Reverb

Festival Turá mostra a potência da música brasileira reabrindo safra de shows no Parque do Ibirapuera

04 • 07 • 2022 às 16:23
Atualizada em 12 • 07 • 2022 às 10:06
Gabriela Rassy
Gabriela Rassy   Redatora Jornalista enraizada na cultura, caçadora de tendências, arte e conexões no Brasil e no mundo. Especializada em jornalismo cultural, já passou pela Revista Bravo! e pelo Itaú Cultural até chegar ao Catraca Livre, onde foi responsável pelo conteúdo em agenda cultural de mais de 8 capitais brasileiras por 6 anos. Roteirizou vídeo cases para Rock In Rio Academy, HSM e Quero Passagem, neste último atuando ainda como produtora e apresentadora em guias turísticos. Há quase 3 anos dá luz às tendências e narrativas culturais feministas e rompedoras de fronteiras no Hypeness. Trabalha em formatos multimídia fazendo cobertura de festivais, como SXSW, Parada do Orgulho LGBT de SP, Rock In Rio e LoollaPalooza, além de produzir roteiros, reportagens e vídeos.

O Parque do Ibirapuera é um dos melhores espaço de São Paulo para festivais ao ar livre. Emolduradas pelo Auditório do Ibirapuera, obra icônica de Oscar Niemeyer, as apresentações musicais voltaram com tudo no Festival Turá, reabrindo o gramado para receber o público apaixonado pela música brasileira. Foram dois dias memoráveis que uniram músicos consagrados com novas e deliciosas atrações que devem entrar na sua playlist – e no seu radar para as próximos eventos!

O primeiro dia de Turá começou com Larissa Luz, Roberta Sá, Xamã e Lagum, em uma boa mistura de atrações com diferentes sonoridades, sotaques e propostas musicais. Depois do set do DJ Tutu Morais, do Santo Forte, Duda Beat subiu ao palco, acompanhada de sua banda e corpo de baile.

Festival Turá ocupa Parque do Ibirapuera | Foto: Flashbang

Festival Turá ocupa Parque do Ibirapuera | Foto: Flashbang

No figurino, o body bem justinho, colorido e brilhante de Duda contrastava com o figurino preto com decotes de coração das dançarinas numa estética romance noir. Embalada pelo por do sol alaranjado e por uma linda lua crescente que sorria que decoravam o céu de São Paulo, a artista pernambucana entoou os hits de seu mais recente trabalho, “Te Amo Lá Fora”, além do sucesso do álbum anterior, “Bichinho”.

O DJ e produtor Mulú entrou para abrir e fechar o show de Paulinho da Viola com um set recheado de suas parcerias com grandes artistas da nossa música. Ele, aliás, é o grande responsável pela revolução eletrônica dos remixes que embalam as festas por esse Brasilzão, como faixas com Elza Soares, BaianaSystem, Luedji Luna e até Wesley Safadão. Em 2021, Mulú recebeu o single de platina por 16 milhões de execuções no streaming de sua canção “Meu Jeito de Amar” em parceria com Duda Beat, Lux & Tróia.

Paulinho da Viola é um dos octogenários mais amados da música brasileira. Em posse de violão e cavaco, o artista cantou seus sucessos em um show que foi paz purinha. Uma bela entrada para Emicida apresentar seu AmarElo, que encerrou a noite de sábado com o público saindo do chão e mãos balançando para o alto. As projeções mapeadas dessa apresentação e a banda incrível de Emicida são um destaque e devem entrar para sua lista de desejos de shows.

Emicida por Flashbang

O domingo no Parque do Ibirapuera começou com Baby e seu som amorzinho festivo, seguidos da porradona de Luísa e os Alquimistas. Umas das bandas mais interessantes do cenário musical atual, a banda comandada por Luísa Nascim, de Natal, Rio Grande do Norte, trouxe seu brega-punk para o palco debaixo de um sol que fazia questionar o inverno paulistano.

“Muitas vezes não é uma coisa totalmente pensada, essa coisa do look tem muita a ver com as parcerias que a gente faz e que tem muito a ver com a gente. A gente vai lançar um disco novo esse ano e (essa estética) já está indicando essa nova era”.

Luísa e os Alquimistas por Flashbang

Numa estética colorida e cheia de personalidade, a banda tocou faixas do terceiro álbum, “Jaguatirica Print”, além da recém-lançada versão piseiro de “Brechó”, do disco “Cobra Coral”, de 2016. “A gente é muito inquieto, então a gente trouxe esse momento do piseiro para o show, e temos inclusive um show de forró, mas a gente não se prende a isso. Tem essa pegada do pop internacional, do inglês, outros idiomas”, conta Luísa.

Luísa e os Alquimistas – ou LEOA para os íntimos – lançou ainda o EP “Gang da Leoa Volume 1”, em dezembro, num projeto de feats com outros artistas, e deve lançar o volume 2 em 2023. No show, rolou ainda um spoiler de uma das canções que deve entrar no próximo álbum completo, com previsão para chegar aos nossos ouvidos em setembro deste ano.

Depois de um set todo trabalhado nas brasilidades pelo DJ Leandro Pardi, responsável pela festa Pardieiro, Mart’nália subiu ao palco com o samba delicioso de Vila Isabel para completar o clima solar do Turá. Na sequência, a dupla Forró Red Light, que mistura o arrasta-pé com beats eletrônicos abriu o show do mestre Alceu Valença.

Alceu Valença por Gabriela Rassy

Alceu Valença por Gabriela Rassy

Alceu faz um show lindo e enérgico que é cantado do começo ao fim pelo público, com direito a duplinhas rodando pelo gramado do Ibirapuera ao som de clássicos como “Morena Tropicana”, “La Belle De Jour”, “Frevo Mulher” e “Coração Bobo”. O show foi emendado pelo set perfeito da DJ Th4ys, que mandou ver nas músicas pretas e periféricas rebolantes.

O show de Baco Exu do Blues é sempre uma catarse e dessa vez, ainda que mais curto, não deixou por menos. Como se não bastasse a potência do trio de backing vocals que acompanha o músico de Salvador, o show do Turá foi especial e trouxe para o palco participações da conterrânea de Baco, Illy, e o sucesso de Marina Sena.

As duas apresentaram músicas próprias, além da parceria “Quente Colorido”. Teve ainda o momento de Baco e Marina cantando a sensualíssima “Te amo disgraça” e, como disse alguém que conheço, chorei não disse por onde.

Baco Exu do Blues por Gabriela Rassy

Baco Exu do Blues, Illy e Marina Sena por Gabriela Rassy

Nunca tinha visto Nando Reis ao vivo e confesso que não costumo ouvir o som desse gigante da música pop nacional, mas desafio qualquer pessoa a ouvir uma faixa dele sem cantar de cabo a rabo as letras. Está lá dentro e não há uma pessoa que fique parada durante o show. É bracinho pro alto, é abraço nos amigos, é nostalgia de algo que vivemos coletivamente. O show teve ainda participação de Jão, enaltecido por Nando como uma revelação da música.

Na faixa “Do Seu lado”, mais uma dessas que sabemos de cor, Nando deixou sua mensagem: “Ter filhos, nosso apartamento, Fim de semana no sítio, enquanto aqui em São Paulo, Fora Bolsonaro”. O artista finalizou ainda o show fazendo um grande L com os dedos. Aliás, a tônica política passou por todos os shows, com o público endossando em coro os protestos contra o atual governo.

O Baiana System fechou a programação daquele jeitão que a gente já conhece e adora, fazendo formar uma nuvem de poeira debaixo do furação de gente. A experiência do show é única e não há relato que possa te fazer entender o que é abrir e se arremessar em uma roda daquela. Vale alongar antes e, neste caso, a máscara vinha a calhar.

Com participação da cantora e compositora chilena Claudia Manzo, que gravou “Água Benta” e “Pachamama” com a banda, o show abriu no melhor clima latino americano – ou latino amefricano, como Russo disse que aprendeu com um comentário recente nas redes da banda. Daqueles momentos de lavar a alma, ainda que cobertos de poeira.

Vida longa ao Turá e à boa música brasileira, que não se define por siglas de outros tempos, mas que se mistura às sonoridades mais variadas, que vai do pop ao rap, passando pelas latinidades, pela africanidade, pelos beats eletrônicos, pelo clássico e pelo moderno. E que quanto mais se reinventa, mais cresce e engole o mundo. Avante!

Publicidade

Fotos destaque: Gabriela Rassy
Fotos texto: Flashbang e Gabriela Rassy


Canais Especiais Hypeness

Especiais