Arte

Stella do Patrocínio: quem foi a poeta negra que tem seu ‘falatório’ reverberado até hoje

27 • 05 • 2022 às 09:56
Atualizada em 30 • 05 • 2022 às 12:04
Roanna Azevedo
Roanna Azevedo   Redatora Diretamente da zona norte do Rio, é jornalista por profissão e curiosa por conta própria. Ama escrever sobre cinema e o universo do entretenimento há mais de dois anos. Tem paixão por tudo que envolve cultura, música, arte e comportamento, além de ficar sempre ligada no que rola no mundinho da comunicação nas redes sociais.

A literatura brasileira é repleta de nomes tão importantes quanto esquecidos pela maior parte do grande público. Stella do Patrocínio é um deles. Apesar de ter passado toda a vida adulta como interna de uma clínica psiquiátrica, suas obras encontraram um jeito de alcançar o mundo. As poesias que criou enquanto falava são ricas em subjetividade e imagens poderosas, encantando qualquer pessoa que as leia.

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Quem foi Stella do Patrocínio?

Stella do Patrocínio antes de ser internada de forma forçada.

Stella do Patrocínio nasceu no dia 9 de janeiro de 1941 e era filha de Manoel e Zilda Francisca do Patrocínio. Além do fato de ter trabalhado como empregada doméstica durante a juventude, pouco se sabe sobre os anos iniciais da vida dela. Aos 21 anos, quando residia no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, foi abordada por uma viatura de polícia enquanto tentava embarcar em ônibus rumo a Central do Brasil.

Os oficiais a levaram para um pronto socorro localizado próximo a praia de Botafogo. Logo depois, ela foi enviada para o Centro Psiquiátrico Pedro II, no Engenho de Dentro, e foi considerada “sujeito psiquiatrizado” de forma involuntária pela instituição, que a diagnosticou com esquizofrenia.

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Quatro anos depois, em 3 de março de 1966, Stella foi transferida para a Colônia Juliano Moreira, localizada em Jacarepaguá. Lá, se tornou paciente do Teixeira Brandão, núcleo feminino da instituição.

Vinte anos mais tarde, as psicólogas Denise Correia e Marlene Sá Freire decidiram criar um ateliê artístico para as mulheres que ali viviam, oferecendo um espaço de distração e criatividade às mesmas. Para tirar o Projeto de Livre Criação Artística do papel, a professora e artista plástica Nelly Gutmacher foi convidada a participar junto de sua equipe.

O “falatório” de Stella acabou chamando a atenção dos professores de arte do instituição psiquiátrica da qual ela era interna.

Stella passou a ser compreendida enquanto artista em potencial quando começou a fazer parte do projeto. As coisas que falava e o modo como as falava eram envoltas por um tom poético, chamando a atenção dos professores de arte, principalmente de Carla Guagliardi, que começou a gravar em fitas cassetes algumas das conversas que tinha com Stella. Vários arquivos de áudio foram registrados de 1986 a 1988, o último ano de atividade do Projeto de Livre Criação Artística.

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Mas isso não significou que as gravações do “falatório”, forma com que Stella se referia ao próprio jeito de enunciar, também chegaram ao fim. Entre 1990 e 1991, Mônica Ribeiro de Souza, uma estagiária de psicologia do Núcleo Teixeira Brandão, levantou informações biográficas sobre as pacientes. Foi por causa de seu trabalho, que a grafia correta do nome de Stella se tornou conhecida: com dois “l” e não apenas um, como se pensava.

Além de registrar e catalogar dados, Mônica decidiu por conta própria procurar pelas ruas do Rio de Janeiro algum familiar de Stella, mas acabou não tendo sucesso. Mais tarde, para concluir seu estágio, ela entregou ao Museu Bispo do Rosário um relatório final contendo todos os detalhes que havia levantado, juntamente com transcrições do falatório de Stella.

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Em razão de uma parada cardiorrespiratória sofrida após passar por uma cirurgia de amputação da perna, Stella do Patrocínio morreu no dia 20 de outubro de 1992. Ela foi sepultada como indigente, um procedimento padrão de instituições psiquiátricas públicas. Cinco anos depois, como não foi procurada por nenhum parente, seu corpo foi cremado e as cinzas descartadas.

A poesia de Stella

Capa do livro “Reino dos bichos e dos animais é o meu nome”.

Em 2001, a escritora Viviane Mosé recolheu as falas de Stella registradas ao longo dos anos e as organizou em forma de poesia. Os trechos selecionados deram origem ao livro “Reino dos bichos e dos animais é o meu nome”, publicado no mesmo ano. A obra obteve tanto sucesso que, em 2002, foi finalista do Prêmio Jabuti e inspirou outras manifestações artísticas.

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Em 2005, o compositor Lincoln Antonio transformou o falatório de Stella em ópera. Anos depois, o curta “Stela do Patrocínio – A mulher que falava coisas”, dirigido por Marcio de Andrade propôs reconstruir a história de vida dela e venceu o prêmio de Melhor Documentário no Festival de Cinema de Pernambuco e na Mostra Curta Santos.

Já em 2018, Stella foi homenageada pelo grupo de samba “Moça Prosa”, conhecido por celebrar a vida e a obra de mulheres negras. Ainda no mesmo ano, um de seus poemas apareceu em uma das questões do ENEM, o Exame Nacional do Ensino Médio.

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Foto 1: Acervo pessoal do sobrinho de Stella do Patrocínio, cedido à pesquisadora Anna Carolina Vicentini Zacharias

Foto 2: Reprodução/Wallpaper Mogul

Foto 3: Reprodução/Sribd


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