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‘A mulher da casa abandonada’: até quando aceitaremos conviver com a escravidão doméstica moderna?

08 • 07 • 2022 às 14:07
Atualizada em 08 • 07 • 2022 às 14:27
Redação Hypeness
Redação Hypeness Acreditamos no poder da INSPIRAÇÃO. Uma boa fotografia, uma grande história, uma mega iniciativa ou mesmo uma pequena invenção. Todas elas podem transformar o seu jeito de enxergar o mundo.

O podcast ‘A Mulher da Casa Abandonada’ tem dominado as redes sociais nas últimas semanas.

A criação de Chico Felitti em parceria com a Folha de São Paulo conta a história de Margarida Bonetti, mulher branca de classe média alta que escravizou uma mulher negra nos EUA e viveu refugiada em um casarão no bairro de Higienópolis.

Casa abandonada serve de esconderijo para escravagista foragida do FBI

Margarida Bonetti e seu marido, Renê Bonetti, viviam nos Estados Unidos. Eles levaram para o estrangeiro uma mulher negra, brasileira, para trabalhar como doméstica. Ela tinha carga horária que ia das 6h às 22h, sem receber pagamentos. Eles foram denunciados e Renê foi preso, cumpriu pena por seis anos e hoje trabalha nos EUA.

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Já Margarida fugiu em meio ao processo e passou a viver na ‘Casa Abandonada’, localizada na Rua Piauí, na região central de São Paulo, ao lado do edifício Louveira, considerado um dos marcos arquitetônicos do bairro de Higienópolis.

O podcast se tornou um fenômeno nas redes sociais e o local onde fica a residência passou a ser considerado um “ponto turístico”. A história ganhou contornos de mistério por conta da situação da mansão, visivelmente abandonada, além da figura de Margarida, que aparece com o rosto completamente coberta por um creme branco em fotos públicas, além de viver em condições de higiene completamente insalubres.

“Mulher da Casa Abandonada” fugiu de casarão colonial depois de ter virado fenômeno midiático

Contudo, muitos apontam para a falta de escuta crítica que alguns ouvintes do podcast exercem. A espetacularização da figura de Margarida e do próprio espaço – um casarão colonial herdado de uma família cafeeira que enriqueceu graças à escravidão – retira o caráter urgente desta história.

Domésticas são reflexo da escravidão

Ainda que a escravidão como sistema econômico tenha acabado, seus efeitos seguem sendo sentidos na pele pela população negra até os dias de hoje. Margarida Bonetti é herdeira de uma família rica e faz parte da elite branca paulista, que forjou sua riqueza em cima da mão de obra escravizada.

– Brasil é o país onde 81% veem racismo, mas apenas 4% admitem discriminação contra negros

Margarida é filha do famoso médico Geraldo Vicente de Azevedo, filho do Barão da Bocaina, Francisco de Paula Vicente de Azevedo, filho do Coronel José Vicente de Azevedo. Os títulos de nobreza e a ação política dos Vicente de Azevedo indicam que estes paulistas eram ávidos defensores e beneficiários do modelo escravagista paulista. E há vezes em que a fruta não cai muito longe do pé.

A mulher escravizada por Margarida desde o início dos anos 1970 nos EUA era analfabeta e negra. Seu perfil compactua com as mais de 2.330 mulheres resgatadas de condições análogas à escravidão nos últimos 20 anos.

Destas, 61% declararam ser negras, 36% nasceram no Nordeste e 56% eram iletradas ou tinham menos que cinco anos de estudo.

“Esses casos de exploração da trabalhadora doméstica ocorrem desde a época da escravidão, não tendo sido cessados com a promulgação da Lei Áurea. Em verdade, trazem sim muitos traços da época em que a escravidão era permitida”, explicou Liane Durão, auditora-fiscal do trabalho e coordenadora de combate ao trabalho análogo à escravidão na Bahia, ao jornal Brasil de Fato.

Recentemente, o caso de Madalena Giordano, resgatada da casa de Dalton Rigueira, em Patos de Minas (MG), chocou o Brasil. Desde então, dezenas de casos de mulheres negras escravizadas têm sido revelados.

O podcast que retrata Margarida Bonetti não deveria ser motivo de espetáculo, mas sim de luto pela triste realidade do Brasil, que não supera suas origens escravocratas. Na mesma rua Piauí, mulheres negras levam os golden retrievers das madames de Higienópolis para passear.

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Fotos: Reprodução/Google Street View Foto 2: Reprodução/Instagram/@amulherdacasaabandonada Destaque: Divulgação/Folha de São Paulo


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