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Greves e alta dos combustíveis: caos nos aeroportos pode tornar impossível viajar para a Europa por um bom tempo

14 • 07 • 2022 às 12:22
Atualizada em 14 • 07 • 2022 às 12:33
Yuri Ferreira
Yuri Ferreira   Redator É jornalista paulistano e quase-cientista social. É formado pela Escola de Jornalismo da Énois e conclui graduação em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo. Já publicou em veículos como The Guardian, The Intercept, UOL, Vice, Carta e hoje atua como redator aqui no Hypeness desde o ano de 2019. Também atua como produtor cultural, estuda programação e tem três gatos.

Um vídeo de um brasileiro preso em um aeroporto em Portugal viralizou. O homem afirmava estar há seis dias sem tomar banho esperando voltar para o Brasil.

Crise econômica tem causado superlotação nos saguões dos aeroportos de toda a Europa

A cena virou meme no nosso país, mas reflete uma crise intensa dentro da aviação europeia e global. Uma série de fatores culminaram em um caos aéreo de proporções raras na Europa.

Veja o vídeo:

Diversos países estão tendo que limitar uma boa parte do seu tráfego para tentar conter a crise que se instala nos lobbys dos aeroportos.

No Reino Unido e na Alemanha, companhias aéreas tiveram que instaurar um controle de limite de passagens aéreas vendidas.

Mas o que está acontecendo?

A resposta é complexa. Em resumo, as companhias aéreas estão vendendo mais passagens do que conseguem operar, causando um overbooking coletivo em todos os aeroportos.

O principal motivo é um efeito da pandemia de covid-19. Com o encolhimento do mercado de viagens entre 2020 e 2021, as empresas aéreas perderam muitos funcionários. Sem pessoas para operar todas as fases das viagens, os voos começam a atrasar.

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Ou seja: entre o guichê e a sua chegada em um destino, centenas de pessoas estão envolvidas. Pilotos, copilotos, aeromoços e aeromoças, mecânicos, pessoal de segurança, enfim. Sem pessoal suficiente para atender as demandas, as viagens passam a ser canceladas e o sistema começa a ter gargalos diversos.

“Os novos funcionários estão aprendendo rápido, mas ainda não estão na velocidade máxima. No entanto, existem algumas funções críticas no aeroporto que ainda carecem de recursos significativos, em particular os assistentes em terra, contratados pelas companhias aéreas para fornecer pessoal de check-in, carregar e descarregar malas e aeronaves”, explica o CEO do aeroporto de Heathrow, em Londres, John Holland-Kaye, em nota à imprensa.

Alta nos combustíveis agrava situação

Mas a falta de funcionários não é o único problema. De acordo com o Fuel Price Index, o valor do combustível de aeronaves subiu 82% em comparação com o ano passado. Com custos operacionais mais caros em meio a uma grave crise energética, as empresas aéreas perdem a capacidade de investimento em áreas como contratação de funcionários e expansão de seus serviços a curto prazo.

“Infelizmente, é difícil falar realisticamente de alguma resolução verdadeira de curto prazo agora no verão. A normalidade só deve voltar ao normal no ano que vem”, afirmou Detlef Kayser, um dos executivos da Lufthansa, empresa de aviação alemã, ao Die Welt.

Crise política e econômica

A crise política e econômica que desemboca nos aeroportos europeus tem diversas origens. Como citamos, a alta no preço dos combustíveis é um dos principais fatores para uma inflação galopante que tem atingido os países da Europa. Mais da metade continente vê os preços subirem mais de 20% e mesmo economias estáveis como França e Reino Unido observam uma inflação acima dos 8,5% anualmente.

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O aumento de preços tem a ver com a invasão russa à Ucrânia. As sanções econômicas fizeram com que a guerra se tornasse uma queda de braço entre União Europeia e EUA contra Moscou. A Rússia tem tido superávit comercial em sua venda de petróleo e gás, além de ter conseguido valorizar substancialmente sua moeda no mercado internacional.

Por outro lado, a economia europeia tem perdido fôlego econômico, com uma considerável desvalorização do Euro. A crise energética gerou graves efeitos nas reservas da Europa Ocidental, que também observa uma real vertente de crises políticas em seus países.

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Os aumentos nos preços também escancaram problemas frente ao próprio modelo político dos europeus. Na Alemanha, o recém-eleito primeiro ministro Olaf Scholz tem reprovação de 61% da população germânica. Macron, também recém reeleito na França, enfrenta margens de rejeição similares. Boris Johnson renunciou após uma sequência de escândalos e uma crise econômica. – ele deve deixar o número 10 de Downing Street até setembro.

Queda de Boris Johnson e insatisfação com trabalhistas e conservadores ao redor de toda a Europa coloca sistema político em crise

Ao mesmo tempo, estes países afirmam ter que investir mais em equipamentos militares sob a justificativa de proteção contra a Rússia. Além disso, muitos dos equipamentos militares europeus que foram dados para o governo Zelensky acabaram capturados e destruídos pelos russos. Esses esforços reduzem a capacidade de investimento em soluções reais para os problemas econômicos sofridos ao redor de toda a Europa.

Some a isso diversas crises locais, com greves de trabalhadores portuários, professores, operários, caminhoneiros e agricultores, que também exigem aumento de subsídios e redução nos preços de combustíveis.

Adicione nesta receita a política de covid zero da China que, em troca de seu crescimento, tem reduzido a atividade econômica global, diminuindo a oferta de produtos dentro do solo europeu. Cadeias de produção de remédios, roupas, alimentos, circuitos integrados e bens tecnológicos.

O fim da crise é imprevisível. É um mistério entender como os países tentarão escapar da guerra econômica contra Vladimir Putin e de suas crises internas. Mas o futuro não parece tranquilo na Europa.

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Fotos: © Getty Images


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