Debate

Secretária Soninha Francine sugere camping ‘com estrutura’ para moradores em situação de rua em SP

Vitor Paiva - 11/05/2022 às 10:13

Ocupando há menos de uma semana o cargo de secretária de Direito Humanos e Cidadania na atual administração municipal da cidade de São Paulo, a ex-vereadora Soninha Francine recuperou um antigo projeto que já foi alvo de críticas e causou intenso debate no passado: a construção de campings para pessoas em situação de rua. Especialistas se referiram à iniciativa como a criação de um “gueto” ou “depósito” de pessoas, que poderá isolar essa fatia da população em uma espécie de clausura, sem efetivamente melhorar o quadro: a solução, segundo especialistas, viria em projetos capazes de ampliar a oferta de moradias efetivas, tanto provisórias quanto definitivas, e de oportunidades de emprego.

A ex-vereadora Soninha Francine, atual secretária de Direito Humanos e Cidadania

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Soninha apresentou projeto semelhante quando trabalhou no secretariado do ex-prefeito João Dória (PSDB), há cerca de cinco anos, mas a sugestão ajudou a consolidar sua demissão, ocorrida nos primeiros meses da gestão. Em entrevista à Folha de São Paulo, Soninha lembrou que tentou implementar mais uma vez o projeto no início da pandemia, quando ainda era vereadora, mas o Padre Júlio Lancellotti foi um dos mais ativos críticos à sugestão – e o mesmo ocorreu agora. “É um gueto de moradores de rua. Como cidade como São Paulo vai ter camping? É simplificar a questão num nível muito rasteiro”, afirmou o líder religioso, defendendo a necessidade de soluções permanentes para o quadro.

Pessoas em situação de rua vivendo em barracas no centro de São Paulo

Pessoas em situação de rua vivendo em barracas no centro de São Paulo

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Segundo Soninha, que também irá coordenar políticas de segurança alimentar e atuações na região da chamada cracolândia na atual prefeitura, a ideia do camping é uma forma mais flexível e menos hierarquizada de abrigo, oferecendo uma estrutura de banheiros, chuveiros e espaços para lavar roupas, em um momento em que o quadro social da cidade se agrava, com um aumento de 31% da população em situação de rua no último ano. Não foi detalhado onde o local seria construído, qual a dimensão do orçamento para o projeto, nem quantas pessoas seriam beneficiadas, e para os especialistas, apesar de oferecer maior proteção e estrutura, a iniciativa irá simplesmente mover as populações, sem combater o problema ou melhorar as estruturas que já existem, como os abrigos atuais, na maioria abandonados.

Membros dos Movimento dos Trabalhadores Sem Teto ocupando o Viaduto do Chá em protesto em 2016

Membros dos Movimento dos Trabalhadores Sem Teto ocupando o Viaduto do Chá em 2016

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Um dos contrapontos apresentados pelos críticos ao projeto é a contradição entre o aumento das populações vivendo nas ruas e a imensa quantidade de imóveis abandonados na cidade: somente no centro de São Paulo são cerca de 30 mil imóveis vazios, que poderiam ser uma solução eficaz e permanente para a situação. As construções abandonadas na cidade são o ponto de partida das críticas que um outro projeto que será apresentado pela pasta sofreu: a construção de casas de até 18 metros quadrados para abrigar as pessoas em situação de rua. A iniciativa, apresentada pelo secretário de Smads, Carlos Bezerra Junior, foi criticada não somente por não aproveitar os apartamentos abandonados, como também pelo tamanho reduzido dos imóveis.

Um dos muitos prédios abandonados do centro de São Paulo

Um dos muitos prédios abandonados do centro de São Paulo

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© foto 1: Instagram/reprodução

© fotos 2, 3: Getty Images

© foto 4: Wikimedia Commons


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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