Debate

A misoginia como método: mídia, justiça e medicina na cruzada contra os direitos das mulheres

27 • 06 • 2022 às 14:31
Atualizada em 29 • 06 • 2022 às 10:27
Redação Hypeness
Redação Hypeness Acreditamos no poder da INSPIRAÇÃO. Uma boa fotografia, uma grande história, uma mega iniciativa ou mesmo uma pequena invenção. Todas elas podem transformar o seu jeito de enxergar o mundo.

A semana passada foi repleta de notícias absolutamente chocantes sobre as mulheres no Brasil e no mundo.

Observamos o caso da criança impedida de abortar após um estupro em Santa Catarina, o fim do aborto legal nos EUA e a exposição midiática de uma vítima de estupro na mídia pelos jornalistas Matheus Baldi (o primeiro a falar publicamente sobre o tema e que apagou a postagem após pedido da vítima) e Leo Dias – que escreveu uma matéria detalhada do caso no site Metrópoles, que levou a coluna ao ar durante o final de semana.

Vimos, em apenas sete dias, três casos de violência contra a mulher de diferentes formas. Mas o que todos estes episódios revelam é que as diversas instituições do sistema político e econômico em que vivemos reproduzem, de forma estruturante, o patriarcado. Não se trata de ética, se trata de estrutura.

Os três casos

Na segunda-feira (20), o The Intercept Brasil, em parceria com o portal Catarinas, revelou o caso de uma criança de 11 anos de idade que foi vítima de estupro. Grávida de seis meses, ela foi forçada pela juíza a não abortar.

A magistrada Joana Ribeiro Zimmer chegou a separar a vítima de sua mãe para que ela mantivesse a gravidez. O caso levou o presidente Jair Bolsonaro a utilizar o fato para criticar a criança de 11 anos de idade, afirmando que ela deveria ter tido o filho.

Juíza trabalhou para tentar impedir aborto legal de criança vítima de estupro em SC

Na sexta-feira (24), a Suprema Corte dos Estados Unidos revogou o aborto legal nos EUA. O tribunal de maioria conservadora decidiu por maioria conjunta que a decisão Roe v. Wade, que liberava o aborto no país, estava errada e que, portanto, os estados do país que quiserem proibir a interrupção da gravidez terão permissão para fazê-lo.

Neste sábado (25), o jornalista Leo Dias vazou a história, no portal Metrópoles, de que uma atriz da Globo havia sido vítima de estupro, engravidado e dado a criança para adoção. Ela deu à luz o bebê e decidiu entregá-lo para a adoção em um processo legal previsto em lei.

A pressão midiática fez com que a atriz tivesse que falar publicamente do caso.

A Justiça contra a mulher

Como uma juíza pode tentar coagir uma criança de 11 anos de idade a não exercer seu próprio direito de interromper uma gravidez causada por violência sexual? O caso, obviamente, choca. Mas não podemos ter memória curta.

O Tribunal de Justiça de Santa Catarina também foi a instituição onde ocorreu o julgamento de André de Camargo Aranha, acusado de estuprar Mariana Ferrer. Foi sob outorga desta instituição que a jovem foi humilhada pelo advogado Cláudio Gastão da Rosa Filho.

Suprema Corte contou com maioria de homens e uma conservadora trumpista para revogar direito ao aborto nos EUA

Contudo, não se trata apenas da Justiça de SC.  O judiciário não é somente dominado por homens, ele é dominado por ideologias patriarcais. E mulheres – como a juíza Joana Ribeiro Zimmer – podem participar, colaborar e reforçar esse sistema.

“No Brasil, infelizmente vivemos uma pandemia de violências contra nós mulheres, as normas jurídicas foram formuladas e são aplicadas por homens, cis, brancos em sua maioria, o direito não é neutro, se ele expressa valores majoritariamente masculinos e a sociedade como um todo reproduz a cultura do estupro”, afirma a advogada Juliana Valente, especializada em violência contra a mulher, em entrevista ao Hypeness.

E ainda, contudo, não se trata apenas do Brasil. O controle sobre a vida das mulheres tem se expandido ao redor de todo o Ocidente. A decisão da Suprema Corte dos EUA fez com que o país retrocedesse 49 anos na legislação sobre o aborto. As primeiras vítimas, é claro, são as mulheres. Mas é impossível ignorar as nuances de classe e raça presentes nessa decisão.

Cerca de 70% por cento das mulheres negras estadunidenses vivem em estados que tem leis que restringem o aborto e possivelmente proibirão a prática a partir da revogação da Roe v. Wade. Além disso, imigrantes latinos e asiáticos não possuem acesso ao aborto legal mesmo em estados onde a prática é permitida porque não têm direito ao Medicaid.

Lá, eles voltaram atrás. Mas ainda assim, estão muito à frente de nós. No Brasil, 45,21% das mortes por aborto entre 2020 e 2021 foram de mulheres negras em comparação com 17,81% de mulheres brancas.

O aborto segue ilegal e segue sendo atacado mesmo quando é permitido. Contudo, ele segue sendo praticado. Mesmo que de forma clandestina. Mas quem morre por isso são as mulheres em situação de vulnerabilidade social, não as ricas.

“Os índices apresentam que essas mulheres têm a vida atravessada pela fome e insegurança alimentar, falta de saneamento, trabalho e renda. Além disso, têm acesso precário à saúde e educação e estão mais expostas às violências e à violação de direitos por parte do Estado. É nesse contexto que as mulheres exercem suas escolhas no campo da reprodução. Por isso, justiça reprodutiva significa pensarmos os direitos reprodutivos relacionados à justiça social”, destaca Lúcia Xavier, coordenadora geral da pesquisa Mulheres Negras e Justiça Reprodutiva, produzido pela ONG Criola.

Ou seja: a Justiça e a lei reforçam três estruturas: a estrutura patriarcal, que retira direito das mulheres, a estrutura racial, que coloca as mulheres não-brancas em situação de vulnerabilidade, e a estrutura classista, que mantém as mulheres pobres e trabalhadoras sem os mesmos direitos das ricas.

A mídia contra a mulher

Em entrevista à Danilo Gentili, Leo Dias criticou a atriz que decidiu entregar seu filho à adoção. Ele afirmou que “o carma vai ser grande” e que “a conta vai chegar”.  A informação de que a atriz foi vítima de um estupro, decidiu manter a gravidez e posteriormente doar a criança para a adoção forçou que a vítima viesse à público para esclarecer a história.

Sem a ação deliberada dos jornalistas que decidiram escandalizar esse fato – perfeitamente legal e absolutamente privado, sem qualquer interesse público -, uma vítima de violência sexual teria sido protegida.

Leo Dias expôs vítima de violência sexual; caso exibe dependência da mídia em vender violência contra as mulheres

Contudo, após críticas ao jornalista Leo Dias e ao site Metrópoles, portal que abriga sua coluna, ficou ainda mais evidente a posição da mídia sobre o caso. A diretora de redação, Lilian Tahane, se desculpou no Twitter. Mas aproveitou para atacar os críticos.

“Que tal consumir Folha, Estadão, O Globo?! Fique à vontade. Você não está amarrado na gente. Embora nos dê muita atenção. Acho que é recalque, hein. Temos todo tipo de jornalismo, até para você: seção bichos (escrotos)”, disse a jornalista a um usuário que criticou o veículo por abrir espaço para o “jornalismo de esgoto” de Leo Dias.

Vale lembrar que foi o mesmo Metrópoles que abriu e escandalizou o caso do mendigo Givaldo. O veículo abriu espaço para todos os homens da história, mas não preservou a mulher que foi vítima de um grave evento psiquiátrico. Pelo contrário, a expôs profundamente e escandalizou a vida privada de alguém que provavelmente nunca irá se recuperar deste evento midiático.

Mas expor, duvidar e atacar mulheres não é prática exclusiva do Metrópoles. Na verdade, é também uma prática da estrutura midiática. Basta lembrar de casos como a exploração da imagem de Britney Spears – bem relatada no documentário ‘Framing Britney Spears’ -, na espetacularização do assassinato de Leila Diniz, lá nos anos 1970, ou na vida de Monica Lewinsky, vítima de perseguição na mídia após a revelação de que ela fez sexo com Bill Clinton nos anos 1990.

Leo Dias não participou de nenhum desses casos de violência contra a mulher. E ainda que ele seja um agente bastante efusivo deste tipo de jornalismo – vale lembrar, quando, por exemplo, revelou que Anitta havia sido vítima de abuso sexual -, a espetacularização da crueldade é parte da forma como o jornalismo é estruturado. Indivíduos podem se recusar a participar dessa estrutura, editores podem tentar evitar que seu veículo colabore para a violência, mas o problema é da forma como o jornalismo – como mercado – se organiza.

“Dificilmente pode-se imaginar a atividade jornalística, nascida no núcleo e dentro da lógica do do modo de produção capitalista, como algo muito distinto dele. Ela só existe – pelo menos nos termos que conhecemos hoje – transformando informações em mercadorias e colocando-as  à venda mesmo que transformadas, alteradas, mutiladas. Tudo segundo orientações  ideológico-políticas de seus artificies”, afirma  Marcondes Filho, em citação de Adelmo Genro Júnior, no livro “O Segredo da Pirâmide”.

A sociedade em que vivemos subsiste da violência contra a mulher. O capitalismo fabrica e vende em linha de produção o a misoginia através da pornografia, dos coachs de masculinidade, dos fóruns de incels, das antigas propagandas de cerveja, etc. O patriarcado subsiste de commodities e os vende. O jornalismo é, basicamente, a venda de informações. E, se necessário for para o veículo de imprensa – dentro do sistema capitalista -, usufruir desta commoditie e destruir a vida de alguém em troca de lucro, assim o será feito.

Existe todo um campo da teoria da comunicação dedicado a esses estudos. A Teoria Feminista da Economia Política da Comunicação busca mostrar através de relações de classe como a mídia é um agente ideológico fundamental para a manutenção do patriarcado.

A medicina contra a mulher

Vamos fazer o mesmo exercício lógico aqui. A enfermeira que atendeu a atriz supracitada ameaçou enviar informações sobre a vítima para um colunista famoso. O médico que atendeu a mulher tentou pressioná-la para que ela ficasse com a criança.

A menina de 11 anos que foi estuprada e forçada pela juíza a manter o bebê teve que apelar à Justiça porque os médicos do Hospital Universitário da UFSC se recusaram a realizar o procedimento. Podemos lembrar do ginecologista Renato Kalil, acusado de abusar sexualmente de diversas mulheres entre os anos 1990 e 2021.

Podemos pensar em dados quantitativos: uma a cada quatro mulheres já foi vítima de violência obstétrica no Brasil. Dados obtidos pelo The Intercept Brasil revelam  1.734 casos de violência sexual em instituições de saúde pública no país entre 2015 e 2019.

“O espaço do cuidado e da assistência à saúde, assim como os seus profissionais, deveria garantir minimamente que as mulheres tivessem os seus riscos de adoecer e morrer reduzidos, no entanto, por conta de uma estrutura de sociedade opressora, desigual e preconceituosa, coloca a vida das mulheres em risco a cada momento que elas entram nos serviços de saúde”, afirma Emanuelle Goes – enfermeira e coordenadora do Programa de Saúde das Mulheres Negras – Odara Instituto da Mulher Negra.

Medicina e ciência foram estruturadas nos últimos séculos de forma patriarcal, racista e capitalista

Você pode encontrar dados similares nos EUA, na França, no Oriente Médio, enfim… Novamente, trata-se de um problema na formatação da medicina como forma de expressão de uma estrutura profundamente machista, patriarcal e capitalista.

“A medicina é uma ciência social e a política nada mais é do que medicina em larga escala. A medicina como ciência social, como ciência dos seres humanos, tem a obrigação de apontar problemas e tentar sua solução teórica; o político, o antropólogo prático, deve encontrar os meios para sua solução real”, explica o médico Rudolf Virchow.

Londa Schiebinger, professora de História da Ciência na Universidade de Stanford trabalha há anos se debruçando sobre a teoria do viés de gênero, mostrando como a medicina, a engenharia e outras ciências exatas se desenvolveram ignorando mulheres e reforçando a estrutura patriarcal de gênero.

Essas formas de construção de conhecimento – usualmente continuadas por famílias burguesas, usualmente dominadas por homens, usualmente desprovidas de um pensamento social crítico – fazem com que a estrutura da medicina seja um instrumento patriarcal e capitalista.

Um problema coletivo de responsabilidades individuais

Todos os debates feitos nesse texto acerca dos três fatos ocorridos e das três estruturas podem levar o leitor mais desatento a refletir: se a culpa é da estrutura, não há porque responsabilizar os indivíduos. Mas em nenhum momento isso foi dito.

As pessoas envolvidas na medicina, na mídia e na justiça que aqui estão citadas cometeram erros infames e devem ser responsabilizadas. Mas a grande questão que deve ser debatida é a seguinte: sem uma transformação verdadeira do sistema – tanto da forma de acumulação de capital quanto da paridade de poder entre gêneros – os ataques aos direitos das mulheres continuarão sistemáticos.

A mera representação de mulheres na imprensa, na Suprema Corte dos EUA ou no leito hospitalar não salvaram as vítimas. Representação sem qualidade não adianta de muita coisa.

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Fotos: Foto 2, 4 e Destaques: © Getty Images Fotos 1: Assembleia Legislativa de SC Foto 3: Reprodução/SBT


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