Inspiração

Dona Ivone Lara: a Grande Dama do Samba e sua importância para a luta antimanicomial

01 • 06 • 2022 às 10:31
Atualizada em 06 • 06 • 2022 às 10:35
Roanna Azevedo
Roanna Azevedo   Redatora Diretamente da zona norte do Rio, é jornalista por profissão e curiosa por conta própria. Ama escrever sobre cinema e o universo do entretenimento há mais de dois anos. Tem paixão por tudo que envolve cultura, música, arte e comportamento, além de ficar sempre ligada no que rola no mundinho da comunicação nas redes sociais.

Cantora e compositora carioca, Dona Ivone Lara se tornou a primeira mulher a assinar um samba-enredo e integrar a ala de compositores de uma escola do gênero, a Império Serrano. O que pouca gente sabe é que a Grande Dama do Samba também era enfermeira e exerceu papel de destaque na luta antimanicomial.

Dona Ivone Lara durante a juventude, quando se formou enfermeira pela UNIRIO.

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Yvonne Lara da Costa nasceu no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, em 1922. Aos 13 anos, se mudou para Madureira depois de perder o pai e a mãe. Durante a adolescência, passava muito tempo na casa da tia, onde começou a ter contato com rodas de samba e de chorinho. Quando se formou no colégio interno, saiu em busca de um emprego, mas não desejava trabalhar em fábricas. Achou um anúncio de jornal informando sobre um concurso para a Escola de Enfermagem Alfredo Pinto, da UNIRIO, e decidiu que era isso que queria fazer. Na seleção, ficou entre as 10 primeiras colocadas, o que lhe rendeu uma bolsa de estudos.

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Quando ainda estava no curso, começou a se interessar por fazer especialização na área da psiquiatria. Em 1943, depois de se formar enfermeira, iniciou sua carreira na Colônia Juliano Moreira. Quatro anos depois, se inscreveu no curso de serviço social, sendo uma das primeiras mulheres negras formadas na profissão no país.

Dona Ivone quando trabalhava no hospital psiquiátrico do Engenho de Dentro.

Dona Ivone integrou a equipe de enfermagem do Centro Psiquiátrico Pedro II, localizado no Engenho Novo, até o ano de 1977. Durante esse período, era supervisionada pela psiquiatra Nise da Silveira, responsável por revolucionar a psiquiatria no Brasil. A médica permitia que a enfermeira usasse a música como método de tratamento nas sessões de terapia ocupacional.

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A aplicação da música era uma forma de romper com as práticas psiquiátricas hegemônicas. Seu uso possibilitava que valores culturais, sociais, afetivos e éticos fossem recuperados nos pacientes. Dessa forma, o trabalho de Dona Ivone promovia uma reafirmação das identidades, há muito tempo silenciadas pelas técnicas psiquiátricas agressivas baseadas no isolamento, na internação e no controle do corpo e da mente.

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