Inspiração

Beguinas: um prenúncio do feminismo na Idade Média perseguido pela Inquisição

23 • 06 • 2022 às 09:50
Atualizada em 27 • 06 • 2022 às 10:31
Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

A história do feminismo é milenar, e reserva às beguinas um capítulo pouco conhecido porém relevante, que remonta ao século XII, como uma espécie de feminismo medieval perseguido pela Inquisição. As beguinas eram um grupo de mulheres vistas como solitárias, que viviam primeiramente na região dos Países Baixos, mas que depois seriam reconhecidas por toda Europa feito um movimento: tais mulheres viviam nas periferias das cidades, ajudando os pobres e necessitados, e passaram a se reunir e viver juntas, em comunidades conhecidas como “beguinários”.

Retrato de uma beguina retirado de um manuscrito sobre o tema, de 1840

Retrato de uma beguina retirado de um manuscrito sobre o tema, de 1840

-Adamitas: hereges que praticavam o amor livre e a nudez sagrada no século II

Apesar de serem identificadas como leigas católicas, as beguinas não exigiam qualquer voto religioso nem vida monarcal ou regras de clausura: dedicando-se os doentes, pobres, as crianças, os abandonados, elas também protegiam umas às outras – e aceitavam, por exemplo, viúvas ou mulheres abandonadas em seus centros. Reconhecidas como hereges, elas se popularizaram de tal forma pela região dos Países Baixos, que foram vistas como uma força mais importante que os monges no período.

Hábito de uma beguina da Antuérpia

Hábito de uma beguina da Antuérpia

-História comprova que cerveja foi criada e desenvolvida por mulheres

Os beguinários não tinham autoridade superior nem regras autoritárias ou dogmas, além da benevolência: as beguinas podiam deixar as comunidades se quisessem, para, por exemplo, se casarem. A busca por autonomia e independência que conquistavam, especialmente rara para mulheres no contexto da Idade Média, fez com que fossem vistas como uma espécie de feministas medievais. Foi essa liberdade, e as práticas místicas que eram populares nos espaços, que levaram a Igreja Católica a perseguir as beguinas ao longo dos séculos.

Estátua de uma beguina localizada na Holanda: o movimento se espalhou por toda região

Estátua de uma beguina localizada na Holanda: a prática se espalhou por toda região

-Como as imagens de uma das feridas de Cristo parecem vaginas em livros medievais

A escritora Marguerite Porete foi provavelmente a mais famosa beguinaria: tendo vivido entre os anos de 1250 e 1310, ela escreveu o livro místico “O Espelho das Almas Simples e Aniquiladas”, retratando um percurso místico até o encontro com Deus, que fez imenso sucesso à época, mas a levou a ser morta em uma fogueira da inquisição. O movimento perdurou por mais de 800 anos: estima-se que em 1900 restavam mil beguinas na região. Em 2013, Marcella Pattyn, considerada a “última beguina”, veio a falecer aos 101 anos, no beguinário de Courtrai, na Bélgica, onde ganhou uma estátua.

Duas beguinas em Amsterdã, por volta de 1910

Duas beguinas em Amsterdã, por volta de 1910

Beguinário da igreja de São Martim, em Courtrai, na Bélgica

Beguinário da igreja de São Martim, em Courtrai, na Bélgica

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