Diversidade

Sueli Carneiro: os melhores momentos do papo reto da intelectual negra com Mano Brown

06 • 06 • 2022 às 10:27
Atualizada em 08 • 06 • 2022 às 08:56
Gabriela Rassy
Gabriela Rassy   Redatora Jornalista enraizada na cultura, caçadora de tendências, arte e conexões no Brasil e no mundo. Especializada em jornalismo cultural, já passou pela Revista Bravo! e pelo Itaú Cultural até chegar ao Catraca Livre, onde foi responsável pelo conteúdo em agenda cultural de mais de 8 capitais brasileiras por 6 anos. Roteirizou vídeo cases para Rock In Rio Academy, HSM e Quero Passagem, neste último atuando ainda como produtora e apresentadora em guias turísticos. Há quase 3 anos dá luz às tendências e narrativas culturais feministas e rompedoras de fronteiras no Hypeness. Trabalha em formatos multimídia fazendo cobertura de festivais, como SXSW, Parada do Orgulho LGBT de SP, Rock In Rio e LoollaPalooza, além de produzir roteiros, reportagens e vídeos.

Sueli Carneiro é uma das intelectuais mais importantes do movimento negro, antirracista e feminista do Brasil. Convidada para um papo reto no podcast Mano a Mano, comandado por Mano Brown no Spotify, ela falou sobre temas como cotas, embranquecimento do futebol e extermínio dos negros. Neste programa histórico, Sueli deu aula e separamos aqui alguns dos melhores momentos da conversa.

Doutora honoris causa pela Universidade de Brasília (UNB) e em Filosofia da educação, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), Sueli Carneiro nasceu no bairro da Lapa e foi criada na Vila Bonilha, ambos em São Paulo. Ela tem seis livros publicados e é fundadora do Geledés, instituto em defesa de mulheres e negros contra o racismo e do sexismo.

Sueli Carneiro é uma das intelectuais mais importantes do Brasil

“Eu aprendi a pensar como uma pessoa preta lendo Abdias do Nascimento. Eu aprendi a pensar como um mulher negra lendo (e vendo) Lelia Gonzales”, disse a ativista que se orgulha de ter tido o privilégio de ver Abdias, Lelia, entre outros ícones do pensamento negro.

—Filósofas negras fundamentais para a compreensão do racismo estrutural

“A gente está colocado na linha de frente do perigo, nos hospitais”, disse Brown. “Nós só estamos colocados aí, por que somos pretos. Somos aqueles que podem morrer”, completa Sueli. “É maioria”, diz Brown. “Não, é preto”, rebate a filósofa. “Se houvesse a quantidade de indigência humana de pele branca, esse país não seria o que é”, finaliza Sueli.

O que organiza essa p*rra é o racismo. Racismo é uma ideologia para produzir privilégios para um grupo em detrimento de outro. (…) Eles assinaram uma abolição que significava: ‘vocês estão livres para morrerem na sarjeta desse país’. Não tinha um projeto de inclusão social. Não havia um projeto educacional. Fomos jogados no lixo das cidades brasileiras.

Sueli Carneiro fala sobre como esse projeto começou lá atrás, com a elite intelectual do país focada em embranquecer a população, o que abriu o país para a imigração de alemães, italianos e depois japoneses. “Eles vieram com todas as vantagens que não nos foram datas. Deram terra para italianos e alemães, deram apoio estatal para o desenvolvimento dessas comunidades. E a gente na lata do lixo”.

Suei Carneiro em conversa com Mano Brown e Semayat Oliveira

Sueli traz para a mesa a referência do artigo “Os cotistas desagradecidos“, de Tau Golin, que fala sobre os primeiros cotistas do país, aqueles que chegaram e já receberam sua cota para prosperar. E, como acompanhamos as histórias dessas famílias europeias e seus decendentes, de fato prosperaram. “Você acabou de resumir! Tudo é cota! Xeque mate”, exclamou Brown.

“Preto é colonizado. O branco falou ‘cota é muleta’, ‘o que importa é o mérito’; vamos ver como é o mérito do branco? Se eles não fizerem a nossa cabeça, o negócio não funciona. Mas nós vencemos essa batalha já. As cotas foram instituídas. Mas temos que continuar lutando e você faça sua parte”.

Segundo Sueli, o censo de 1980 mostrava que 6% da população se autodeclarava preta, 38% se declarava parda e que o movimento negro instituiu politicamente que negros são a somatória de pretos e pardos.

Sempre foi uma estratégia do branco dominador de nos colocar em confronto uns com os outros. A decisão de transformar em negro essas duas categorias foi política e que permitiu reunificar aquilo que sempre foi manipulado para nos separar. O maior medo que esse país tem é de uma consciência negra acontecer de fato e se tornar uma força revolucionária.

—Em 7 anos, população que se autodeclara preta cresce 32% no Brasil

Sueli falou também sobre futebol, um tema que muito interessa a ela. Brown questionou onde estão os negros da seleção. Ela diz que assiste a Premiere League por que é onde vê africanos jogando.

O papo entre Sueli e Mano Brown rendeu reflexões importantes

“Como nossos meninos foram sendo substituídos por meninos de classe média brancos? Não é possível. Tem que se fazer essa pergunta. Eles não deixaram de desejar futebol. Eles têm sido gradativamente excluídos. Você pega o campeonato francês: é uma profusão de gente preta como não se vê mais aqui no Brasil, que é o tal do futebol pentacampeão e que só foi pentacampeão graças aos jogadores negros. A eles nós devemos isso. Agora: como é que eles desapareceram?”.

Brown sugere que eles não estão mais interessados talvez em futebol e Sueli rebate. “E não me venha com teoria da conspiração porra nenhuma! Isso é conversa de branco pra cima da gente. Pega os índices de mortalidade da gente em qualquer nível. É teoria da conspiração que negros tenham morrido de Covid 70% mais do que brancos? Por que a gente morre de mortes previníveis e evitáveis o tempo todo? Por que a gente é mantido na indigência humana?”.

Ouça o podcast na íntegra:

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