Debate

Carol Nakamura confunde adoção com caridade e expõe criança em ‘reality show’ bizarro nas redes

01 • 06 • 2022 às 12:54
Atualizada em 02 • 06 • 2022 às 18:40
Redação Hypeness
Redação Hypeness Acreditamos no poder da INSPIRAÇÃO. Uma boa fotografia, uma grande história, uma mega iniciativa ou mesmo uma pequena invenção. Todas elas podem transformar o seu jeito de enxergar o mundo.

Um dos assuntos mais comentados nas redes sociais nesta semana tem sido a exposição de Wallace, uma criança de 12 anos de idade que estava sob os cuidados da atriz e apresentadora Carol Nakamura.

Depois de dois anos sob os cuidados da influencer, o pré-adolescente decidiu voltar para sua família.

Influenciadora e atriz afirmou que menino negro de 9 anos é “safado” e “malandro”

No fim de 2019, Nakamura e seu marido, Guilherme Leonel, decidiram retirar Wallace – com nove anos à época – do lixão do Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, considerado o maior da América Latina.

Tudo foi feito como “entrega direta”. Basicamente, Carol e Guilherme tomaram a guarda da criança sem passar pelo devido processo legal, que assegura que eles seriam os pais da criança e teriam a educação para cuidar do menino.

Porém, pelo fato da criança estar em situação de vulnerabilidade social, eles decidiram fazer isso sem a observação da Justiça. Agora, o menino decidiu voltar para a casa da mãe.

E o que Carol fez? Expôs o menino de 12 anos para seus milhares de seguidores. “Tive que respeitar a vontade dele. Wallace estava safado. Ele já tinha entendido que eu não tinha a guarda dele. Se a gente brigasse ou colocasse de castigo ou chamasse a atenção, ele queria ir para a casa da mãe. E se a mãe fizesse o mesmo, ele vinha para cá. E nisso, faltando na aula. Sem vergonha. A gente sempre sentou e conversou demais, mas infelizmente, foi isso. Já chorei, fiquei sem entender, mas não adianta. O que me resta é aceitar. É um assunto que me incomoda muito. Fiquei me perguntando: onde errei, o que fiz de errado?”, disse.

Esse vídeo da influenciadora Gabi Oliveira, que está em processo de adoção de duas crianças, é bastante explicativo sobre o caso:

Adoção não é caridade

Ao longo de todo o discurso nas redes, Carol Nakamura afirmou que Wallace foi educado da forma errada por sua mãe e que ela “criou” o menino do jeito certo.

“Sempre foi muito amado e ele tem consciência disso. Ele tem uma mãe biológica. Uma criança que cresce sem regra, é muito difícil… Por mais que você mostre os benefícios da educação, alfabetização, ter uma família, casa, oportunidades, o que ele não tinha antes, é complicado e decepcionante. Não estava acreditando que isso ia acontecer”, começou.

A ex-bailarina do Faustão infere, ao longo de toda a sua fala, a ideia de que Wallace não deveria voltar para sua família biológica porque ela teria dado melhores condições materiais para ele.

O que Carol esquece é relembrado por Gabi Oliveira, a @gabidepretas, influenciadora digital e ativista antirracista que recentemente passou pelo processo de adoção legal de duas crianças: “pobres têm afeto”.

Não é porque a mãe de Wallace cedeu a guarda à criança ao casal que o menino deixaria de sentir amor e carinho por sua mãe. “Temos que entender a diferença entre adoção e caridade. Se olharmos para a situação de onde a criança veio e usarmos frases como “tanta gente queria a oportunidade”, “não soube aproveitar” ou “dificilmente terá um futuro”, nós limitamos a relação apenas a uma situação de ganho financeiro, o que pode ser percebido como caridade e não como uma relação de filiação onde há amor e troca sem reservas”, afirma Kandre Requião, criadora de conteúdo especialista em adoção.

E para isso, vale ressaltar: Carol Nakamura não era mãe adotiva de Wallace. Ela não passou pelo devido processo legal e simplesmente cuidou da criança por um período.

Ainda que a adoção dirigida seja permitida no Brasil, ela não cumpriu os requisitos para se tornar legalmente responsável pelo menino.

Problemas da adoção no Brasil

A adoção dirigida possui sérias implicações e é frequentemente debatida judicialmente por abrir precedentes para diversos problemas graves, como tráfico de crianças.

“Nesses casos de adoção direcionada a mãe biológica entrega a criança a quem ela quiser, sem nenhum controle do Estado, o que pode resultar em brechas para venda de bebês, que é uma situação muito grave, por isso, a adoção dirigida tem que ser combatida”, afirma a desembargadora Elizabete Anache, que responde pela Coordenadoria da Infância e Juventude do estado do Mato Grosso do Sul, em nota à imprensa.

O processo de adoção legal no Brasil existe para coibir o tráfico de crianças e o abuso infantil. Pais que desejam adotar uma criança precisam ser educados e adquirir responsabilidades sérias, além de serem devidamente acompanhados por entes do Estado, que podem avaliar a segurança física, psicológica e financeira da criança.

Esse processo existe, mas ainda possui sérias falhas. A demora não é uma delas.É justamente a demora – que ocorre por conta dos extensos processos de segurança que envolvem a parentagem – que evita as devoluções, desistências e outros tipos de abusos.

O grande problema da adoção no Brasil está na seletividade dos pais que desejam adotar. Mais de 70% das crianças para adoção no país são maiores de 8 anos.

“Os pretendentes trazem aquela criança idealizada, é normal, natural. Mas cada vez mais o movimento é mostrar a criança real. A partir de oito anos de idade, já começa a ficar mais difícil da criança ser adotada. Quanto mais a idade avança, mais fica difícil. Também grupos de irmãos, crianças com problemas de saúde. São o que a gente chama de adoções necessárias”, disse o juiz da 4ª Vara da Infância e Juventude da cidade do Rio de Janeiro, Sérgio Ribeiro de Souza, à CNN.

Grupos de irmãos, crianças com problemas de saúde e pessoas com deficiência são preteridos pelos postulantes. 85,5% são negras. Esses dados mostram o problema racial e capacitista das adoções no nosso país.

“O que essas crianças querem é o amor da família e o direito constitucional da convivência familiar e comunitária”, completou o juiz.

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Fotos: Reprodução/Instagram/@carol_nakamura


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