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Quem foi André Rebouças? Abolicionista teve plano de reforma agrária sabotado pela elite em 13 de maio

13 • 05 • 2022 às 15:45
Atualizada em 13 • 05 • 2022 às 15:55
Redação Hypeness
Redação Hypeness Acreditamos no poder da INSPIRAÇÃO. Uma boa fotografia, uma grande história, uma mega iniciativa ou mesmo uma pequena invenção. Todas elas podem transformar o seu jeito de enxergar o mundo.

No dia 13 de maio, o Brasil relembra a data da abolição da escravidãoNosso país foi o último país a abolir o sistema escravagista de trabalho e muito disso foi em função de André Rebouças.

Este engenheiro negro e abolicionista foi um radical e avançado pensador da política brasileira e figura preponderante para entender a questão da raça na na história do país mais negro do mundo fora da África.

quem foi andré rebouças

Andre Rebouças lutou contra a escravidão, foi proeminente e tinha pensamento econômico à frente de seu tempo

Quem passa pela avenida Rebouças em São Paulo pode até não saber, mas ela carrega o nome deste homem que lutou pelos direitos dos escravizados no nosso país. E sua filosofia política extremamente avançada nos serve para compreender questões da política brasileira até os dias de hoje.

Quem foi André Rebouças?

André Rebouças foi um engenheiro brasileiro nascido em Cachoeira, na Bahia, no ano de 1838. Ele era filho de Antônio Pereira Rebouças, filho de um senhor de engenho com uma escrava livre que foi deputado e conselheiro de Dom Pedro II. André nasceu livre e teve a oportunidade de estudar engenharia, tornando-se um dos principais nomes da área no Brasil.

André foi o responsável pela solução do problema de abastecimento de água no Rio de Janeiro, criando caminhos para abastecimento de água oriunda de mananciais fora da capital. Ele foi o idealizador do primeiro torpedo brasileiro, usado na Guerra do Paraguai. Também foi o responsável pela implantação da ferrovia Curitiba-Paranaguá, utilizada até os dias de hoje. Essa foi a primeira ferrovia a ultrapassar a Serra do Mar e seu projeto foi extremamente aclamado no Brasil e no exterior.

André Rebouças

André Rebouças é um dos principais heróis nacionais, responsável por avanços científicos e políticos no Brasil

Contudo, o baiano não se satisfez em sua área de trabalho e era um notório intelectual. Sua proeminência junto da família imperial fez com que seu pensamento abolicionista tivesse penetração dentro da corte.

Com artigos frequentes para o jornal ‘Gazeta da Tarde’, André denunciava as condições de trabalho dos escravizados no Brasil e propunha com urgência a implantação de uma abolição urgente. Contudo, ele sabia que somente a libertação nominal dos escravizados não seria suficiente.

Depois da abolição da escravidão, Joaquim Nabuco decidiu exilar-se junto da família imperial brasileira. Viveu em Lisboa, onde foi correspondente do jornal britânico The Times. Depois, viveu no Balneário de Cannes junto de Dom Pedro II, até a morte do ex-imperador. Seguiu em direção à Luanda, onde trabalhou como engenheiro. Por fim, foi morar em Funchal, na Ilha da Madeira, onde faleceu depois de um acidente aos 60 anos de idade.

A reforma agrária de André Rebouças

As relações de André Rebouças fizeram com que suas ideias tivessem grande proeminência dentro da corte. Junto de outros ativistas anti-escravidão como Joaquim Nabuco e José do Patrocínio trabalhou duramente pelo fim do regime. Era reconhecido até por adversários políticos como Luís Gama, também abolicionista, mas republicano.

Contudo, 50 anos antes do fim da escravidão, André já avisava que uma abolição sem reforma agrária e sem uma mudança econômica adequada para os recém-libertos não seria suficiente.

Luis Gama, José do Patrocínio e André Rebouças; figuras antagônicas em seu tempo que se uniram pelo fim da escravidão

“A escravidão não está no nome mas sim no fato de usufruir do trabalho de miseráveis sem pagar salário ou pagando apenas o estrito necessário para não morrer de fome. Aviltar e minimizar o salário é reescravizar. Mesmo nos países que se supõem altamente civilizados a plutocracia faz todo o possível para reduzir o salário ao mínimo absoluto: a landocracia principalmente é reescravizado por atavismo, não compreende a agricultura sem escravo ou sem servo da gleba”, afirmou em artigo de 1838.

Landocracia é um termo apropriado do inglês que Rebouças utilizou para falar sobre o regime de latifúndio no Brasil. Para ele, sem uma redistribuição de terras adequada para os libertos, a escravidão seria mantida com outro nome e com salários baixíssimos.

Quando o 13 de maio de 1888 chegava e a abolição da escravidão parecia inevitável, Rebouça propôs uma ideia ainda mais radical. Uma reforma agrária com redistribuição de terras para libertos, fundação de cooperativas de camponeses e um salário mínimo para os trabalhadores do campo.

“André Rebouças, um engenheiro negro com muito prestígio, tinha um programa para criar um imposto territorial sobre as fazendas improdutivas e fundar cooperativas de pequenos camponeses. Nabuco, nos anos 1880, foi porta-voz dessas reinvindicações. Mas no final, a ideia de reforma agrária capotou”, explica o historiador Luiz Felipe de Alencastro, um dos maiores especialistas em escravidão, à BBC.

O movimento republicano – formado em sua maioria por escravocratas e latifundiários – fez um acordo político para barrar a proposta de Rebouças.

André Rebouças compreendia que desenvolvimento nacional não poderia ocorrer sem reforma agrária

“A maior parte do movimento republicano fechou com os latifundiários para trazer imigrantes que trabalhassem nas fazendas e não mexer na propriedade rural. Essa virada dos republicanos jogou Nabuco, Rebouças e outros no escanteio e os fez apoiar a monarquia até o fim”, completa.

A historiadora Joselice Jucá – mãe do diretor Kléber Mendonça Filho, de “Bacurau” – estudou profundamente o trabalho do engenheiro pela abolição. A pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco afirma no artigo “A Questão Abolicionista na Visão de André Rebouças” que o baiano estava sempre à frente em seu pensamento sobre a questão econômica da própria abolição.

“Não parece suficiente, contudo, mostrar apenas a presença de Rebouças ao longo da campanha abolicionista: parece-me particularmente importante enfatizar, sobretudo, dois importantes aspectos adicionais: a originalidade do seu pensamento enquanto abolicionista, assim como a sua antecipação no contexto do movimento de emancipação”, explica.

Ao propor a reforma agrária unificada à abolição, Rebouças sabia que o Brasil não mudaria suas estruturas e que seguiria na mão dos latifundiários por séculos sem uma mudança no regime de terras.

Nos anos 1960, o historiador Alberto Passos de Guimarães escreveu uma das obras mais importantes da história da questão agrária no Brasil, “Quatro Séculos de Latifúndio”. No livro, Guimarães afirma que o poder político brasileiro sempre esteve nas mãos dos latifundiários: das capitanias às sesmarias, das sesmarias até a Lei de Terras, da abolição da escravidão até o momento de elaboração do livro (1963).

Ele ressalta que a abolição não foi suficiente para acabar com os laços escravagistas no campo e o que se implantou a partir daquele momento foi uma servidão moderna, onde os trabalhadores, sem salário adequado, não tinham opção outra que não servir aos donos da terra. Ou, como já diria Rebouças, “aviltar e minimizar o salário é reescravizar.”

A aliança entre republicanos e latifundiários foi a motriz para o primeiro golpe militar da história do Brasil: a proclamação da República. A necessidade era barrar as reformas propostas por Rebouças. No início dos anos 1960, João Goulart acabaria propondo as reformas de base e uma reforma agrária. Em 1964, o segundo golpe militar da história.

Hoje, o agro é pop. É justamente no agronegócio que vemos o maior número de trabalhadores resgatados em condições análogas à escravidão. É o agro que nos faz pagar R$ 10 em um litro de óleo. E, desde a fundação dessa república, pouca gente no poder teve a coragem de bater de frente com ele.

E citemos passos de Guimarães: “apesar do fim de suas perdas ao longo de sua existência de quatro séculos, o sistema latifundiário brasileiro chegou aos nossos dias com suficientes poderes para manter firmemente suas mãos no controle de nossa economia”.

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Fotos: Fotos 1,3 e 4: Domínio Público Foto 2: Fundação Palmares Destaques: Montagem


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