Arte

Milton Gonçalves: genialidade e luta na vida e obra de um dos maiores atores de nossa história

03 • 06 • 2022 às 17:51
Atualizada em 06 • 06 • 2022 às 19:30
Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

A vida do ator Milton Gonçalves, falecido no dia 30 de maio, aos 88 anos, foi de brilhantismo, talento e luta: um gênio atuando nos palcos, na TV e no cinema, Milton também se dedicou contra o preconceito e pelo espaço e o reconhecimento do trabalho dos artistas negros no Brasil.

Nascido na cidade mineira de Monte Santo em 1933, Milton foi sapateiro, alfaiate e gráfico antes de chegar aos palcos – e começar a atuar no final dos anos 1950, iniciando a carreira que viria a se tornar o caminho de um dos mais importantes atores do nosso país.

Milton Gonçalves viveu uma das mais importantes carreiras - e vidas - da dramaturgia brasileira

Milton Gonçalves viveu uma das mais importantes carreiras – e vidas – da dramaturgia brasileira

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A arte de Milton Gonçalves 

Milton Gonçalves chegou à Rede Globo em 1965, um ano após a fundação da emissora, para fazer parte do primeiro elenco de artistas da dramaturgia do canal.

Na televisão, foram mais de 40 novelas, e alguns dos mais icônicos e influentes personagens da história da TV brasileiras, em trabalho cujo a relevância saiu da ficção para impactar a mais concreta vida real.

O ator em cena de "O Bem Amado", de 1973

O ator em cena de “O Bem Amado”, de 1973

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Depois de interpretar o garimpeiro Braz na novela “Irmãos Coragem”, em 1973 o ator deu vida a um dos mais importantes personagens de sua carreira: o desejo de voar como um pássaro de Zelão das Asas na novela “O Bem-Amado”, de Dias Gomes, foi transformado, durante a pior fase da ditadura e através do talento de Milton, em metáfora da liberdade que tanto o país desejava.

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Com o psiquiatra Percival da novela “Pecado Capital”, de 1975, Milton quebrava estereótipos racistas que imperavam na representação negra na TV – e as grandes atuações seguiram, desde sempre e até o último dia de sua carreira.

Entre muitos e muitos outros exemplos impecáveis, a historia do ator se confunde com a história da teledramaturgia brasileira, em personagens como o Padre Honório de “Roque Santeiro “, em 1985, o Pai José em “Sinhá Moça”, de 1986, o deputado Romildo Rosa em “A Favorita”, de 2008, até Eliseu em “O Tempo Não Para”, último trabalho em novela de Milton, em 2018.

Em 2008, como Romildo Rosa, em “A Favorita”

Em 2008, como Romildo Rosa, na novela “A Favorita”

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O ator também iluminou as telas da TV em minisséries históricas como como “Tenda dos Milagres”, de 1985, “As noivas de Copacabana”, de 1992, “Agosto”, de 1993, e “Chiquinha Gonzaga”, de 1999.

Ao lado de Paulo José, em cena de "Macunaíma", filme de Joaquim Pedro de Andrade, de 1969

Ao lado de Paulo José, em cena de “Macunaíma”, filme de Joaquim Pedro de Andrade, de 1969

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No cinema, foram mais de 50 filmes ao longo de seis décadas – trabalhando em muitos dos maiores filmes de nossos cinema, e enfrentqando de frente diversos paredões de preconceitos e estereótipos com a força de seu talento e trabalho.

Depois de fazer historia em “Cinco Vezes Favela”, de 1962, Milton foi Jiguê em “Macunaíma”, de Joaquim Pedro de Andrade, um dos maiores filmes da história do cinema brasileiro, em 1969 – mesmo ano em que interpretou Urtiga em “O Anjo Nasceu”, de Julio Bressane. Em 1974, também em plena ditadura, interpretou com brilhantismo um fora da lei, negro e homossexual no clássico “A Rainha Diaba”, de Antonio Carlos da Fontoura.

"A Rainha Diaba", de 1974, é um dos grandes trabalhos do ator no cinema

“A Rainha Diaba”, de 1974, é um dos grandes e mais importantes trabalhos do ator no cinema

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E a história do cinema segue pela interpretação de Milton: entre muitos outros trabalhos, em 1981 viveu Bráulio em “Eles Não Usam Black-Tie”, de Leon Hirszman, um policial em “O Beijo da Mulher Aranha”, de Hector Babenco – que também dirigiu “Carandiru”, filme no qual Milton interpreta o personagem Chico, em 2003. Seu último filme foi “Pixinguinha, Um Homem Carinhoso”, dirigido por Denise Saraceni e Allan Fiterman em 2021, no qual interpreta Alfredo Vianna.

Liderando, com elegância, inteligência, firmeza e retidão, a afirmação da posição negra nos palcos e telas brasileiras, Milton Gonçalves morreu em casa, ao lado da família, e teve o corpo velado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. “Agradeço imensamente todos os caminhos que o senhor abriu para nós”, escreveu Lázaro Ramos, em seu Twitter.

Milton Gonçalves em cena de "Eles não Usam Black-Tie", de Leon Hirszman

Milton Gonçalves em cena de “Eles não Usam Black-Tie”, de Leon Hirszman

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© fotos 1, 2, 3: Rede Globo/divulgação

© fotos 4, 5, 6, 7: Divulgação


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