribuiu para o aperfeiçoamento da gestão”, diz o texto.

Teorias da conspiração

Não somente de privatização e fim dos direitos sociais vive o “Projeto de Nação” dos militares brasileiros, mas ele também subsiste de teorias da conspiração.

No âmbito da diplomacia, os militares brasileiros parecem ter tirado seu projeto de um vídeo do Youtube (ou de uma palestra do ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo).

“O globalismo é um movimento internacionalista, cujo objetivo é massificar a humanidade, progressivamente, para domina-la; determinar, dirigir e controlar, tanto as relações internacionais, quanto as dos cidadãos entre si, por meio de intervenções e decretos autoritários. No centro do movimento está a Elite Financeira Mundial (sic)”, diz o documento.

Documento reforça teses sem base científica e apoia teorias da conspiração sobre “globalismo”; projeto destoa da própria postura do governo federal, que arrefeceu o discurso conspiracionista na diplomacia com a chegada de Carlos França ao posto de chanceler (Foto: Tenente Edvaldo/EBMil)

De acordo com os militares, que não apresentaram provas, existe um “poder midiático e eleitoral do discurso globalista, cujos temas que defende estão, em grande parte, incorporados à agenda das Nações Unidas, no âmbito das sociedades e das lideranças nacionais”. Não estamos brincando.

Além disso, o “Projeto” também acredita que o sistema de ensino brasileiro e a cultura do país está infiltrada por um “poder de ideologias radiais, utópicas e liberticidas, cujo discurso se ampara na relativização dos valores morais, da ética, da justiça e do exercício da liberdade com responsabilidade, pois não é um valor absoluto da cidadão”. Alerta vermelho! Os comunistas estão nas escolas, nos palcos, em todos os lugares!

Em dado momento, o documento chega a dizer que há uma revolução cultural em curso no Brasil, promovendo valores anti-éticos! A solução? Uma contrarrevolução cultural.Em 2022, seguimos nas paranoias da guerra fria e de 1964.

Projeto consonante com o de Bolsonaro e da ‘terceira via’

Nesta terça-feira (24), a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados vota a validade da PEC 206, de 2019, proposta pelo União Brasil – um dos partidos que está na base da articulação da terceira via. O projeto visa a instituição de mensalidades nas universidades públicas brasileiras para  estudantes de classe média alta.

Documento dos militares nada mais é do que projeto bolsonarista de poder com 17 anos de duração (Foto: Carolina Antunes/PR)

O projeto tem relatoria de Kim Kataguiri, do mesmo partido, também um defensor da terceira via. Ele recomendou a aprovação da PEC na Comissão.

“A gratuidade generalizada, que não considera a renda, gera distorções gravíssimas, fazendo com que os estudantes ricos – que obviamente tiveram uma formação mais sólida na educação básica – ocupem as vagas disponíveis no vestibular em detrimento da população mais carente, justamente a que mais precisa da formação superior, para mudar sua história de vida”, diz o texto.

O projeto deve ter apoio do governo federal, que vive em pé de guerra com as principais universidades do país, e também deve contar com o voto favorável de parlamentares de diversos partidos do chamado ‘Centrão’, como o próprio União Brasil, PL e PSDB.

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Fotos: Fotos 1,2 e 4: Marcos Corre/PR Foto 3: Sargento Tenente Edvaldo/EbMil Foto 4: Carolina Antunes/PR


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