Debate

Rio de Janeiro, massacre e ‘Chiquinha Gonzaga’

25 • 05 • 2022 às 10:27
Atualizada em 26 • 05 • 2022 às 08:54
Kauê Vieira
Kauê Vieira   Sub-editor Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

O Brasil vive com sua chaga. O país mais negro fora da África não consegue encontrar uma maneira saudável de lidar com seu passado e segue mergulhado em uma cultura de extermínio e violência que tem como alvo as mesmas pessoas de sempre. 

O Rio de Janeiro foi palco de mais uma chacina. Quer dizer, operação policial aos olhos da sociedade assessorada por uma parte da imprensa chamada hegemônica que se mantém firme no papel de fiadora do caos. 

Pelo menos 24 pessoas morreram em 24 horas em mais um massacre realizado pelo Estado na Vila Cruzeiro, no Rio. Nenhum policial perdeu a vida, apenas um deixou o local com ferimentos leves. 

Sim, foi um massacre o que aconteceu no Rio de Janeiro. E isso tem a ver com o passado mal resolvido do Brasil, o mesmo Brasil que não deu a mínima para a ação arbitrária de policiais que destruíram um momento em homenagem às vítimas de outro massacre, o da Favela do Jacarezinho. 

O Brasil não ouve o grito de seus filhos

Foram 28 pessoas mortas na ação de extermínio mais letal da história do Rio de Janeiro. Dois policiais civis foram denunciados pelo Ministério Público pelo assassinato de dois homens durante a chamada operação. 

A falta de comoção e a industrialização da morte de pobres e pretos por grande parte da imprensa são decisivas para que nada mude e ações de extermínio do Estado brasileiro sigam acontecendo impunemente e derrubando inclusive decisões de instâncias maiores. 

O Supremo Tribunal Federal (STF) proibiu a realização de operações em favelas durante a pandemia, mas quem se importa? Os mesmos de sempre. 

O Rio de Janeiro é palco de mais um massacre

Comunicação é importante 

A chaga de um país que não tem memória, quer dizer, seleciona seus pensamentos. No mesmo dia do massacre na Vila Cruzeiro, o canal Viva exibiu mais um capítulo da minissérie “Chiquinha Gonzaga”, que foi ao ar originalmente na TV Globo em 1999. 

O capítulo mostrava o momento em que o país que mais traficou escravizados no mundo abolia a escravidão. A cena é toda protagonizada por pessoas brancas, que passam ao espectador a impressão de que estão tendo uma atitude de grandeza. 

O diálogo sempre coloca o negro como passivo. Mesmo que em cena esteja José do Patrocínio, interpretado por Maurício Gonçalves. Patrocínio, considerado o maior jornalista do período abolicionista, é descrito como um homem sem voz. 

Ele apenas concede o suposto gesto de nobreza da família real. A parte mais estapafúrdia do momento, que conta com os grandes atores Haroldo Costa e Zezé Motta, é a assinatura do documento que coloca ponto final da escravidão (sic). 

A Princesa Isabel, vejam só, interpretada por Rosamaria Murtinho, é a grande protagonista da cena na minissérie dirigida por Jayme Monjardim. Ela assina a lei Áurea com os olhos cheios d’água, enquanto olha ao redor da sala de seu palácio suntoso, com brancos vestidos de fraque e bengala, e revela que o gesto de libertação dos negros era um sonho de seu pai, Dom Pedro II.

Princesa Isabel em ‘Chiquinha Gonzaga’, que mais uma vez deu versão branca sobre a escravidão

O momento termina com Isabel estendendo a mão para ser beijada por José do Patrocínio, que mais uma vez atua como um súdito e não como o fundador da Confederação Abolicionista.  

“Chiquinha Gonzaga”, reexibida envelhecida 23 anos pelo tempo e sem nenhuma preocupação por parte da TV Globo em apontar uma intereptação enviesada de uma minoria branca sobre o que realmente aconteceu durante a escravidão, no pós e como foi o processo de luta pela abolição (para não dizer desonestos), se encaixa perfeitamente no Brasil de 2022. 

Um Brasil onde a voz negra é quase que completamente asfixiada pelo protagonismo de uma minoria branca que não quer abrir mão do controle dos rumos da vida de uma maioria que segue, desde 14 de maio, lutando pela verdadeira abolição. 

– O PM que algemou e arrastou um homem negro com a moto como nos tempos da escravidão 

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Fotos: fotos 1 e 2: Getty Images/foto 3: Reprodução/TV Globo


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