Inspiração

Hamilton Naki: a vida do cirurgião negro vital para o 1º transplante de coração do mundo

22 • 07 • 2022 às 09:58
Atualizada em 24 • 07 • 2022 às 20:17
Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

O sul-africano Hamilton Naki foi um cirurgião, professor e pesquisador que, autodidata e sem estudos formais de medicina,  contribuiu direta e valiosamente para o sucesso do primeiro transplante de coração de todos os tempos, realizado na África do Sul, em 1967.

A dimensão precisa e os detalhes dessa contribuição, porém, podem ter acabados soterrados pelo preconceito e o apagamento que marcam o Apartheid e, assim, a forma como as memórias são contadas, guardadas e lembradas.

O sul-africano Hamilton Naki, um dos pioneiros nas pesquisas de transplante de coração

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Um gênio em um país racista

Negro e filho de uma família pobre em um país marcado pelo racismo radical, Naki nasceu em uma pequena aldeia chamada Ngcingane, em Cabo Leste, na África do Sul, e chegou à Universidade da Cidade do Cabo com 14 anos (e apenas 6 anos de escolaridade completos) para trabalhar como jardineiro.

Sua entrada na medicina se deu quase por acaso, convocado pelo médico Robert Goetz para assisti-lo nos laboratórios, inicialmente cuidando das jaulas dos animais utilizados como cobaias.

Naki auxiliando procedimento na sala de cirurgia: oficialmente ele jamais operou uma pessoa

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Aos poucos, porém, ele foi mostrando talento como assistente cirúrgico e mesmo com o bisturi, essencialmente em procedimentos com animais. Anos depois, o médico Christiaan Barnard, que se tornaria o primeiro a realizar o transplante de coração, percebeu suas capacidades especiais, e o chamou para ser seu assistente. Apesar de seguir registrado como faxineiro e jardineiro, Naki passou a ser reconhecido como um dos quatro técnicos de laboratório de pesquisa da Faculdade de Medicina.

Mesmo sem formação, além de trabalhar ele podia estudar no laboratório, e recebia o alto salário do cargo que de fato ocupava. Anos mais tarde, Barnard viria a dizer que seu assistente era “um dos maiores pesquisadores de todos os tempos no campo dos transplantes de coração”, e que “se Hamilton tivesse tido a oportunidade de estudar, teria se tornado um cirurgião brilhante”.

O médico Christiaan Barnard, o primeiro a realizar um transplante de coração no mundo

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Vital pra técnicas de transplante 

O conhecimento de Naki se revelou fundamental para o desenvolvimento de técnicas de transplante, reconhecimento de anomalias, se especializando em cirurgias de fígado, e no ensino de centenas de estudantes ao longo dos anos.

Se não há controvérsias sobre seu talento e o impedimento provocado pelo racismo sistêmico e o preconceito – que privou o mundo de um médico verdadeiramente brilhante – a grande questão que permanece é sobre Naki ter ou não participado do histórico primeiro transplante de coração, que Barnard realizou em Louis Washkansky em 3 de dezembro de 1967.

Barnard ao lado de Philip Blaiberg, segundo transplantado e o primeiro a sobreviver por bastante tempo

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Em entrevistas, nos últimos anos de sua vida, Naki afirmou que sim, estava na sala, atuou como assistente e até mesmo auxiliou na retirada do órgão do peito do paciente. Pesquisadores, historiadores e especialistas, porém, negam tal possibilidade, afirmando que, ainda que fosse totalmente capacitado, ele não era um médico formado, e sua participação seria ilegal – também por se tratar de um homem negro, em um estado racista como era a África do Sul no Apartheid.

O contexto da sala de transplante de coração na Universidade em 1967

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A família de Naki, porém, discorda de tal conclusão, e reitera a revelação de que ele teria sim participado do procedimento. Novamente, a força do preconceito e das práticas de apagamento que regem a história tornam difícil encontrar uma verdadeira versão para essa disputa de hipóteses.

Para além da controvérsia, o fato é que, de todo modo, o nome de Hamilton Naki tem de estar inscrito em uma das páginas mais brilhantes da história da medicina.

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“Ele era uma dessas pessoas incríveis que aparecem uma vez na vida. Um homem sem formação, que dominou técnicas no mais alto nível, e as transmitiu a jovens médicos”, definiu Ralph Kirsch, chefe do Centro de Pesquisas do Fígado na Universidade da Cidade do Cabo. Em 2002, quando o Apartheid já havia acabado, ele recebeu uma medalha de Ordem Nacional de Mapungubwe e, no ano seguinte, um diploma de notório saber de medicina pela mesma Universidade da qual se aposentou – como faxineiro e jardineiro. Naki morreu em 29 de maio de 2005 aos 78 anos, por conta justamente de problemas cardíacos.

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© foto 1: Wikimedia Commons

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© fotos 3, 4, 5: Getty Images

© foto 6: ASSCOM/mdig.com.br/reprodução


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