Inspiração

Bruno Pereira: por que ativista era considerado maior indigenista de sua geração

23 • 06 • 2022 às 09:50
Atualizada em 27 • 06 • 2022 às 10:31
Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

O assassinato do indigenista brasileiro Bruno Araújo Pereira encerrou o trabalho de um dos mais importantes ativistas pela causa indígena e ambiental em sua geração. Morto recentemente ao lado do jornalista inglês Dom Phillips, os crimes confirmaram mais uma vez ao mundo a violência que fazendeiros, madeireiros e garimpeiros impõem contra indígenas e ativistas pelo domínio econômico e territorial, e pela livre prática de atividades ruralistas na Amazonia e em terras indígenas.

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O indigenista acompanhava Phillips quando os dois foram vistos pela última vez, no Vale do Javari,  em Atalaia do Norte, mas seu trabalho como um ativista pela conservação da floresta e a proteção dos povos nativos fez do indigenista um constante alvo de ameaças. Bruno havia sido demitido em 2019 do cargo de Coordenador-geral de Índios Isolados e de Recente Contato, na Funai, pelo delegado Marcelo Xavier, presidente do órgão indicado por Jair Bolsonaro, após pressão de setores ruralistas.

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A última missão de Bruno se dava justamente no Vale onde foi morto, região que abriga a maior concentração de indígenas isolados do mundo, com mais de 6.300 pessoas. Ele atuava na fiscalização de possíveis invasores em territórios indígenas, como garimpeiros, pescadores, madeireiros, mineradores, caçadores e até traficantes de drogas. O trabalho ao lado de Dom Philips, veterano jornalista internacional que vivia no Brasil há 15 anos, tinha como objetivo documentar o impacto da crise ambiental na Amazônia e sobre as comunidades indígenas.

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Após os restos mortais de Bruno e Dom serem encontrados e suas identidades serem confirmadas, no último dia 18 de junho, a jornalista Monica Yanakiew, da Al Jazeera, revelou que o indigenista pediu para não aparecer em uma reportagem que ela realizou, sobre pesca ilegal na Amazônia, por conta das ameaças que sofria. A reportagem chegou a registrar um encontro com Amarildo da Costa, que confessou participação nos assassinatos e comandava um esquema de pesca ilegal.

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Bruno falava quatro línguas nativas do Javari e se relacionava direta e fraternalmente com os indígenas da região, lutando por seus direitos e proteção, sobretudo em questões territoriais e políticas. Ele era reconhecido pela União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) como a maior autoridade do país e uma das maiores do mundo no trabalho com populações isoladas. Seu afastamento da Funai se deu após ele coordenar uma operação que expulsou garimpeiros de terra Yanomami em Roraima.

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“Não são muitas pessoas que se animam a enfrentar uma realidade como aquela. A gente nem poderia esperar que fosse uma pessoa que tivesse o conhecimento que o Bruno tem, a experiência. Não são muitas as pessoas com quem a gente pode contar. Mais do que tudo, os indígenas sabem disso com muita clareza”, afirmou Soraya Zaiden, auxiliar de coordenação da Univaja, em reportagem do UOL. Segundo Soraya, a importância do trabalho de Bruno pode ser resumida em uma mensagem que recebeu de um indígena: “Estou muito triste com o desaparecimento de Bruno, nós também desaparecemos um pouco”.

Bruno Pereira foi assassinado como um dos maiores indigenistas de sua geração

Bruno Pereira foi assassinado como um dos maiores indigenistas de sua geração

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© foto 1: Bruno Gomes/Funai/divulgação

© fotos 2, 4: Getty Images

© foto 3: Twitter/@domphillips/reprodução

© foto 4: Twitter/@dsviolonista/reprodução


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