Diversidade

Anne Lister, considerada a primeira ‘lésbica moderna’, registrou sua vida em 26 diários escritos em código

15 • 06 • 2022 às 09:09
Atualizada em 20 • 06 • 2022 às 10:05
Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

A britânica Anne Lister foi uma importante proprietária de terras na comunidade de Shibden, na Inglaterra, na primeira metade do século XIX – e também é considerada a primeira “lésbica moderna” do mundo. Sua vida teria provavelmente sido esquecida no tempo, não fossem os diários nos quais ela rigorosamente registrou sua vida em 26 volumes, reunindo mais de 7,7 mil páginas e 5 milhões de palavras, detalhando, entre outras passagens, suas táticas de conquistas, seus relacionamentos sexuais e amorosos entre 1806 e 1840 – e muitas dessas páginas foram escritas em um código secreto.

Retrato de Anne Lister pintado por Joshua Horner em 1830

Retrato de Anne Lister pintado por Joshua Horner em 1830

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Lister nasceu em 1791, e viveu na propriedade de Shibden Hall, que herdou do tio. Em seus diários, são muitas as passagens banais, relatando nada além de reuniões financeiras, trabalhos de manutenção da propriedade ou meras fofocas sobre a vida social na região, mas desde a primeira adolescência que a inglesa passou também a registrar aventuras amorosas com outras jovens e, mais tarde, mulheres, tornando os diários em um interessante e importante documento da história da sexualidade. Aos 23 anos, ela visitou, para escândalo da sociedade de então, o casal Lady Eleanor Butler e Lady Sarah Ponsonby, que vivia em um dos famosos “Casamentos de Boston” da época, e registrou, com ânimo, sobre a aventura em seus diários.

A propriedade de Shibden Hall, onde Anne viveu por toda a vida, e que dividiu com sua esposa, Anne Walker

A propriedade de Shibden Hall, onde Anne viveu com sua esposa, Ann Walker

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“Fizemos amor”, escreveu Lister depois de dormir com uma de suas primeiras namoradas. “Ela me pediu que fosse fiel, disse que nos considera casadas. Agora vou passar a pensar e agir como se ela fosse minha esposa.”, escreveu, já mais segura sobre sua sexualidade, a qual se referia como sua “peculiaridade” nas páginas. “Meus planos de fazer parte da alta sociedade fracassaram. Realizei alguns caprichos, tentei, e me custou um preço alto”. Ela escreveu, em outro trecho, ao retornar a Shibden Hall depois de uma viagem.

Uma das milhares de páginas de difícil leitura dos 26 volumes dos diários de Anne

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Entre suas muitas conquistas relatadas, seu grande amor de juventude foi Marianna Lawton, que acabaria partindo o coração de Lister ao se casar com um homem. Mais tarde, a proprietária iniciaria um relacionamento com Ann Walker, que duraria por toda sua vida: as duas viveriam juntas em Shibden Hall, sem se deixarem abalar pelos olhares e comentários de seus conterrâneos na comunidade, e até mesmo forjariam um “casamento na igreja” – que., em verdade, não passou de uma visita à missa, mas que, para o casal, representou a consagração de seu matrimônio – com tudo devidamente registrado no diário.

Placa na parede da igreja em Halifax, onde Anne e Ann sacramentaram a união

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Sua aparência era considerada masculinizada, e as conquistas amorosas lésbicas deram à Lister o apelido cruel de “Gentleman Jack”. Para poder registrar tudo livremente em seu diário, que passou a funcionar como um confidente, ela desenvolveu um código, misturando inglês com latim e grego, símbolos matemáticos, do zodíaco, e mais: o texto era escrito sem pontuação, quebra de palavras ou parágrafos, se valendo de abreviações e taquigrafia. “Aqui estou eu, com 41 anos e um coração por encontrar. Qual vai ser o desfecho?”, ela escreve, em outro trecho. Lister morreu aos 49 anos, durante uma viagem, provavelmente após ser mordida por um inseto, mas sua dedicação à escrita e ao registro de sua vida, seus amores e sua sexualidade sobreviveram ao tempo como documentos libertários.

Os códigos, números e símbolos que Lister utilizava para registrar algumas passagens em seus diários

Os códigos e símbolos que Lister utilizava para registrar algumas passagens em seus diários

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Os diários foram descobertos e decodificados após sua morte principalmente por John Lister, último morador da propriedade, mas acabaram novamente escondidos pelo próprio John que, temeroso, escondia também sua própria homossexualidade. Ao longo das décadas, os cadernos foram descobertos, estudados, ainda mais decodificados e traduzidos e, aos poucos, reconhecidos como importantes registros sobre a sexualidade lésbica no século XIX. Depois de publicados, em 2011 foram reconhecidos ao serem incluídos no Registro de Memória do Mundo da UNESCO. Hoje Shibden Hall é um museu, onde os volumes estão dispostos, e cada uma das mais de 7,7 mil páginas foi digitalizada: sua história serviu de base para a série Gentleman Jack, da HBO em parceria com a BBC, trazendo a atriz Suranne Jones como Anne Lister.

A atriz Suranne Jones como Anne na série "Gentleman Jack"

A atriz Suranne Jones como Anne Lister na série “Gentleman Jack”

Retrato em aquarela de Lister, pintado provavelmente em 1822

Retrato em aquarela de Lister, pintado provavelmente em 1822

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© fotos 1, 2, 4, 7: Wikimedia Commons

© fotos 3, 5: Shibden Hall/Facebook/reprodução

© foto 6: HBO/divulgação


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