Diversidade

‘Calunguinha’: podcast sobre reis e rainhas negras para crianças feito por adultos em busca de cura

21 • 07 • 2022 às 16:30
Atualizada em 24 • 07 • 2022 às 20:13
Kauê Vieira
Kauê Vieira   Sub-editor Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

Infância e ludicidade foram os fios condutores da conversa que tive com os criadores do “Calunguinha”, um podcast delicioso que chega com a missão de transformar a vida de crianças, sobretudo negras, em busca de uma sociedade menos cruel. 

Stela Nesrine e Lucas Moura idealizaram, junto com a contribuição fundamental do pequeno Caetano, o “Calunguinha – o contador de histórias”. Este original do Spotify está dando o que falar, dentro e fora da plataforma. 

Com uma produção absolutamente lúdica e com ingredientes mágicos e transformadores como música, um bom roteiro e a presença de crianças participando ativamente do processo criativo, “Calunguinha” rapidamente se tornou uma referência para os que querem se livrar, e suas crias também, do peso de uma história de apagamento que colocou o negro em um lugar de passividade e violência

“O roteiro é do Lucas”, diz Stela sobre o companheiro durante conversa deliciosa por chamada de vídeo com o Hypeness

Ela, que é uma exímia musicista, continua, “Compartilhamos de uma vontade da nossa infância e do que nós vemos e sentimos nesse período. Além do fato de não entrarmos em contato com o tema raça. De não se racilizar através da dor”, complementa Stela. 

É Stela que assina a produção musical, um dos trunfos de “Calunguinha”. E a jovem paulista tem razão, pois o que mais diferencia o podcast de outros conteúdos pensados para crianças negras ou não é o cuidado ao se tratar de temas delicados.

Isso se dá por meio da construção coletiva de um roteiro pensado por pessoas pretas. Embora seja assinado por Lucas Moura, o trabalho de estruturar e dar forma às palavras expressadas no “Calunguinha” é feito com o auxílio de Stela, sua companheira de vida, e do pequeno Caetano. 

Stela, Caetano e Lucas

Nasce o ‘Calunguinha’ 

O nascimento do Calunguinha se deu em meio ao caos e incerteza criados pela pandemia de covid-19, agravada por causa da omissão de um governo que priorizou o que é definido por alguns especialista como política da morte

Mas falemos de vida, afinal de contas tudo passa, inclusive métodos nefastos de gestores que fazem de tudo para prejudicar a infância de crianças como Caetano. Não passarão. 

“A Stela é mãe há cinco anos, vai fazer seis. Eu sou padrasto há dois anos e meio. Faz dois anos e meio que não existe essa ideia de ludicidade como algo separado da vida. Eu estou imerso no que é a vivência de estar com Tela e o Caetano, são a minha família”, diz Lucas, de forma orgulhosa e sem perder a doçura.

Antes de seguir um aviso: Tela é Stela e Tano, o pequeno Caetano – ludicidade e carinho que se transporta dos criadores para o “Calunguiha”. O sucesso se explica.

Seguindo. Lucas, roteirista do podcast, revela que tudo começou durante brincadeiras lúdicas dentro do apartamento pequeno em São Paulo onde os três passaram alguns dos momentos mais difíceis da pandemia que tirou a vida de quase 700 mil brasileiros e brasileiras. 

“Criamos o Calunguinha no meio da pandemia, quando estava todo mundo triste e angustiado. Ao mesmo tempo em que estávamos imersos nessa situação, acompanhamos o crescimento do Tano, ele olhando para essa situação toda. Pensávamos o tempo todo na necessidade de criar um horizonte, um futuro para ele”, recorda Lucas. 

Ainda abordando o surgimento do trabalho, Lucas ressalta que o roteiro e trilha sonora do podcast refletem esse querer. “O Calunguinha surge das dúvidas do Tano fazendo cocô”.

Parceria: Lucas, assina o roteiro. Stela, a trilha sonora

O primeiro episódio do “Calunguinha” é estrelado por Lázaro Ramos – o que diz mais sobre a qualidade do projeto do que tudo. O podcast  venceu o Soundup, iniciativa inédita no Brasil, que selecionou cerca de 20 trabalhos de criadores e criadoras negras e indígenas

O “Calunguinha” foi contemplado. “Vimos isso faltando horas para fechar. Inscrevemos dois projetos. O outro, que é muito foda, é um projeto que a Tela tem para musicistas pretas”, conta Lucas. 

O contato com Lázaro Ramos aconteceu justamente depois de terem vencido a primeira barreira. Eles estavam dentro e o “Calunguinha” mais vivo do que nunca. Tá vendo como é sobre oportunidades e não meritocracia

Stela e Lucas passaram por cerca de três fases antes de figurarem entre os cinco contemplados com o prêmio e a chance de se tornar um podcast original Spotify. 

“O processo foi muito massa. No último dia eles convidaram o Lázaro Ramos para trocar uma ideia e perguntaram a ele qual seria o tema de um podcast criado por ele nos dias atuais. Lázaro disse que faria um podcast para crianças pretas porque sente que esse conteúdo falta, no que todo mundo pressionou a gente a citar o Calunguinha”, contam ao Hypeness Stela e Lucas.  

Lucas Moura segue, “Aí eu falei ‘Lázaro, a gente tem o Calunguinha, que está para estrear e queríamos você para fazer o primeiro episódio, que é sobre o Rei Malunguinho. Ele disse que topava. Fui a partir daí que começamos a sonhar mais alto e saímos em busca das pessoas que queríamos”. 

Criação coletiva: Lucas com a pequena Marcelly Medrado

A primeira temporada de “Calunguinha – O contador de histórias” conta com nove episódios: 

– Lázaro Ramos como Rei Malunguinho 

– Roberta Estrela D’Alva como Luísa Mahin 

– Zudzilla vive João Cândido 

–  Naruna Costa é Teiniaguá 

– Yuri Marçal como Ganga Zumba 

– Aretha Sadick vive Xica Manicongo 

– Eduardo Silva e Aloysio Letra são Chaguinhas, o desatador de nós  

– Margareth de Menezes como Tereza de Benguela 

– Sidney Santiago Kwanza como Galanga,o cabelo de ouro 

Sabor de que? Sabor de casa e realidade 

Abordar o passado de um país escravocrata e racista com o Brasil para o público infantil é um desafio e tanto. É preciso ter o cuidado que faltou e falta para grande parte dos conteúdos voltados para crianças. 

Omitir o nível de crueldade que marca até hoje a trajetória das pessoas negras que nesta terra ganham seu pão não é uma opção. Presente e futuro, afinal só se constroem quando se é ciente do passado. 

O desafio maior de Stela e Lucas foi abordar o período da escravidão sem fazer com que mais uma geração de crianças pretinhas cresca pensando que seus antepassados foram fracos, que sofreram calados ou não possuem história. 

Alto lá! Nós, negros e negras, somos de uma linhagem de abolicionistas, de homens e mulheres que lutaram por justiça e para que nós pudéssemos usufruir da liberdade de alguma forma. 

Os episódios do “Calunguinha” apresentam a história de reis, rainhas e figuras emblemáticas que você não leu nos livros escolares. O apagamento é método, que ninguém se esqueça. 

Tereza de Benguela, ganha vida com a voz da cantora baiana Margareth Menezes. Tereza, para quem não sabe, foi um símbolo de democracia. A mulher liderou durante 20 anos o Quilombo do Piolho, no hoje Mato Grosso, e é chamada como a Rainha Negra do Pantanal. Benguela habitou a região do Vale do Guaporé durante o século 18. 

“Acompanhando a maternidade de Tela, eu sempre percebi que não existe um esconder dos assuntos difíceis. Existe uma conversa olhando para o horizonte. Nada do que a Tela traz para o Tano é tratado como ‘isso aqui é horrível e não tem o que fazer'”, diz Lucas sobre a escolha de abordar todos os assuntos. 

Onde tudo começa: o pequeno Caetano, de 5 anos

Stela, que é conhecida também por ser uma das 11 membras da Funmilayo Afrobeat Orquestra, banda de mulheres negras que difunde o afrobeat no Brasil, ressalta a sensação de aconchego causada pelo Calunguinha. 

Eu acho que ele [o podcast]  tem esse sabor de casa. Não é à toa que tudo se passa no quarto e no sonho. O Lu trabalha com teatro, eu com música.  A minha vida envolve muita criança. Sou a irmã mais velha de seis irmãos, então cuidei deles. Comecei a dar aula de musicalização, gosto bastante de estar junto com as crianças. 

Um aspecto interessante destacado por Stela e Lucas o tempo todo a respeito da criação e vivência com Caetano é a preocupação em oferecer goles de vida e esperança

“Tem que ser na perspectiva de um horizonte porque essa criança precisa caminhar. E aí, nessa constante de olhar pro horizonte junto com o Tano, acho que a gente acaba mergulhando nisso também”, refletem. 

De fato. A sensação de comunidade é o que mais salta aos ouvidos quando se dá o play em um dos episódios de “Calunguinha” Neste mundo de magia e ludicidade não há espaço para a hierarquização.

Adultos e crianças trocam experiências e pontos de vista que se refletem em um trabalho de qualidade e, acima de tudo, que mantém viva a chama do otimismo. Do amor. 

Faz lembrar Milton Nascimento em “Bola de Meia. Bola de Gude”: 

“Há um menino, há um moleque 

Morando sempre no meu coração 

Toda vez que o adulto balança ele vem pra me dar a mão”

Sensível e lúdico, “Calunguinha” se sustenta a partir das vivências de dois adultos negros na faixa dos 30 e poucos anos de idade e que embora tenham crescido em tempos embrutecidos pelo racismo, ainda conservam bem viva a esperança de uma infância com beleza. 

De uma infância mágica. Ao mesmo tempo que contam a história do Brasil a partir de um ponto de vista humano e honesto, apresentando conceitos de realeza, por exemplo, inspirados na cultura africana.  

“[A Margareth Menezes] começou a cantar…uma rinha sim. Rainha com autoridade no timbre de voz, naquele corpo, na presença dela, uma pessoa gente boa”, comentam Stela e Lucas. 

Gente que faz: a equipe do Calunguinha

Nós temos essas figuras todas vivas e precisamos olhar para estas pessoas contemporâneas. São nossas referências. Pense na nossa sensação e das crianças indo viajar até Salvador para gravar com ela. 

É difícil saber em quais momentos Stela e Lucas estão falando da infância de Caetano ou se misturaram este período de primeiras experiências das vidas deles em um caldeirão de emoções que deu origem ao “Calunguinha”. 

“Acho que a primeira vez que lancei um olhar sobre mim pensando que posso ser bonito também foi quando eu vi o Ícaro Silva. Sua boca, nariz, cabelo. Eu não tinha referência, não conseguia me achar bonito”, diz Lucas.

O roteirista continua, “É lindo! Eu olhei aquilo [ a estética do Ícaro Silva] como uma possibilidade diferente para mim, tanto que comecei a ver ele na ‘Malhação’ e não quis mais cortar o cabelo”.  

“Calunguinha” é sobre maternidade. É sobre paternidade. É sobre afetos. Também sobre cura para a construção de um futuro equânime e livre de sofrimento. 

Fiquemos com as palavras de Stela Nesrine, uma mulher negra, para terminarmos. 

Estou tentando resgatar uma infância que valoriza as referências dos nossos ancestrais. O Caetano tem uma família negra. Ele sabe de onde a gente veio, ele dança com orixá, sabe sobre o outro lado da família dele. Tem avó católica, parentes ateus. Não existe somente uma ancestralidade branca. É sobre entrarmos em contato com a nossa ancestralidade sem ser pela dor para vivermos de fato o poder. Brincar com a nossa realidade, poder se divertir ao conhecer essas histórias. 

Para ouvir o episódio em que Margareth Menezes é Tereza de Benguela: 

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Fotos: Letícia Aoki/Divulgação


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