Arte

13 livros para resignificar ‘ser mulher’ com a força da arte em tempos obscuros

21 • 07 • 2022 às 09:26
Atualizada em 22 • 07 • 2022 às 10:38
Gabriela Rassy
Gabriela Rassy   Redatora Jornalista enraizada na cultura, caçadora de tendências, arte e conexões no Brasil e no mundo. Especializada em jornalismo cultural, já passou pela Revista Bravo! e pelo Itaú Cultural até chegar ao Catraca Livre, onde foi responsável pelo conteúdo em agenda cultural de mais de 8 capitais brasileiras por 6 anos. Roteirizou vídeo cases para Rock In Rio Academy, HSM e Quero Passagem, neste último atuando ainda como produtora e apresentadora em guias turísticos. Há quase 3 anos dá luz às tendências e narrativas culturais feministas e rompedoras de fronteiras no Hypeness. Trabalha em formatos multimídia fazendo cobertura de festivais, como SXSW, Parada do Orgulho LGBT de SP, Rock In Rio e LoollaPalooza, além de produzir roteiros, reportagens e vídeos.

Depois de séculos de apagamento histórico, e em meio a retrocessos na área dos direitos reprodutivos, à saúde e à cidadania, celebrar a literatura que exalta a potência de “ser mulher” de diversas formas pode ser um remédio para a alma. Em tempos obscuros, escritoras mostram sua força por meio da literatura, ressignificando histórias e narrativas inspiradoras.

Claro que seguimos tendo ensaios necessários de Lélia Gonzales, Angela Davis, Djamila Ribeiro, bell hooks, entre tantas outras, como bases do feminismo, mas aqui vamos nos concentrar em novidades, ensaios e romances literários sobre as dores e as delícias de existir como mulher neste mundo. Nestas obras, estão reunidas vivências, afetos, reivindicações, reflexões e experiências de mulheres cis e trans nos processos da vida.

Como bem escreve a ensaísta francesa Hélène Cixous: “Eu falarei da escrita feminina: do que ela fará. É preciso que a mulher se escreva: que a mulher escreva sobre a mulher, e que faça as mulheres virem à escrita, da qual elas foram afastadas tão violentamente quanto o foram de seus corpos”.

– ‘Julho das Pretas’ e a importância de Lélia Gonzalez 

Confira:

O Riso da medusa
Hélène Cixous

Ensaio referencial para o feminismo desde sua publicação, nos anos 1970, “O riso da Medusa” se constrói a partir da incômoda ausência de vozes femininas entre tudo o que circula na paisagem da literatura, da teoria e da crítica. Se o mito da Medusa alude à castração da mulher, a um sentido negativo e monstruoso historicamente atribuído a uma falta do falo, este texto de Hélène Cixous evoca a urgência de que as mulheres afirmem sua presença no texto.

Hélène Cixous por Sophie Bassouls/Sygma via Getty Images

Para a autora, pioneira nos estudos de gênero na Europa, longe de se opor ao masculino, o feminino é indefinido, imprevisível na afirmação de sua diferença: a escrita feminina surge quando a mulher toma posse de seu corpo. E então passa escrever, com prazer, em sentidos sempre renovados pela imaginação. Sem censuras. Sem decapitações. Sem cobrir com a mão o próprio riso.

O Parque das irmãs magníficas
Camila Sosa Villada

Quando chegou à cidade de Córdoba para estudar na universidade, a autora argentina Camila Sosa Villada decidiu ir ao Parque Sarmiento durante a noite. Estava morta de medo, pensando que poderia se concretizar a qualquer momento o brutal veredicto que havia escutado de seu pai: “Um dia vão bater nessa porta para me avisar que te encontraram morta, jogada numa vala”. Para ela, esse era o único destino possível para um rapaz que se vestia de mulher.

Camila Sosa Villada por Catalina Bartolomé/Divulgação

Camila Sosa Villada por Catalina Bartolomé/Divulgação

Camila queria ver as famosas travestis do parque, e lá, diante daquelas mulheres e da difícil realidade a que são submetidas, foi imediatamente acolhida e sentiu, pela primeira vez em sua vida, que havia encontrado seu lugar de pertencimento no mundo.

Este romance é isso tudo: um rito de iniciação, um conto de fadas ou uma história de terror, o retrato de uma identidade de grupo, um manifesto explosivo, uma visita guiada à imaginação da autora. Nestas páginas, convergem duas facetas da comunidade trans, facetas que fascinam e repelem sociedades no mundo inteiro: a fúria travesti e a festa que há em ser travesti.

As Maravilhas
Elena Medel

Um romance poderoso sobre as mulheres, o trabalho e o dinheiro. Aqui, Elena Medel descreve duas mulheres: María, que no final dos anos 1960 deixa sua pacata cidade de província para trabalhar em Madri; e Alicia, que faz o mesmo caminho trinta anos mais tarde, por razões bem diferentes.

“As Maravilhas” é um romance sobre o dinheiro, ou melhor, sobre como a falta de dinheiro pode determinar uma vida inteira de precariedade e matar, um a um, todos os sonhos de alguém. E, também, uma jornada sobre o passado recente da Espanha, do final da ditadura franquista até a explosão do feminismo, contada por duas mulheres que tampouco podem ir às manifestações lutar pelos seus direitos porque têm, claro, de trabalhar para garantir o seu sustento.

Elena Medel

Elena Medel por ©Laura C. Vela

A filha única
Guadalupe Nettel

Uma obra universalmente celebrada onde a premiada escritora Guadalupe Nettel explora a ambivalência materna com um toque de cirurgiã, dissecando cuidadosamente as contradições que compõem as experiências vividas pelas mulheres.

Escrito com uma simplicidade apenas aparente, este romance profundo e cheio de sabedoria sobre a maternidade, sobre sua negação ou suposição; sobre as dúvidas, incertezas e até sentimentos de culpa que a cercam; sobre as alegrias e tristezas que a acompanham. É também um romance sobre três mulheres — Laura, Alina e Doris — e os laços de amizade e de amor que se estabelecem entre elas. Um romance sobre as diversas formas que a família pode assumir no mundo de hoje.

Guadalupe Nettel

Guadalupe Nettel/Divulgação wook.pt

Vidas Rebeldes, belos experimentos
Saidiya Hartman

Neste estudo magistral e inovador sobre a população dos cinturões negros da Filadélfia e de Nova York, Saidiya Hartman se vale do método da fabulação crítica para dar voz às personagens por ela estudadas, em sua maioria jovens negras “em franca rebelião”. Ao combinar um estilo literário a uma extensa pesquisa de arquivos, documentos e imagens, Hartman descreve o mundo através dos olhos dessas mulheres e se propõe a “recriar a imaginação radical” delas, oferecendo uma nova mirada sobre esse grupo social.

Saidiya Hartman/Divulgação/MacArthur Foundation

Na pesquisa rigorosa e sensível, a população negra deixa de ser encarada como objeto condicionado por habitações insalubres, trabalhos degradantes, prisões arbitrárias e toda sorte de violência, e passa a ser vista como um sujeito capaz de modificar o tecido social e cultural ao oferecer novas respostas e formas de resistência.

Hartman tece uma ponte entre o individual e o coletivo, reconstituindo a complexidade de personagens a quem a história negou qualquer traço humano, ao mesmo tempo em que faz do coro o protagonista do espetáculo.

Mulheres empilhadas
Patrícia Melo

A obra é de ficção, mas todas as personagens desse livro existem de fato. As protagonistas dessa história são as mulheres. Todas elas: as já feitas e as meninas, as gordas e as magras, as negras e as pardas, as indígenas e as descendentes de imigrantes, as analfabetas e as com grau universitário. Nesse romance intenso, que se lê de um fôlego só, Patrícia Melo fala sobre a matança sistemática de mulheres no Brasil, que atinge democraticamente todas as classes sociais.

Patricia Melo por Marcelo Tabach

Na trama, a jovem advogada paulistana, tentando fazer as pazes com seu próprio passado, larga tudo e vai ao Acre acompanhar um mutirão de julgamentos de casos de mulheres assassinadas na maioria das vezes por homens conhecidos – pais, tios, avôs, maridos, namorados, ex-maridos. Enquanto vê passarem diante dos seus olhos os mais diversos casos de violência contra a mulher, a protagonista descobre um país onde a impunidade se impõe quase como uma lei.

Intercalada à narrativa principal, precisa e realista, Patrícia constrói capítulos oníricos, inspirados na lenda das icamiabas, tribo de guerreiras amazônicas que lutam contra os homens opressores. Nesse mundo paralelo, a advogada e as icamiabas formam uma sociedade de mulheres que perseguem, julgam e matam os criminosos que escapam da justiça na vida real.

Guiada por rituais ancestrais dos povos indígenas e chocada com a violência ao seu redor, a personagem mistura presente e passado, realidade e pesadelo, razão e delírio. Sua busca pessoal acaba por impulsionar outras tragédias, e novos crimes se juntam à trama. Dessa imensa pilha de cadáveres, no entanto, ela será capaz de resgatar seu próprio enigma.

—bell hooks: 4 livros para conhecer o trabalho da ativista e feminista negra

O Acontecimento
Annie Ernaux

Em 1963, Annie Ernaux, então uma estudante de 23 anos, engravida do namorado que acabara de conhecer. Sem poder contar com o apoio dele ou da própria família numa época em que o aborto era ilegal na França, ela vive praticamente sozinha o acontecimento que tenta destrinchar neste livro quarenta anos depois, quando já é uma das principais escritoras de seu país.

Annie Ernaux por Roberto Ricciuti/Getty Images

Com a ajuda de entradas de seu diário e de memórias há muito guardadas, Ernaux reconstrói seu périplo solitário para realizar um aborto clandestino. Ao refletir sobre a onipresença da lei e seu imperativo sobre o corpo feminino, Ernaux nos apresenta mais uma face da mescla indissociável do íntimo e do coletivo tão característica de todo o seu percurso literário. Quando por fim encontra uma “fazedora de anjos” disposta a realizar o serviço, a jovem acaba na ala de emergência de um hospital.

– ‘O Acontecimento’: adaptação de Annie Ernaux traz urgência do direito ao aborto para as telas do cinema

Anos se passam sem que ela tenha coragem de revisitar o episódio. Em sua relação radical com a escrita, porém, Ernaux encontra o caminho para falar publicamente de seu aborto e fazer da literatura uma profissão de fé, que comove pela honestidade cortante: “o verdadeiro objetivo da minha vida talvez seja apenas este: que meu corpo, minhas sensações e meus pensamentos se tornem escrita, isto é, algo inteligível e geral, minha existência completamente dissolvida na cabeça e na vida dos outros”.

A última Filha
Fatima Daas

Em ritmo cadenciado, ecoando o rap ou o slam, ou ainda as rezas do alcorão, Fatima Daas mescla experiências pessoais e ficção num livro que desafia as convenções da literatura. Um romance? Um poema em prosa? Um ensaio ficcional?

A linguagem fragmentada costura memórias, questionamentos e confissões, revelando a busca por uma identidade própria, que se debate entre a pressão familiar e a da religião, os desejos e a experiência de amor com outras mulheres. Com “A última filha”, a autora estreou no meio literário francês em 2020, recebendo prémios e sendo logo celebrada como autora revelação.

Fatima Daas por Sophie Bassouls/Sygma via Getty Images

—25 livros de escritoras indígenas para você enriquecer mente e espírito

Poemas reunidos
Miriam Alves

Comemorando os quarenta anos de atividade poética de Miriam Alves, a obra traz pela primeira vez em conjunto os poemas desta que é uma das vozes mais importantes da literatura brasileira. Política e lírica, a poesia de Miriam Alves mobiliza diversas vozes e temporalidades para a construção de uma subjetividade singular e poderosa.

Além de reunir seus dois livros de poesia, “Momentos de busca” (1982) e “Estrelas no dedo” (1985), o volume traz os poemas da autora presentes nos “Cadernos Negros”, os poemas publicados em diversas antologias e revistas e até hoje não recolhidos em livro e três plaquetes editadas por Miriam nos anos 2010 e às quais ela chamou de “zines” graças ao seu caráter caseiro de feitura.

Também foram incluídos na edição as mini-autobiografias da autora publicadas nos Cadernos Negros, um depoimento para a revista eLyra e os prefácios originais de seus dois livros, escritos por Abelardo Rodrigues e Jamu Minka. O posfácio fica a cargo de Emerson Inácio e o texto de orelha é de Heleine Fernandes.

Miriam Alves por Amanda Neri/Divulgação

Reencantando o mundo
Silvia Federici

Os artigos deste livro documentam as intensas lutas travadas por pessoas em todo o mundo contra as múltiplas formas de desapropriação às quais estão sujeitas. “Ressignifica as categorias marxistas, reinterpretando-as em uma perspectiva feminista”, como descreveu Peter Linebaugh no prefácio. Na tradição marxista, tais lutas são, com frequência, descartadas como puramente defensivas. Mas essa visão está profundamente equivocada.

Silvia Federici/Divulgação

É impossível defender os direitos comunais sem criar uma nova realidade, isto é, novas estratégias, novas alianças e novas formas de organização social. Uma mina é aberta, ameaçando o ar que as pessoas respiram e a água que bebem; perfurações são feitas em águas costeiras para extrair petróleo, envenenando o mar, as praias e as terras agrícolas; um bairro antigo é devastado para abrir espaço a um estádio — imediatamente, um novo perímetro é estabelecido.

De um ponto de vista feminista, uma das atrações exercidas pela ideia dos comuns é a possibilidade de superar o isolamento em que as atividades reprodutivas são realizadas e a separação entre as esferas privada e pública, que tanto têm contribuído para esconder e racionalizar a exploração das mulheres na família e no lar.

Um Outro Brooklyn
Jacqueline Woodson

A história de Augusta começa em 1973, quando ela se muda para o Brooklyn — um enclave multicultural de Nova York com uma dinâmica comunidade afro-americana. Lá, ela descobre o poder e o conforto da amizade feminina, enfrentando a transição da adolescência para a vida adulta.

Para Augusta e suas três amigas — Sylvia, Angela e Gigi — o Brooklyn era um lugar onde garotas bonitas, talentosas, alegres e brilhantes pareciam enxergar um futuro luminoso. Mas sob o verniz da esperança havia um outro Brooklyn, um lugar verdadeiramente perigoso em que homens mais velhos procuravam meninas em corredores escuros de prédios populares, fantasmas assombravam à noite e mães desapareciam de um dia para outro.

Jacqueline Woodson

Jacqueline Woodson por Emma McIntyre/Getty Images

Garotas Mortas
Selva Almada

Um dos grandes nomes da literatura argentina contemporânea, Selva Almada investiga três casos de feminicídio em seu país na década de 1980. E mostra que a situação não mudou com o tempo.

Três assassinatos entre centenas que não são suficientes para estampar as manchetes dos jornais ou mobilizar a cobertura dos canais de TV. Três crimes “menores” enquanto a Argentina celebrava o retorno da democracia. Três mortes sem culpado. Com o tempo, essas histórias se convertem em uma obsessão particular da autora, o que a leva a uma investigação bastante atípica. A prosa cristalina de Selva Almada mostra como as violências diárias contra meninas e mulheres acabam fazendo parte de algo considerado “normal”. Com este livro, a autora desbrava novos caminhos para a não ficção latino-americana.

Selva Almada

Selva Almada por Juan Manuel Foglia

Esse Cabelo
Djaimilia Pereira de Almeida

Irresistível de ponta a ponta, amorosa e um tanto irônica, essa é a história da maturidade, em uma nação na periferia da Europa, de uma mulher negra que é considerada forasteira em seu próprio país e não consegue enxergar a possibilidade de “retornar” a uma pátria que, de fato, nunca foi sua. O livro traz a contribuição única da língua portuguesa a um diálogo global cada vez mais fervente sobre racismo, feminismo, colonialismo e independência. Isso porque a obra de estreia de Djaimilia Pereira de Almeida dialoga com o romance pós-colonial, o ensaio de identidade e a autoficção.

Djaimilia Pereira de Almeida | Arquivo Pessoal

Publicidade

Canais Especiais Hypeness