Inspiração

Como a bicicleta tornou-se símbolo e veículo feminista no século 19

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01 • 07 • 2022 às 14:28
Atualizada em 05 • 07 • 2022 às 10:17
Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

Entre os muitos símbolos da luta pela igualdade de gêneros e os direitos das mulheres no ocidente, a bicicleta foi historicamente fundamental para o afirmação e libertação feminina a partir do século 19. A importância das duas rodas para o movimento feminista no ocidente, principalmente a partir do final dos anos 1890, é resumida em uma frase da grande sufragista estadunidense Susan B. Anthony: “A bicicleta fez mais pela emancipação das mulheres do que qualquer outra coisa no mundo”.

O modelo “Penny-Farthing”, popular até meados do século XIX

O perigoso modelo “Penny-Farthing”, popular até o final do século 19

-Tour de France e o machismo na ausência de uma versão feminina da maior prova do ciclismo mundial

Durante o século 19, a bicicleta se tornou popular em todo o planeta, mas o modelo mais comum ainda era o de desenho vitoriano conhecido como “Penny-Farthing”, com a roda dianteira muito maior do que a traseira. Era um veículo difícil de ser conduzido, instável e perigoso. A dificuldade era ainda maior para as mulheres, que costumavam vestir saias imensas e pesadas, com diversas camadas. Tudo começou a mudar, porém, em 1885, quando o inventor inglês John Kemp Starley criou a bicicleta segura Rover.

John Kemp Starley sobre sua Rover Safety Bicycle.

John Kemp Starley sobre sua Rover Safety Bicycle

Uma Rover Safety Bicycle de 1886 exposta no British Motor Museum, em Londres

Uma Rover Safety Bicycle de 1886 exposta no British Motor Museum, em Londres

-Essas propagandas do início do século 20 nos ajudam a entender como o machismo foi disseminado

A invenção de Starley era basicamente uma bicicleta como utilizamos até hoje, com pneus de tamanhos iguais, e uma corrente girando as rodas a partir dos pedais. A condução era incrivelmente mais fácil e segura, mas as saias continuavam imensas, atrapalhando as mulheres sobre duas rodas. A popularidade da Rover, porém, foi sem precedentes: estima-se que mais de 2 milhões de exemplares tenham sido vendidos nos EUA somente em 1897. Com isso, tornou-se inevitável que o desejo por liberdade e velocidade nas primeiras bikes modernas promovesse também uma revolução nas vestimentas femininas.

As propagandas da Rover anunciava o modelo como pensado também para mulheres

As propagandas da Rover anunciava o modelo como pensado também para mulheres

-Antigas propagandas anti sufragistas mostram pavor em garantir à mulher o direito ao voto

Assim, as primeiras calças femininas, conhecidas como Bloomers, populares entre as sufragistas de então, passaram a ser usadas embaixo de saias mais simples, para que as jovens pudessem pedalar mais e melhor. O uso de calças por mulheres causou escândalo na virada do século 19 para o século 20, mas a popularidade da bicicleta moderna era mais forte – e assim as mulheres vestindo suas Bloomers e pedalando também se tornaram populares e aceitas.

Ciclista francesa Marie Tual vestindo suas Bloomers em uma corrida em 1896

Ciclista francesa Marie Tual vestindo suas calças Bloomers em uma corrida em 1896

-Templo indiano de 2 mil anos tem imagem de bicicleta

Em 1894, a fim de contrariar a ideia de que uma mulher não conseguiria dar a volta ao mundo em uma bicicleta, a jovem Annie Cohen Kopchovsky fez justamente o que se dizia impossível: carregando somente um revólver e uma muda de roupas, ela cruzou pedalando os EUA, a Europa, a Ásia e voltou um ano depois, em 1895. Assim, Kopchovsky mostrou, na prática, a dimensão das possibilidades que a facilidade da bicicleta moderna poderia trazer às mulheres – do tamanho do mundo inteiro.

A desbravadora ciclista Annie Cohen Kopchovsky

A desbravadora ciclista Annie Cohen Kopchovsky

-Anne Lister, a primeira ‘lésbica moderna’, registrou sua vida em diários escritos em código

Não é por acaso, portanto, que apenas 5 anos após John Kemp Starley criar e popularizar a bicicleta moderna, a primeira associação americana de mulheres sufragistas foi criada, em 1895, a fim de tornar nacional a campanha pelo direito das mulheres ao voto, que seria conquistado em 1914. “As mulheres estão rumando na direção do sufrágio em uma bicicleta”, afirmou Susan B. Anthony: a revolução feminina, especialmente nos EUA, portanto, se moveu sobre duas rodas.

Kopchovsky tornou-se internacionalmente conhecida por seus feitos à época

Kopchovsky tornou-se internacionalmente conhecida por seus feitos sobre duas rodas à época

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