Tecnologia

5G ‘puro sangue’ chega ao Brasil, mas esbarra em desigualdade tecnológica antes de se tornar realidade

11 • 07 • 2022 às 10:00
Atualizada em 13 • 07 • 2022 às 09:12
Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

Brasília se tornou a primeira cidade do Brasil a receber a conexão 5G “puro sangue”, com mais velocidade e sem restrições, mas a nova tecnologia de internet poderá expor e até mesmo ampliar a desigualdade digital no país. A novidade chegou à capital federal no dia 6 de julho, e o prazo para instalação do 5G em todas as capitais brasileiras é dia 29 de setembro, mas o tipo de leilão realizado poderá fazer com que o acesso à conexão fique restrito a cidades e mesmo bairros mais ricos.

A tecnologia 5G tem poder de melhorar a realidade social - mas também de agravar a desigualdade

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Até aqui, o Brasil utilizou somente uma “versão” da conexão chamada 5G DSS, mais limitada, como uma transição entre gerações. O leilão, realizado no dia 4 de novembro do ano passado, foi do tipo “não-arrecadatório”, no qual as empresas pagam uma parte menor do valor pela concessão, com o restante sendo “pago” em investimentos em infraestrutura, implementação da tecnologia e do acesso ao serviço. Acontece que, apesar das faixas terem sido vendidas a um preço baixo, o leilão não impôs contrapartidas que exigissem a busca pela redução das desigualdades regionais e sociais, e ampliação o acesso.

Leilão do 5G no Brasil, realizado em novembro do ano passado

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Assim, os moldes estabelecidos pelo leilão acabam fazendo com que as empresas invistam somente em cidades e bairros ricos, onde já existe uma grande quantidade de antenas e equipamentos, tornando assim o estabelecimento da infraestrutura mais barato. Em São Paulo, por exemplo, o bairro do Itaim Bibi, um dos mais caros da cidade, possui 48,3 antenas por quilômetro quadrado, enquanto regiões periféricas possuem cerca de 0,02 antenas no mesmo raio, exigindo, assim, um maior investimento por parte das empresas para instalação e oferta do serviço na periferia.

Uma cidade como São Paulo possui muito mais antenas nas regiões ricas do que na periferia

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Da mesma forma, tais regiões concentram uma maior quantidade de clientes potencialmente dispostos a gastar mais dinheiro com assinaturas dos serviços.  A situação se revela ainda mais agravada diante do fato de que, para utilizar os serviços do 5G, é necessário possuir um smartphone adequado, em modelo atualizado e mais caro, a um custo médio de cerca de 3 mil reais. O leilão da nova tecnologia poderia ter incluído contrapartidas como instalação de pontos de Wi-Fi públicos, assim como obrigatoriedade de investimento em regiões periféricas.

O leilão do 5G no Brasil não exigiu contrapartida inclusiva ou expansiva no país

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Segundo especialistas, junto do investimento pesado no 5G, outra contrapartida importante que a Anatel, agência nacional de telecomunicações, poderia ter proposto, é a democratização irrestrita do acesso à conexão 4G para toda população. A desigualdade digital no contexto do 5G é especialmente lamentada diante do potencial transformador que a novidade pode possuir: por se tratar de uma conexão tão mais veloz e ágil, pode promover desenvolvimento econômico e geração de empregos, especialmente em regiões mais pobres do país.

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© fotos 1, 3, 4: Getty Images

© foto 2: MCOM/Governo Federal


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