Arte

Tecnologia 3D revela o maior repositório de arte rupestre da América do Norte em caverna nos EUA

Vitor Paiva - 09/05/2022 às 10:14 | Atualizada em 11/05/2022 às 10:37

Um grupo de pesquisadores revelou no estado do Alabama, nos EUA, a maior caverna de arte rupestre de toda América do Norte, mas as pinturas nas paredes do local são praticamente invisíveis ao olho humano. Por conta do isolamento e das condições da caverna, as pinturas feitas com lama há mais de 1 mil anos não sofreram erosão, mas acabaram enfraquecidas e cobertas por outras camadas de lama: os desenhos só foram descobertos e identificados, alguns com mais de 3 metros de extensão, através de uma técnica de fotogrametria, que utiliza milhares de imagens do mesmo local para chegar a um modelo 3D. Para “visualizar” as pinturas na caverna no Alabama, foram necessários mais de 16 mil imagens, capturadas durante dois meses de pesquisas.

Imagem de personagem antropomórfico, semelhante a uma figura humana, descoberta na caverna

Imagem de personagem antropomórfico, semelhante a uma figura humana, descoberta na caverna

Figura enigmática, com uma possível cabeça em uma ponta e possível um rabo de cobra

Figura enigmática, com uma possível cabeça em uma ponta e possível um rabo de cobra

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O estudo foi publicado na revista científica Antiquity sem incluir informações sobre o nome, o local exato, bem como mapas de entrada e saída da caverna, a fim de evitar que “vândalos e saqueadores” encontrem as pinturas, já que, segundo o texto, a caverna, intitulada no artigo simplesmente como “19ª Caverna Sem Nome”, se encontra em “terras privadas, completamente desprotegida”, e poderia ser facilmente identificada. “Os glifos de lama foram inscritos no teto da sala, que é especialmente baixo – em alguns pontos, a somente 60 centímetros do chão – e com poucos locais onde o espaço entre o teto e o solo seja mais alto que 1,25 metro”, diz o estudo, explicando porque não era possível registrar o local, descoberto há cerca de 20 anos, antes do advento da fotogrametria 3D, tecnologia desenvolvida em 2017.

Outra pintura de figura semelhante à imagem humana, em desenho com mais de 2 metros

Outra pintura de figura semelhante à imagem humana, em desenho com mais de 2 metros

Outra figura antropomórfica, com cerca de 1,8 metro de altura

Outra figura antropomórfica, com cerca de 1,8 metro de altura

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“Nossos resultados mostram como a fotogrametria promete uma nova era de descobertas de artes rupestres. A técnica pode também contribuir na descoberta de muitos outros aspectos inesperados entre registros arqueológicos – como, por exemplo, elementos arquitetônicos”, diz o texto do estudo. Segundo registros, o interior da caverna se estende por quilômetros de corredores úmidos e tão baixos que exigem que as pessoas se agachem ou mesmo se arrastem para desbravar o local. As imensas pinturas registram figuras humanas, personagens espirituais e animais – uma cobra cascavel da espécie Crotalus atrox, conhecida como “cascavel diamante”, foi identificada entre os desenhos.

Imagem da serpente Crotalus atrox

Imagem da serpente Crotalus atrox

Modelo em panorâmica de todo o teto da caverna em 3D

Modelo em panorâmica de todo o teto da caverna reconstruído em 3D

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A imagem da cobra ajudou a reiterar a provável origem das pinturas rupestres no local: os cerca de mil anos das inscrições remontam ao chamado Período da Floresta na região, uma época em que as comunidades nativas da região do Alabama considerável o réptil sagrado, assim como consideravam as cavernas como portais espirituais. O grupo de pesquisadores, que inclui o fotógrafo Stephen Alvarez e Jan Simek, arqueólogo da Universidade de Tennessee, agora se encontra diante da imensa e complexa tarefa de catalogar as imagens descobertas. “Vai levar anos até que as pessoas consigam descobrir o que há naqueles tetos”, diz Alvarez. “Quando penso na totalidade das gravuras presentes naquele teto com 4 mil metros quadrados, é algo que coloco ao lado das coisas mais incríveis que já vi na vida.”

Stephen Alvarez fotografando a caverna no Alabama

Stephen Alvarez fotografando a caverna em local não revelado no Alabama

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© fotos 1, 2, 3, 4: S. Alvarez com ilustração de J. Simek

© foto 5: S. Alvarez

© foto 6: A. Cressler 


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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