Arte

30º FIG: diversidade e reencontros marcam a retomada do maior festival multicultural do Brasil

30 • 07 • 2022 às 15:30
Atualizada em 30 • 07 • 2022 às 17:30
Gabriela Rassy
Gabriela Rassy   Redatora Jornalista enraizada na cultura, caçadora de tendências, arte e conexões no Brasil e no mundo. Especializada em jornalismo cultural, já passou pela Revista Bravo! e pelo Itaú Cultural até chegar ao Catraca Livre, onde foi responsável pelo conteúdo em agenda cultural de mais de 8 capitais brasileiras por 6 anos. Roteirizou vídeo cases para Rock In Rio Academy, HSM e Quero Passagem, neste último atuando ainda como produtora e apresentadora em guias turísticos. Há quase 3 anos dá luz às tendências e narrativas culturais feministas e rompedoras de fronteiras no Hypeness. Trabalha em formatos multimídia fazendo cobertura de festivais, como SXSW, Parada do Orgulho LGBT de SP, Rock In Rio e LoollaPalooza, além de produzir roteiros, reportagens e vídeos.

O FIG – Festival de Inverno de Garanhuns é nada menos que maior festival multicultural do Brasil. Há 4 horas da capital pernambucana de Recife, o evento ocupa a cidade toda com atrações que vão das grande figuras da música nacional até a lona de circo tão característica da cultura dos interiores do Brasil, reunindo milhares de pessoas em torno das mais de 800 atrações espalhadas pelos mais de 20 polos.

Era o dia do meu aniversário quando eu preparava mais uma vez a mala para ir até Pernambuco. Em vez de shortinhos e biquíni, a bagagem se viu preenchida por bota, malhas e a essencial capa de chuva. O frio não é meu melhor amigo, mas o motivo era bom o suficiente para encarar as muitas horas de avião e estrada para chegar ao interior do estado nordestino.

Não era a primeira vez que praticamente assoprava as velinhas e seguia para o aeroporto com o mesmo objetivo. O Festival de Inverno de Garanhuns já tinha ganhado meu coração em julho de 2019, quando fui convidada a participar da Plataforma FIG, que tem curadoria de Priscila Melo. Naquela ocasião, o encontro com duas grandes jornalistas, Renata Simões e Nina Gazirre, era para falar sobre “Comunicação e Jornalismo Multimídia”.

Desta vez, fui com meus olhos e ouvidos atentos para outros debates que fazem deste braço do festival, um momento essencial para quem trabalha e comunica arte. Além da comunicação, a retomada dos festivais foi o tema da vez. Depois de 2 anos, a gente precisava entender os caminhos que nos levaram de novo às ruas e a nos unir em torno da cultura.

Plataforma FIG

Plataforma FIG com Vander Lins (Virada Cultural), Carol Morena (Radioca), Aíla (MANA e Amazônia Mapping), Gabriel Junqueira (Coala) e André Brasileiro (FIG)

A cantora, compositora, produtora Aíla compartilhou suas experiências fazendo um festival que falar da Amazônia. Junto com sua parceira, a artista Roberta Carvalho, ela criou dois festivais no Pará: o Amazônia Mapping, que ocupa o centro de Belém com macroprojeções, música, oficinas; e o MANA, que é sobre música e mulheres da Amazônia.

“A gente abriu uma grade de capacitação e o line up continuou nessa instiga de fazer surgir projetos que não existiam. Na guitarrada, que é um estilo típico do Pará, só tinha representantes homens. Falei para uma guitarrista de rock do Pará, a Renata Beckmann, para montar uma banda de guitarrada. E hoje existe a Guitarrada das Manas, que já tocou em várias cidades do Brasil”, conta. Aíla e Roberta agora devem comandar a Nave do Rock In Rio, com a Amazônia como tema.

Cada um dos palestrantes e produtores de festivais trouxe suas diferentes experiências, indo do Radioca, que acontece em Salvador, até o Coala e a Virada Cultural, em SP. “A gente continua acreditando no poder e no papel do Estado de desenvolver a cultura num país continental como esse”, concluiu André Brasileiro, coordenador Geral do FIG.

Programação do FIG 2022

Chegar à terra da democracia e ser recebida com Gal Costa no palco resume muito a emoção desse retorno. As saudades dos abraços foram se acalmando ao som de “Sorte” e seguiram em apertos cada vez mais fortes na homenagem à Milton Nascimento. A sequência não deixou que ninguém se soltasse. Chico César e Geraldo Azevedo subiram ao palco com seu projeto “Violivoz” intercalando canções poderosas desses grandes ícones da música nordestina. Depois deles, o espaço Terra recebia o público para uma boa noite de forró que terminaria só no amanhecer.

No dia seguinte, vimos a Praça Dominguinhos ocupada por 70 mil pessoas apaixonadas pelo brega. Carla Marques, Banda Sentimentos, Conde Só Brega e Raphaela Santos – A Favorita arrastaram a multidão que cantava em plenos pulmões cada sucesso.

A retomada veio aí e numa potência ainda maior que da última edição. Dessa vez, mais de 800 atrações se espalharam pelos 24 polos culturais em 17 dias de festival totalmente gratuito. A expectativa de realizar a 30ª edição do FIG, um marco emblemático, era muito grande.

“O FIG já é superconsolidado no Estado e tem por si só público muito fiel. Batemos mais uma vez o recorde de público na noite de Pitty, Titãs e Duda Beat, que é uma coisa que vem acontecendo sistematicamente, de colocar sessenta, setenta mil pessoas no Palco Dominguinhos”, avalia Andreza Portella, Coordenadora de Música da Secult/PE.

Além dos gigantes da música, o FIG tem espaço garantido para artistas que acabaram de entrar na cena e para apostas tanto do Pernambuco quanto de outras regiões do país. “A gente não tem problema de colocar nomes novos. No palco principal estão os grandes nomes da cena nacional, mas a gente tem também artistas que estão começando no Palco Pop, no Som na Rural e tem público. O pessoal sabe que vai encontrar artistas novos aqui no FIG e o tem essa ânsia por conhecer”, conta Andreza.

Se revezando entre Pop e Forró, o palco da Parque Euclides Eudorado recebeu nomes como Majur, Afroito, Chico Chico, Ave Sangria e Otto, Luedi Luna, Bala Desejo, Juliana Linhares, Jader – que convidou Aíla e Barro -, Juçara Marçal, Maglore, Bia Marinho entre muitos outros.

Pertinho dali, Roger de Reno apresentava artistas pernambucanos de todos os estilos no clássico palco Som na Rural. O forró da sanfoneira Ceiça Moreno, o rock do Devotos e a poesia de Natascha Falcão ecoaram em frente à Rural Willys 1969 em mais uma prova de que Pernambuco é autosuficiente quando se trata de arte e cultura.

O Palco de Cultura popular também não me deixa mentir. Bem no centro de Garanhuns, em meio ao comércio local, passaram grupos e representantes de maracatus, afoxés, tribos indígenas, toadas, blocos de samba, coco, quadrilhas juninas, cavalos marinhos, bois, reisados, cirandeiros e troças. Uma riqueza cultural sem fim em maratona começando de manhã e indo até o anoitecer.

Poderia dizer que vi de tudo, mas seria impossível em poucos dias. Ainda poderia passar pela Praça da Palavra para ver os lançamentos de “Meu Livro Vermelho”, de Otto, ou de “Ceará Mestiço”, novo livro da enciclopédia cultural viva que é Oswald Barroso. Poderia ter visto algumas tantas peças de teatro, filmes dedicados ao universo da música e da animação. Mas tá aí a beleza da coisa também. A chance de voltar, ficar mais tempo e absorver cada pedacinho do FIG.

Em ano eleitoral, bate uma dúvida de como seria manter um festival público em contextos diferentes. Aqueles que a gente não quer nem pensar, mas que passam pela cabeça. “É tudo feito de forma muito democrática e vem se consolidando nos próximos anos. Se um dia chegar uma gestão que queira enfraquecer esse processo, não será fácil. As pessoas já entendem a importância desse formato e setores culturais estão muito organizados”, me tranquiliza Andrezza.

Acho que já deu pra entender a dimensão do FIG, né? Uma união de diferentes tribos, mas sempre apaixonados pelo nosso direito à cultura, a manter as manifestações que tão aí há muito tempo e a conhecer o que tem de novo. O FIG é tudo isso mesmo. E eu se fosse você marcava no calendário uma ida ao Pernambuco no próximo inverno. Eu e minha capa de chuva te encontraremos por lá. E viva a cultura!

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