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A carne mais barata é a negra’: família de João Pedro, morto em operação policial, vai receber R$ 808 mensais de indenização

21 • 06 • 2022 às 19:19
Atualizada em 22 • 06 • 2022 às 11:02
Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

O Estado do Rio de Janeiro foi condenado a pagar apenas R$ 808 por mês à família do adolescente João Pedro Matos Pinto, assassinado aos 14 anos durante operação policial no Complexo do Salgueiro em 18 de maio de 2020.

De acordo com a determinação judicial, o pagamento de 2/3 de um salário-mínimo deve ser realizado imediatamente, e dividido igualmente entre a mãe e o pai do jovem até o dia em que João Pedro completaria 25 anos: após, a indenização será reduzida a 1/3 de um salário, ou R$ 404, a ser paga até a data em que o menino completaria 65 anos.

O jovem João Pedro Matos Pinto, morto aos 14 anos após operação policial no Complexo do Salgueiro, no Rio

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Quanto vale uma vida?

“A minha família ainda não teve a resposta que a gente esperava. Nós sabemos que nenhum valor é suficiente para reparar a dor que nós sentimos todos os dias, mas já é alguma coisa”, afirmou Neilton Pinto, pai de João Pedro.

“Mesmo com toda tristeza, estamos felizes pelo Estado ter reconhecido a responsabilidade pela morte do João, isso é muito importante pra nós”, disse.

A indenização foi vista como uma vitória, apesar do valor considerado baixo, e a investigação para esclarecer o crime, bem como a condenação dos policiais envolvidos, permanecerem pendentes.

Neilton Pinto, pai de João Pedro, ao lado do filho na Igreja que frequentavam

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“A concessão liminar de pensão aos pais do João Pedro, através de tutela de evidência, ameniza os efeitos deletérios do tempo na reparação devida pelo Estado. É uma medida inovadora do Código de Processo Civil de 2015 que beneficia quem tem um direito evidente em razão do alongado tempo que processo de reparação em face do Estado leva até sua conclusão”, afirmou Daniel Lozoya, defensor público do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos da Defensoria Pública do Rio de Janeiro (DPRJ), que assiste à família.

João jogava videogame em casa no momento em que foi assassinado

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Morto enquanto jogava vídeo-game

João Pedro foi morto dentro de casa com um tiro de fuzil pelas costas na noite do dia 18 de maio de 2020, enquanto jogava vídeo-game com amigos, durante uma operação conjunta das polícias Civil e Federal no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, região metropolitana do Rio.

Em maio de 2022, uma decisão judicial determinou que os policiais acusados de envolvimento na morte do adolescente fossem reintegrados à corporação em funções administrativas: os agentes permanecem como réus, por homicídio duplamente qualificado e fraude processual.

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