Arte

Witkiewicz: o artista que tomou diversas drogas alucinógenas e documentou efeitos em retratos

Redação Hypeness - 10/05/2022 às 10:14 | Atualizada em 11/05/2022 às 17:12

Stanislaw Ignacy Witkiewicz é uma das figuras mais surreais da história da arte polonesa. O artista renascentista incompreendido, pintor, dramaturgo, crítico de arte e filósofo, conhecido como Witkacy era um homem excêntrico que se tornou inspiração para as próximas gerações de artistas e um símbolo da vanguarda polonesa.

A profunda compreensão da psicologia humana refletida em sua arte pode ser explicada através de sua vida extravagante, marcada por problemas mentais e vícios. Durante uma boa fase, consumia peiote, cocaína, além de outras drogas alucinógenas antes de criar retratos.

Witkiewicz nasceu em Varsóvia, Polônia, em 1865, e logo na infância se mostrou um garoto prodígio, escrevendo peças e tratados filosóficos ainda adolescente. Em 1914, viveu diversas tragédias que o desetabilizaram. No início do ano, sua noiva, Jadwiga Janczewska, cometeu suicídio. Witkacy sofria de depressão mas, com o início da Primeira Guerra Mundial, partiu para São Petersburgo para se alistar no exército. Até o final da guerra, ele permaneceu na Rússia, onde pintou extensivamente, mas foi aqui que também começou a experimentar álcool e drogas.

Uma composição, produzida em São Petersburgo (então Petrogrado) por volta de 1917, foi seu “Múltiplo Auto-Retrato em Espelhos”: um retrato fotográfico enervante feito em uma sala reflexiva, representando cinco Witkacies, vestidos com uniforme militar, olhando um para o outro.

—Artista faz série de auto-retratos sob o efeito de diferentes drogas

A arte de Witkiewicz

Depois que ele fugiu de volta para a Polônia, Witkacy concentrou-se no que havia aperfeiçoado durante sua estada na Rússia – pintura e escrita. Foi quando ele se mudou para Zakopane, o centro da vida intelectual das três partes divididas do país, e se juntou aos Formistas, um movimento de mashup cubista-expressionista-futurista-folclórico, onde cenas psicodélicas, cheias de cores, se encontravam desenhos mais gráficos e geométricos.

Sob a influência de cocaína, mescalina, álcool e outros coquetéis narcóticos, Witkacy preparou numerosos estudos de clientes e amigos para sua empresa de pintura de retratos, fundada em meados da década de 1920; a mistura de substâncias que induzem diferentes abordagens de cor, técnica e composição. As imagens resultantes são surreais – e algumas vezes meio sinistras. Cabeças se tornam bustos sem corpo, suspensos no céu noturno. Corpos são transformados em vermes. Os rostos escorrem pelo papel.

—Deixe-se levar pelas tatuagens surreais e psicodélicas deste artista polonês

A experimentação de Witkacy com drogas não se limitou ao estúdio. Em 1932, ele escreveu Narkotyki (Narcóticos), uma série de ensaios descrevendo sua ingestão, juntamente com a análise das atitudes contemporâneas em relação ao uso de drogas.

Durante as décadas de 1920 e 1930, o abuso de substâncias na Polônia foi cada vez mais visto menos como uma questão médica, mais como uma preocupação social e até nacional, percebida como uma ameaça para o estado polonês recém-independente.

Críticas específicas foram feitas contra o álcool, embora outras drogas, incluindo o tabaco, também tenham sido às vezes criticadas por seus efeitos prejudiciais à saúde. À primeira vista, Narkotyki parece empregar uma retórica semelhante de abstinência. A capa da frente lista ameaçadoramente uma lista de substâncias recreativas, em vermelho e amarelo ardentes.

“No palco, um homem ou alguma outra criatura poderia cometer suicídio por causa de um copo de água derramado, a mesma criatura que dançou de alegria pela morte de sua amada mãe cinco minutos atrás. . . . A arte com tendência à Forma Pura é algo absoluto. . . ocupando um determinado período de tempo”, explicou em uma palestra em 1923.

Lá ele abriu seu primeiro teatro, casou-se com Jadwiga Unrug, teve um caso com a esposa de um barbeiro – que o perseguia com uma navalha pela cidade -, deu palestras e fez e perdeu amigos. Zakopane foi o lugar onde seu trabalho foi mais frutífero e por isso seu amor pela cidade e pelas montanhas Tatra foi constante até o fim de sua vida.

Witkacy também começou a escrever romances, compondo várias obras bizarras e impressionistas. Sua estréia, Farewell to Autumn (1927), foi até certo ponto inspirada por suas viagens com Malinowski, e apresenta uma festa de cocaína. O próximo, Insatiability (1930), é uma distopia alimentada por narcóticos e assustadoramente presciente, narrada por volta do ano 2000, em que a Europa é invadida pela guerra, facilitada pelas pílulas alucinógenas

Já quando morava em Zakopane, começou a ver o romance como um gênero ultrapassado e passou a se concentrar em dramaturgia e filosofia – além de produzir alguns de seus melhores dramas, incluindo “Tumor Brainowicz” e “The Madman and the Nun”.

Com sua propensão filosófica e problemas mentais contínuos, ele tentou provar sua existência através de vários campos. Ele iniciou experimentos controlados com vodka e drogas, que lhe permitiram escapar de sua visão apocalíptica da vida – “um absurdo metafísico”. Esse apocalipse sempre esteve na mente de Witkacy e em seus dramas incoerentes e abstratos, que mostram o desespero na luta pela verdade.

—Artista usa 20 drogas diferentes e cria ilustrações para mostrar o efeito de cada uma

O pseudônimo Witkacy

Em 1925, Stanislaw Ignacy Witkiewicz abandonou a pintura a óleo, pois achava que era incapaz de representar a “Forma Pura”, e foi assim que seu pseudônimo artístico Witkacy foi criado. Ele decidiu se concentrar em retratos, pois podia expressar a alma do modelo e três anos depois montou sua empresa satírica, administrada em seu próprio apartamento.

Seu lema era “O cliente deve estar satisfeito. Mal-entendidos inaceitáveis”, e o próprio Witkacy também criou suas “regras” que dividiam os retratos em categorias (de A a E). As categorias definiram as diferentes doses e tipos de intoxicantes (nicotina, álcool, cocaína) que o artista ingeriu ao criar um determinado retrato. Durante este período foram produzidos centenas de retratos.

Os últimos anos de sua vida foram anos de fertilidade artística. Witkacy escreveu um de seus melhores dramas, Insatiability, e dedicou a maior parte de seu tempo à filosofia, o que resultou em sua principal obra neste campo. Um mês antes da Segunda Guerra Mundial, ele se mudou para Varsóvia com sua esposa. Com a eclosão da guerra, Witkacy viajou para o leste. Porém, quando percebeu que as tropas russas haviam entrado na Polônia, em 17 de setembro de 1939, cometeu suicídio no território do que hoje é a Ucrânia.

Em 1968, seu corpo foi trazido de volta à Polônia. No entanto, durante os trabalhos de exumação, descobriu-se que o esqueleto tinha dentes. Isso estava incorreto porque o artista costumava exibir suas inúmeras dentaduras. Mais tarde, foi confirmado que uma mulher ucraniana foi enterrada em vez de Witkacy. Nos anos seguintes, seus amigos receberam cartas do próprio artista e suas obras desconhecidas apareceram no mercado. Isso levou muitas pessoas a pensar que ele sobreviveu à guerra e seu suicídio foi sua última piada.

O legado de Witkacy continua sendo um elemento essencial da cultura polonesa, tanto que em 2015 o Senado polonês celebrou o ano em homenagem a ele e seu pai. Suas peças continuam em cartaz nos teatros, enquanto seus retratos seguem em exposição, gerando um debate permanece sobre seu significado.

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Fotos: https://publicdomainreview.org/


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