Debate

‘A Mulher da Casa Abandonada’: Margarida Bonetti e privilégio branco em 1ª entrevista sobre acusação de trabalho escravo 

20 • 07 • 2022 às 15:04
Atualizada em 20 • 07 • 2022 às 17:22
Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

O sétimo e último episódio do podcast “A Mulher da Casa Abandonada” traz a primeira entrevista de Margarida Bonetti, personagem da série acusada de ter mantido uma empregada doméstica em condições análogas à escravidão por décadas nos EUA.

A entrevista é um verdadeiro documento sobre privilégio branco no Brasil, e foi realizada por Chico Felitti, que criou e apresenta a série documental.

O podcast “A Mulher da Casa Abandonada” é uma produção da Folha de S. Paulo

O podcast “A Mulher da Casa Abandonada”, de Chico Felitti, é uma produção da Folha de S. Paulo

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Privilégio branco 

Na conversa, Margarida diz que a empregada, uma mulher negra e analfabeta que trabalhava diariamente das 6h às 22h sem receber pagamentos, era sua “melhor amiga”, se defende de todas as muitas acusações e afirma ser vítima de um complô.

Segundo Bonetti, a conspiração contra ela envolveria advogados, o FBI e até congressistas dos EUA, pela aprovação de uma lei que protege as funcionárias das casas de famílias estrangeiras no país.

Uma das raras fotos de Margarida Bonetti à janela da casa onde vive desde que fugiu da Justiça

Uma das raras fotos de Margarida Bonetti à janela da casa onde vive desde que fugiu da Justiça

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O velho mecanismo 

Quando questionada sobre as agressões, que incluem “puxões de cabelo, jogar sopa quente, fervendo no rosto dela, dar sapatadas e bater com o punho fechado na cara dela”, a mulher afirma que todos foram feitos de “bobos” em nome da aprovação da lei.

Em seguida, porém, ao descobrir que a ex-empregada não quer ter qualquer contato, Bonetti expressa com clareza sua raiva, e o sentido claro e inequívoco do privilégio branco.

“Nem eu quero! Pois ela foi uma mentirosa e uma traidora. Eu não quero falar nada com ela”, diz a mulher, que, além das agressões físicas e morais, é acusada de não ter pagado salários à empregada, que trabalhava para a família desde que Margarida tinha 9 anos, em situação de escravidão que durou entre 1979 e 1998.

“Eu a via como uma amiga de infância. Então, eu gostava dela. Então eu tenho uma pura curiosidade de saber se ela está bem. Se ela está bem de saúde. Será que isso daí você pode me contar?”, diz Bonetti.

O sétimo e último episódio do podcast traz a primeira entrevista com Bonetti

O sétimo e último episódio do podcast traz a primeira entrevista com Bonetti

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Racismo e privilégio branco 

A mulher, que faz parte de uma lista de procurados do FBI, nega toda as acusações, apresentadas com provas devidas pela Justiça dos EUA. Quando perguntada sobre o início da relação, confirma que a empregada já trabalhava para família há cerca de 20 anos quando foi para Washington, nos EUA, com Margarida. “Ela começou quando eu tinha nove anos de idade. A gente brincava de queimada, pegava varetas, dominó, você entendeu? De bola no quintal”, diz.

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“Ela era muito mentirosa. Então, ela supostamente tinha que limpar a casa. Só que ela não limpava a casa. A gente ficava brincando. Quando a minha mãe perguntava ‘Ah você limpou a casa? Você fez isso?’. ‘Fiz!’. E eu só ficava olhando”, diz Margarida.

“Ela tinha esse péssimo hábito da mentira. E isso continuou a vida inteira, por todo o tempo que eu tive contato com ela. Mas a gente brincava, ela era minha amiga”, diz a mulher, que afirma que não sabia se a doméstica recebia ou não salário, e que tudo seria responsabilidade de seu ex-marido, Renê Bonetti, que foi preso nos Estados Unidos.

Com o sucesso da série, a casa vem recebendo procissões de curiosos - e pichações

Com o sucesso da série, a casa vem recebendo procissões de curiosos – e pichações

A entrevista inclui momentos tensos e até delirantes, com a mulher tentando dissuadir Felitti de publicar a história, e os detalhes das péssimas condições de saúde nas quais a empregada, que tem sua identidade preservada, foi mantida, sem direito a atendimento médico. Apesar de ter convivido por mais de 20 anos, a mulher afirma que nunca soube nada sobre a saúde da doméstica, nem se ela recebia ou não seu salário.

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Os episódios completos do podcast “A Mulher da Casa Abandonada”, da Folha de S. Paulo, estão disponíveis em todas as plataformas de áudio e no Youtube.

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© fotos: Instagram/@amulherdacasaabandonada/reprodução


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