Arte

AIR: a cena artística nos EUA era dominada por homens até ela chegarem com os dois pés na porta

01 • 07 • 2022 às 10:09
Atualizada em 05 • 07 • 2022 às 10:16
Redação Hypeness
Redação Hypeness Acreditamos no poder da INSPIRAÇÃO. Uma boa fotografia, uma grande história, uma mega iniciativa ou mesmo uma pequena invenção. Todas elas podem transformar o seu jeito de enxergar o mundo.

Muitas mulheres artistas ficaram por anos escondidas ou na sombra de um relacionamento com outro artista ou no fim deste mesmo relacionamento. A arte nos Estados Unidos foi então uma cena majoritariamente dominada por homens. Mas não por muito tempo. Vamos te levar por um passeio histórico e libertador da AIR, uma residência artística feminista que botou os dois pés na porta e fez seu nome no mundo da arte.

A A.I.R. (sigla para Artists in Residence que também forma a palavra “AR”) nasceu com a missão de promover o status das mulheres artistas, exibindo diversos trabalhos da mais alta qualidade e fornecendo liderança e senso de comunidade para mulheres do ramo.

Obra "Morte do Patriarcado", de 1976, de Mary Beth Edelson

Obra “Morte do Patriarcado”, de 1976, de Mary Beth Edelson

A Galeria A.I.R. foi fundada em 1972 e é reconhecida como a primeira cooperativa de artistas mulheres. Na adesão original estavam artistas como Nancy Spero, Howardena Pindell, Dotty Attie e Agnes Denes. Seus membros expositores são um grupo central de 20 artistas, além de 15 afiliados em todo o país.

Se antes elas dependiam de seus pares para serem introduzidas ao universo artístico – e depois enxotadas dele ao primeiro sinal de término – com a A.I.R. elas fizeram seus trabalhos chegarem aos museus, colecionadores e críticos.

Esse foi o caso de Françoise Gilot, que viu as galerias deixarem de comprar seus trabalhos a pedido de Picasso, quando a relação chegou ao fim. E de Camille Claudel, namorada de Augustin Rodin que produziu várias esculturas assinadas por ele até que, depois do término, o Ministério de Belas Artes parou de comissioná-la, também a pedido do ex.

—Lee Krasner finalmente é reconhecida pela pintora que foi e não apenas como esposa de Pollock

Como as Guerrilha Girls falam, mulheres estão nos museus como musas, estampando retratos como cuidadoras ou como rainhas admiradas, mas sempre com aquele tom de semi-deusa. Semi. Mas a história prova que as mulheres têm sido essenciais para a arte ao longo dos tempos não só posando, mas de fato inspirando, criando e produzindo.

Sylvia Sleigh, retrato do grupo "A.I.R.", 1977

Sylvia Sleigh, retrato do grupo “A.I.R.”, 1977

Retrato do grupo "A.I.R.", 1977

Retrato do grupo “A.I.R.”, 1977

Mesmo com mulheres como Gertrude Stein, Georgia O’Keefe, Frida Kahlo ou Peggy Guggenheim, a história prova que a arte sempre foi um clube de meninos em todas as suas expressões. Para as melhores amigas e artistas Susan Williams e Barbara Zucker, a dificuldade que elas vivenciaram como artistas tentando encontrar oportunidades sem o apoio dos homens foi o combustível para dar gás em seus sonhos. Assim, em 1972, se formou a primeira cooperativa de artistas exclusivamente feminina nos Estados Unidos.

Pouco depois de um protesto liderado por mulheres no Whitney Museum ganhar as manchetes em 1970, destacando o desequilíbrio de artistas mulheres representadas nas paredes da instituição de Manhattan (menos de 5% do acervo), um grupo de vinte artistas mulheres, incluindo Dottie Attie e Howardena Pindell, se reuniu pela primeira vez para fundar o que se tornaria a A.I.R. Gallery.

—Hilma af Klint, a pioneira da arte abstrata que previu a estética do futuro com seus quadros

Em setembro daquele ano, A.I.R. Gallery realizou sua mostra de abertura em 97 Wooster Street. Dez das vinte fundadoras apresentaram seu trabalho ao mundo naquela noite, com grandes meios de comunicação mostraram interesse, como o The New York Times, que cobriu o evento. A exposição atraiu muitos curiosos, mas nem todos apoiaram a nova galeria. Depois de ver a exposição, um homem disse: “Ok, você conseguiu; você encontrou 20 boas artistas mulheres. Mas é isso.”

A criação da A.I.R coincidiu com o Movimento de Arte Feminista nos Estados Unidos durante a década de 1970. Uma das imagens mais icônicas do movimento de arte feminista foi uma peça de Mary Beth Edelson, membro do A.I.R. Uma versão da Última Ceia de Leonardo da Vinci, a imagem abordava o papel da iconografia histórica religiosa e artística na subordinação das mulheres. Edelson também foi alinhada e influenciada pelo Movimento da Deusa, que surgiu na mesma época como uma reação às percepções da religião organizada predominante como dominada por homens.

Desde a sua abertura, a galeria apresentou com sucesso shows de artistas como Judith Henry e a lutadora e artista Rosalyn Drexler. Além disso, em 1993, elas iniciaram o Programa de Bolsas para ajudar mais artistas mulheres a encontrar seu espaço no mundo da arte. Até hoje, mais de 100 artistas já fizeram parte do programa.

Mary Beth Edelson

Mary Beth Edelson. Some Living American Women Artists. 1972 | MoMA

—Méret Oppenheim: mais uma mulher que, assim como Dalí, deveria ter sido um ícone do surrealismo

A.I.R. ainda funciona como uma cooperativa, onde as participantes votam em praticamente tudo. Cada artista é responsável pela curadoria de sua mostra, o que lhes dá liberdade e mais controle sobre suas carreiras do que um negociante de arte tradicional ofereceria.

Cinquenta anos depois da inauguração da A.I.R., ainda há muito o que fazer. Mulheres artistas ainda lutam para conseguir apoio financeiro e reconhecimento, principalmente em grandes galerias. Ainda em 2016, o Guggenheim, o Metropolitan e o Whitney Museum tiveram, cada um, uma exposição individual de mulheres enquanto o Museu de Arte Moderna teve duas. O grupo ativista Guerrilla Girls relata que menos de 4% dos artistas na área de Arte Moderna do Metropolitan Museum of Art de Nova York são mulheres, mas 76% dos nus são femininos.

Publicidade

Canais Especiais Hypeness