Ciência

‘Julho das Pretas’ e a importância de Lélia Gonzalez

18 • 07 • 2022 às 10:18
Atualizada em 18 • 07 • 2022 às 10:18
Redação Hypeness
Redação Hypeness Acreditamos no poder da INSPIRAÇÃO. Uma boa fotografia, uma grande história, uma mega iniciativa ou mesmo uma pequena invenção. Todas elas podem transformar o seu jeito de enxergar o mundo.

Filha de uma empregada doméstica de origens indígenas e de um operário ferroviário negro, Lélia Gonzalez foi e ainda é um dos nomes mais importantes no ativismo feminino e negro no Brasil. Professora, filósofa e antropóloga, Lélia participou de organizações políticas que foram de extrema importância para o movimento negro durante a Ditadura Militar brasileira, como pro exemplo a fundação do Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial, que depois se tornou apenas Movimento Negro Unificado (MNU).

Em montagem feita pelo ‘El País’, Lélia aparece em três momentos: aos 31 anos; aos 37; e aos 45 / Foto: Arquivo pessoal

Precursora em várias questões dentro do feminismo brasileiro, a abordagem ideológica de Lélia Gonzalez é pautada na interseccionalidade, pensamento que parte da ideia de que não é possível construir um feminismo plural e acolhedor para todas as mulheres se não houver o reconhecimento de que há diversas formas de opressão de mulheres que também passam questões de raça, classe. Ao reconhecer a relevância das problemáticas levantadas pelo feminismo branco e europeu e adicionar com ênfase os recortes interseccionais que são imprescindíveis para entender e analisar o contexto de opressão patriarcal no Brasil, Lélia Gonzalez propôs o que chamou de um feminismo afro-latino-americano.

Lélia Gonzalez nos anos 70. Foto: Arquivo pessoal

Nesse feminismo, a antropóloga defende que, em um país cuja formação inicial se deu, majoritariamente, a partir de mulheres negras e indígenas, não é aceitável nem coerente que moldes de um feminismo branco, europeu, que parte de questões que pouco dizem respeito às necessidades de mulheres não brancas, padronize a luta das feministas brasileiras.

Julho das Pretas

Lélia nos deixou em 1994, mas seu legado vive e floresce. Uma conquista vinda dessa luta encabeçada por ela é o Dia Internacional da Mulher Negra Afro Latina Americana e Caribenha. A data foi instituída em 25 de julho de 1992, na República Dominicana, onde mulheres negras de mais de 70 países reuniram-se para a realização do 1º Encontro de Mulheres Negras da América Latina e do Caribe. Desde então o dia 25 de julho marca esse momento de luta e reflexão.

No Brasil, existem atividades e celebrações desta data como o “Julho das Pretas” que é uma ação de incidência política e agenda conjunta e propositiva com organizações e movimento de mulheres negras do Brasil, voltada para o fortalecimento da ação política coletiva e autônoma das mulheres negras nas diversas esferas da sociedade. A ação foi criada em 2013, pelo Odara – Instituto da Mulher Negra. O Julho das Pretas todos os anos traz temas importantes e necessários relacionados à superação das desigualdades de gênero e raça, colocando a pauta e agenda política das mulheres negras em evidência.

Com o tema Mulheres Negras no Poder, Construindo o Bem Viver, a agenda coletiva da 10ª edição do Julho das Pretas conta com 427 atividades realizadas por mais de 200 organizações de mulheres negras em 18 estados brasileiros, além de uma atividade em Paris, na França. Após dois anos de atividades virtuais, por conta da pandemia de Covid-19, o Julho das Pretas deste ano retoma suas atividades presenciais e nas ruas com diversos atos e manifestações por todo o país. A edição de 2022 marca os 10 anos de realização do Julho das Pretas e 30 anos desde que o movimento de mulheres negras da América Latina e Caribe declarou o 25 de Julho como o Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha.

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Foto de capa: Acervo Fundação Palmares

Foto 1: Reprodução El País com fotos do arquivo pessoal

Foto 2: Arquivo pessoal

Foto 3: Instituto Odara


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