Viagem

O desafio de chamar de ‘casa’ lugares que veem imigrantes como problema (e a ilusão da cidadania europeia)

30 • 06 • 2022 às 11:46
Atualizada em 04 • 07 • 2022 às 10:27
Jamille Bastos
Jamille Bastos   Redatora Uma apaixonada pelo Rio de Janeiro vivendo em Londres, Jamille é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro que atualmente faz mestrado em Diversidade e Mídia na Universidade de Westminster. Em oito anos de experiência no digital, já coordenou e editou alguns gigantes de audiência como o site gastronômico TudoGostoso, mas se encontrou mesmo trabalhando para incluir a questão racial na mídia de uma forma justa e livre de estereótipos. Mudar narrativas é seu objetivo.

Desde que eu me mudei pra Londres há nove meses para fazer o meu mestrado, convivo continuamente com a pergunta: vai ficar por aí? Eu nunca nem cogitei a possíbilidade de morar aqui pra sempre e, pra falar a verdade, nos primeiros meses tudo o que eu queria era meu Rio de Janeiro, sol e ciclovia de volta.

Hoje eu já consigo dar o braço a torcer de que talvez eu sinta falta desse lugar, que é arquitetonicamente lindo pra todo lado e culturalmente vibrante como nenhum outro que eu já estive, mas a ideia de que ser um cidadão daqui é muito melhor do que ser um cidadão brasileiro sempre me foi muito estranha. 

A grama do vizinho mais ao Norte do globo pode parecer muito mais verde

Os serviços básicos são tão melhores assim mesmo?

Pode parecer que serviços básicos como o de saúde vão ser muito melhores em países “desenvolvidos”, mas essa não é a verdade. O nosso SUS pode ter muitos defeitos, mas advinha? O amado (sim, eles valorizam muito essa instituição por aqui) NHS também tem.

Na verdade, eu já conheci mais de um brasileiro que, quando têm algum problema de saúde, preferem voltar pro Brasil pra tratar. Num geral o que se sente é que os nossos médicos são mais atenciosos e têm uma abordagem muito mais preventiva do que a cultura médica prevalecente por aqui.

Eu precisei muito pouco do NHS, mas até onde eu necessitei ele me atendeu perfeitamente. Apesar disso, eu também conheço amigos que ficaram horas numa sala de emergência sem serem atendidos, desistiram e foram embora – bem do jeitinho que a gente tá cansado de ver acontecer com o SUS no Brasil. O meu ponto é: em alguns quesitos de qualidade de vida a grama do vizinho mais ao Norte do globo pode parecer muito mais verde, mas nem sempre é.

Uma grama definitivamente mais verde é o custo de vida. Com um salário mínimo de valor bem parecido (cerca de 1500 Libras contra os nossos 1.200 Reais) é possível comprar bem mais e viver de maneira mais confortável. Um exemplo disso são as compras de mercado, que em Londres não chegam a dar 200 Libras por mês para uma pessoa sozinha.

Eu lembro que quando cheguei aqui assustei com o preço barato das coisas no mercado e confesso que, mesmo achando muito legal a economia, bateu um pouco de tristeza por saber como anda o custo da alimentação no Brasil. Esse, porém, é um cenário que está mudando e o Reino Unido se encontra no meio de uma crise de custo de vida.

Os preços das despesas diárias estão subindo e especialmente a alimentação está enfrentando um aumento de 7% ao ano, o maior em 30 anos. Como resultado aumentou o número de pessoas no país em insegurança alimentar e cada vez mais famílias migram para a pobreza.

A riqueza atual do país foi construída num passado colonial

Emprego de sobra realmente tem, mas o plano não é preenchê-los com imigrantes

Em qualquer rua comercial que você passe aqui em Londres, vai encontrar plaquinhas de “we are hiring” (estamos contratando) nas janelas. Com a pandemia e, principalmente, as novas regras de imigração impostas depois da saída do país da União Europeia, muitos trabalhadores deixaram o Reino Unido e um número cada vez menor está chegando.

Isso porque uma das principais razões para o Brexit era ter um controle maior sobre a entrada de imigrantes e, com isso, as regras para vir trabalhar no Reino Unido mudaram. Pelo novo sistema de pontos criado pelo governo, tanto europeus quanto cidadãos de qualquer outro país do mundo estão debaixo da mesma regra: somente trabalhadores qualificados, que falam inglês e já chegam ao país com uma proposta de salário bem acima do mínimo podem vir para trabalhar.

O governo diz que quer atrair pessoas que possam contribuir com a economia do Reino Unido, mas o que é uma economia sem as suas funções de base? O resultado é que o índice de desemprego em maio de 2022 foi o menor desde 1974, mas ainda assim pela primeira vez o número de vagas abertas ultrapassou o número de desempregados no país, ou seja: não tem gente para preencher todas essas 1.3 milhão de vagas abertas.

O extremo plano de envio de refugiados para Ruanda que está em andamento no momento

Ainda assim, o governo atual segue com o discurso de contenção de imigração que o elegeu e recentemente lançou um programa que tem sido amplamente criticado por organizações de Direitos Humanos, pela Igreja da Inglaterra e até mesmo por membros da realeza como o príncipe Charles, que segundo a imprensa teria chamado de tenebroso o plano da Secretária de Estado Priti Patel de enviar à força refugiados que cruzem o Canal da Mancha em botes diretamente para Ruanda para tentar o processo de asilo por lá.

A mensagem é clara: não há lugar para esses refugiados aqui. A ideia, que já está pronta para ser colocada em prática é preocupante por muitos motivos. Desde a extrema pobreza que atinge boa parte de Ruanda até a brutalidade policial que matou 12 pessoas no país durante um protesto de refugiados em 2018, além de centros de refugiados onde há toque de recolher às 20h da noite, punições e denúncias de abuso sexual.

Por parte de quem apoia o programa, existe toda uma justificativa de que esses imigrantes seriam um problema para a economia do Reino Unido e superlotariam os sistemas básicos como o de saúde. Mas, assim como no Brasil de Bolsonaro há muita gente com mentalidade divergente, no UK também são muitos os cidadãos que discordam veementemente dessa ideia.

Eu fiquei tocada ao abrir na página de cartas dos leitores do Metro, jornal gratuito distribuído nos transportes públicos, e ver ingleses argumentando contra a nova política. Um deles lembra a questão de que o Reino Unido está precisando de gente pra trabalhar; outro lembra que a riqueza atual do país foi construída num passado colonial que causou muitos conflitos e que, por isso, é obrigação não fechar a porta pra pessoas de países em conflito.

Já uma das cartas levantou um fator sobre o qual eu nunca havia pensado a respeito: o morador de Manchester diz que o plano de deportar refugiados para Ruanda é nojento e imoral porque a maioria dos que cruzam o canal fugindo de guerras e perseguições fariam isso por terem família aqui no Reino Unido.

A ativista inglesa Georgina Tatem concorda e diz que: “Transportar refugiados para outro continente essencialmente facilita o trabalho deles (do governo). Se o governo quisesse impedir a chegada de imigrantes “ilegais”, deveria estar fazendo mais para apoiar essas pessoas, para que não sintam que essa é sua única opção. Eu vejo isso como outro exemplo dos conservadores priorizando a economia do Reino Unido acima de tudo, até mesmo o bem-estar de seres humanos”.

O plano segue sendo um grande alvo de críticas por aqui e o primeiro avião com refugiados a serem enviados para Ruanda no dia 14/6 foi impedido de decolar nos últimos minutos por ordem da Corte Europeia de Direitos Humanos, que apesar do Brexit ainda tem jurisdição aqui no Reino Unido. Como o governo de Ruanda já confirmou ter recebido mais de 120 milhões de Libras pelo acordo, é bem improvável que o plano volte atrás e que a corte europeia consiga continuar revertendo a saída de voos. Se isso realmente acontecer, vai ser um capítulo inteiramente novo na crise de refugiados mundial e um marco na postura do Reino Unido em relação à imigração.

O índice de desemprego em maio de 2022 foi o menor desde 1974

Refugiados vindos da Ucrânia têm sido tratados de forma diferente

Mas a mensagem de que “não há lugar” não é a mesma para outros cidadãos que, como sírios e afegãos, também estão fugindo de um país em guerra e necessidades: os ucranianos.

Todo dia saem notícias sobre crianças ucranianas sendo recebidas em escolas inglesas, cidadãos britânicos recebendo incentivo financeiro para hospedar famílias ucranianas em casa e comunidades fazendo todo tipo de esforços para integrar os recém-chegados de uma situação tão traumática.

São notícias maravilhosas de se ler, mas que para Georgina levantam a dúvida sobre o porquê de um tratamento tão diferente. “A lei é feita para “proteger” as pessoas, mas apenas se essas pessoas nasceram em um país europeu? A comparação entre refugiados ucranianos e pessoas na mesma posição, que precisam enfrentar circunstâncias de risco de vida apenas para chegar aqui, é uma representação repugnante da maneira como o partido conservador desumaniza os refugiados do Oriente Médio.

Somos agora o lar de mais de 80.000 refugiados ucranianos e isso não foi enquadrado da mesma forma que as estatísticas de refugiados que atravessam o Canal da Mancha, apesar de o número ser inferior a metade disso, com menos de 30.000 pessoas entrando no país ‘ilegalmente’ no ano de 2021”, diz Georgina.

Para a ativista, as aspas ao redor da palavra ilegal precisam ser colocadas porque é difícil definir com um termo tão negativo pessoas que só estão tentando se salvar. “Ilegal é a palavra que o governo e a grande mídia utilizam para alterar a percepção sobre as pessoas que estão apenas procurando um lugar seguro para viver”, pontua.

A diferença de termos ao tratar pessoas vindas de diferentes realidades é algo curioso por aqui. Alguns meses atrás ao conversar com uma colega alemã que veio morar em Londres para um mestrado, ela disse estranhar o fato de eu defini-la como imigrante, já que essa palavra por aqui carrega uma conotação negativa e, em sua mente, direcionada a nações culturalmente distantes.

É preciso descolonizar o olhar para a fantasia que muitas vezes se esconde por trás da ideia de morar no exterior

Imigrar para a Europa exige muita reflexão interna e social antes de uma decisão 

O ponto-chave de toda essa discussão, desde a resistência em receber imigrantes de países subdesenvolvidos para trabalhos de base que realmente estão precisando de gente, até a diferença de tratamento dada a refugiados europeus e os vindos de outros países é que há um claro olhar para a imigração como um problema no momento.

Isso não significa apenas que vir trabalhar legalmente no Reino Unido ficou mais difícil e voltado para uma pequena elite, significa que essa é uma mentalidade e um olhar que você tem que estar pronto para enfrentar se quiser começar uma vida por aqui.

Como mulher, preta e vinda de uma origem humilde, eu digo desde que cheguei que o rótulo de imigrante não é mais um que eu estou disposta a botar no topo de tudo isso. Ao mesmo tempo, tenho amigas brancas e de vida até então confortável que se depararam com esse olhar e essa postura contrária a elas como integrantes da sociedade pela primeira vez na vida. Antes de pensar na cidadania europeia e no sonho de morar no exterior como algo mágico, vale pesar esses duros pontos da realidade.

Para sem bem justa com o país que me convidou para morar e estudar, eu sempre fui muito bem tratada por todas as pessoas que eu conheci por aqui, mas a minha experiência individual não me impede de saber que pelo menos duas pessoas próximas a mim já ouviram gritos de “volta pro seu país” nas ruas.

Grito que, aliás, eu ouvi recentemente do meu lado na Espanha sendo direcionado para um asiático sem máscara no ônibus e que, acompanhando as notícias, vejo que muitos brasileiros andam ouvindo ao morar em Portugal. Para ser ainda mais justa com os meus colegas ingleses, eu entendo muito bem como é ter um governo e compatriotas com visões extremas sobre o outro com as quais você não concorda em nada.

Para Georgina, a recepção aos ucranianos é um modelo de como ela gostaria que seu país funcionasse sempre. “Claramente, o aumento de refugiados no país desde a guerra da Rússia na Ucrânia prova que temos a capacidade de fazer o bem, de ajudar os outros em seu momento de necessidade. Isso é o que deveríamos estar fazendo também quando se trata de iranianos, sírios, iraquianos e outros de países não europeus”, diz a ativista.

Desde que eu cheguei ouço conselhos sobre como ficar por aqui e conseguir cidadania inglesa. Até mesmo minha universidade ministrou palestras com o objetivo de ensinar a pedir visto de trabalho. Obter a cidadania daqui é considerado algo tão importante que, em discussões recentes sobre remover a cidadania de filhos de imigrantes que nasceram no Reino Unido e praticaram algum crime, o governo se manifestou dizendo que “cidadania é um privilégio e não um direito de nascença”.

Mas como eu ouvi de uma colega que trabalhou mais de cinco anos na Inglaterra e voltou ao Brasil no mesmo ano em que poderia requisitar a cidadania inglesa e não o fez: eu já tenho cidadania! Ela é Brasileira, cheia de problemas, belezas e eu não acredito que preciso de mais uma.

Londres é linda, cercada de belezas naturais, culturais, gente gentil e também cheia de eleitores de um governo que atualmente planeja mandar refugiados à força para Ruanda e vê a imigração como um grande problema. Vale se questionar: meus planos de mudar para o exterior consideram tudo isso? Vale dizer também que governos passam, mentalidades tortas podem ser corrigidas e já tem muita gente, britânica e imigrante, trabalhando por aqui para isso, mas é preciso descolonizar o olhar para a fantasia que muitas vezes se esconde por trás da ideia de morar no exterior.

Publicidade

Canais Especiais Hypeness